Debaixo do chão de uma casa quase em ruínas, no centro histórico de Loulé, estavam os banhos públicos de uma cidade islâmica.
Ninguém sabia que estavam lá.
Essa cidade chamava-se Al-'Ulyà, e é Loulé antes de Loulé se chamar Loulé. Dela ficou uma coisa à vista de toda a gente: o minarete da mesquita não foi deitado abaixo. Tornou-se a torre sineira da igreja matriz, dedicada a São Clemente, e ali continua. Da mesquita sabia-se onde era. Dos banhos não havia morada nenhuma. As fontes escritas, diz o decreto que os classificou, não fazem qualquer menção à localização de um hammam.

Apareceram por acaso. Em 2006, a Câmara Municipal de Loulé comprou o imóvel, no Largo de D. Pedro I, sabendo apenas, por uma notícia antiga, que ali havia uns arcos; por fora, escreve o Museu Municipal, era «aparentemente uma casa comum». Os banhos estavam mais de dois metros e meio abaixo da cidade atual, ocultos sob os pavimentos e alicerces da casa e soterrados por várias centenas de metros cúbicos de terra.
As escavações duraram de 2006 a 2019, treze anos. O primeiro indício foram as chaminés. Estavam embutidas na parede, e chaminés dentro de uma parede não servem uma cozinha: conduzem vapor. A partir delas, as arqueólogas municipais Isabel Luzia e Alexandra Pires identificaram a sala quente e, por baixo do pavimento, o hipocausto que a aquecia. O edifício acabaria por se revelar dividido em cinco espaços: sala fria, sala tépida, sala quente, compartimento da fornalha e vestíbulo. Em julho de 2023, o Decreto n.º 17/2023 classificou os banhos como monumento de interesse nacional, com a designação de «monumento nacional». São, diz o diploma, os primeiros e, até agora, únicos edifícios desta tipologia arqueologicamente documentados em Portugal, e uns dos mais completos complexos do género identificados na Península Ibérica.

Al-'Ulyà começou como uma alcaria, uma pequena aldeia rural, na transição dos séculos XI e XII, e tornou-se uma pequena cidade próspera e fortificada, num cruzamento de caminhos que iam para o interior, para Faro e para Silves; era assim que a descreviam nas vésperas da conquista cristã. Os banhos foram erguidos no século XII, encostados à muralha da mesma época, perto da alcáçova e da entrada principal, que era onde estas casas de banho costumavam ficar: à porta, para servir quem chegava de viagem. Serviam para a ablução e para banhos mais demorados, e eram frequentados por homens e por mulheres, em horários distintos.
Em janeiro de 2014, durante as obras do centro histórico, abriram-se valas para instalar uma caixa de recolha de águas pluviais. As valas foram dar aos tanques frios, às latrinas e aos vestíbulos, que ninguém sabia que existiam. A caixa é que teve de mudar de sítio.

Quanto ao edifício de cima, foi levantado entre o final do século XV e o início do século XVI, em terreno doado por D. Afonso V a Gonçalo Nunes Barreto. Os Barreto eram senhores do Morgado de Quarteira e alcaides de Loulé, gente da governança da terra, e a casa que construíram é, nas palavras da museóloga Dália Paulo, singular no contexto do património da região: os sucessivos terramotos por que o Algarve passou não deixaram muitos edifícios antigos de pé.
E há um pormenor que a mesma autora regista. Quando o terreno lhes foi doado, a memória dos banhos já se tinha perdido entre as pessoas.

Construiu-se por cima sem se saber por cima de quê.
Em 2014 assinou-se um protocolo com a Universidade do Algarve e com o Campo Arqueológico de Mértola, os mesmos arqueólogos de quem aqui já falámos, e foi com a equipa de Cláudio Torres que se percebeu que aquele espaço tinha de avançar para a musealização.

E foi então que o problema deixou de ser teórico.
Os dois edifícios não podiam ser mostrados por inteiro ao mesmo tempo, porque um assentava no outro: o chão da casa senhorial era o teto dos banhos. Para se ver a entrada do hammam, era preciso levantar e mudar de sítio uma calçada da casa. Para se dar ao visitante a dimensão das salas de banho, era preciso recriar, por cima das colunas da casa, tetos abobadados que já não existiam. E havia partes que, mostradas, não diziam nada a ninguém.

Conta Dália Paulo, que dirigiu o processo e o publicou num artigo académico, que foram chamados a dar parecer especialistas de várias formações. As opiniões dividiram-se, e as duas estavam fundamentadas: uma defendia salvaguardar a Casa Senhorial dos Barreto apenas pelo registo, documentando-a antes de a sacrificar; a outra defendia conservar os dois edifícios no sítio. E por baixo da questão técnica havia outra, que a equipa pôs por escrito: a de perceber se tinham sequer o direito de fazer escolhas que «eliminassem» um dos edifícios a favor do outro.
Não é uma pergunta de arqueologia. É uma pergunta sobre o que uma geração pode decidir em nome das que vêm a seguir.
O tempo urgia, escreve a museóloga, e era preciso decidir. A decisão era da Câmara Municipal de Loulé.
O espaço está aberto ao público desde maio de 2022. Quem lá entrar hoje vê, ao nível da rua, as colunas e um arco em ogiva da casa dos Barreto, com a arcaria que falta desenhada a ferro ao lado; depois desce mais de dois metros e meio, até ao pavimento dos banhos, onde um jogo de luz mostra logo qual era o lado quente. Houve partes que já não conseguiam «falar»: foram registadas e outra vez enterradas.
Mostrar bem um deles custava o outro.
Ficaram os dois.
Fontes8 referências
- Decreto n.º 17/2023, de 14 de julho (Diário da República). Classifica os Banhos Islâmicos de Loulé como monumento de interesse nacional, com a designação de «monumento nacional». É a fonte primária, e a mais cautelosa nas suas formulações.
- PAULO, Dália, «Os Banhos Islâmicos de Loulé e a Casa Senhorial dos Barreto: da arqueologia urbana à musealização de um sítio singular», Medievalista, 34 (2023). O relato do processo de decisão, pela museóloga que o dirigiu.
- Museu Municipal de Loulé, ficha do espaço museológico dos Banhos Islâmicos e Casa Senhorial dos Barreto.
- Património Islâmico em Portugal (Universidade Lusófona), ficha do complexo balnear de Loulé. Ficha desatualizada, anterior ao projeto de musealização, usada apenas para o que não caducou.
- Jornal de Notícias, 20 de janeiro de 2014, «Escavações em Loulé revelam complexo balnear islâmico único em Portugal».
- TSF, 26 de maio de 2022, «Únicos banhos islâmicos descobertos em Portugal abrem ao público».
- National Geographic Portugal, 7 de fevereiro de 2025, «Os banhos islâmicos de Loulé».
- LUZIA, Isabel; PIRES, Alexandra, «A escavação arqueológica da Casa das Bicas e o edifício do hammam de Loulé», al-'Ulyà, 14 (2013).
