Descobrimentos · episódio 6

Ao fim de sete meses no Saara, um escudeiro do Infante D. Henrique viu batéis portugueses a procurar os navios e gritou-lhes da praia.

Pintura da enseada do Rio do Ouro, na costa do Saara Ocidental, com um homem na praia à espera de velas. A partir de uma fotografia real de Hugues (CC BY-SA 2.0).
FIG. 02Pintura da enseada do Rio do Ouro, na costa do Saara Ocidental, com um homem na praia à espera de velas. A partir de uma fotografia real de Hugues (CC BY-SA 2.0).

Os marinheiros julgaram que era um homem da terra, vestido como os outros. Só perceberam quem era quando ele falou e disse o nome.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 61v: «Johan fffz avia ja sete meses que morava em aqlla terra» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 03O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 61v: «Johan fffz avia ja sete meses que morava em aqlla terra» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Chamava-se João Fernandes, e ninguém o obrigara a ficar. Sete meses antes, as caravelas de Antão Gonçalves tinham-no deixado no Rio do Ouro, uma enseada na costa do atual Saara Ocidental. Nessa viagem houve dois gestos em sentido contrário: um velho daquela terra quis vir a Portugal ver o Infante, e um escudeiro do Infante quis ficar lá. Gomes Eanes de Zurara, o cronista destas viagens, confessa que se espantou mais com o segundo, que ficou «soomente polla veer, e trazer novas ao Iffante». E trouxe-as: um deserto que se atravessava como se atravessa o mar.

Pintura de João Fernandes com o alquicé que lhe deram, entre os pastores de ovelhas com quem viveu no Saara (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 04Pintura de João Fernandes com o alquicé que lhe deram, entre os pastores de ovelhas com quem viveu no Saara (figuras genéricas, não retratos).

Em 1445, João Fernandes vivia entre os azenegues, os pastores do deserto. Pouco se sabe dele fora destes meses, mas sabe-se que não ia às cegas: tinha estado cativo entre mouros, do lado do Mediterrâneo, e aprendera lá a língua. Zurara não sabia se lhe serviria entre aquela gente, e maravilhava-se de um homem ficar numa terra onde nunca estivera, sem conhecer ninguém, entre gente de quem não sabia os costumes. A Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa chama-lhe o primeiro «lançado» de que há notícia, nome que se dava aos homens que se embrenhavam no interior de África para conhecer os usos, as línguas e o comércio dos povos. Tudo o que viu chegou até nós porque ele o contou e Zurara o escreveu, na Crónica da Guiné.

Pintura da travessia até Ahude Meimão, três dias sem água, com os homens a guiarem-se pelos ventos e pelas aves, segundo o relato que Zurara registou (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Pintura da travessia até Ahude Meimão, três dias sem água, com os homens a guiarem-se pelos ventos e pelas aves, segundo o relato que Zurara registou (figuras genéricas, não retratos).

Ficou com uma família daquela terra. Tiraram-lhe, contra a sua vontade, a roupa, o biscoito e o trigo que levava, e deram-lhe um alquicé, o manto que todos ali vestiam. Eram pastores de ovelhas. Foi com eles e com os rebanhos para o interior, e muitas vezes, conta Zurara, não tinha leite que o fartasse.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 128v: os homens com quem ia «nõ se guyavã senõ pellos ventos segundo fazem no mar», e logo a seguir a chegada ao acampamento de Ahude Meimão (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 06O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 128v: os homens com quem ia «nõ se guyavã senõ pellos ventos segundo fazem no mar», e logo a seguir a chegada ao acampamento de Ahude Meimão (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Um dia passaram dois homens a cavalo, a caminho de onde andava um tal Ahude Meimão, e perguntaram-lhe se queria ir. Respondeu que sim, porque ouvira dizer que era homem nobre e queria conhecê-lo. Puseram-no num camelo. A água que levavam acabou-se, e andaram três dias sem beber. Chegaram por fim onde andava Ahude Meimão, com os filhos e outros, uns cento e cinquenta homens, segundo Zurara. Recebeu-o muito bem e mandou que lhe dessem do leite de que ele próprio vivia. Quando os navios o foram buscar, estava bem tratado e «de boa collor».

Pintura da chegada ao acampamento de Ahude Meimão, que, segundo Zurara, o recebeu bem e mandou dar-lhe do leite de que ele próprio vivia (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Pintura da chegada ao acampamento de Ahude Meimão, que, segundo Zurara, o recebeu bem e mandou dar-lhe do leite de que ele próprio vivia (figuras genéricas, não retratos).

O que viu, contou-o depois. A terra era toda de areia, com outeiros e serras de areia, e erva só nas baixas. A água era de poços; rios correntes, quase nenhuns. As árvores eram pequenas, espinheiros, e nalguns lugares palmeiras. Aquela areia, disse, ia até à terra dos negros, e até ao Mediterrâneo e ao Egito, povoada de pastores que viviam em tendas e andavam com os gados atrás do pasto. Havia muitos camelos, e alguns, dizia ele, andavam cinquenta léguas num dia.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 128v: as andorinhas que partem no verão e vão «invernar sobre aquellas areas», e as cegonhas que passam à terra dos negros (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 08O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 128v: as andorinhas que partem no verão e vão «invernar sobre aquellas areas», e as cegonhas que passam à terra dos negros (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Reparou também nas aves. As andorinhas que partem de cá no verão, contou, vão passar o inverno sobre aquelas areias. As cegonhas vão mais longe, até à terra dos negros.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 62v: o título do capítulo XXXV e o que garantiram a Zurara, que à partida de João Fernandes muitos dos que tinham vivido com ele «choravam cõ soydoso pensamento» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 09O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 62v: o título do capítulo XXXV e o que garantiram a Zurara, que à partida de João Fernandes muitos dos que tinham vivido com ele «choravam cõ soydoso pensamento» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Mas o que fica daquele capítulo é o modo de atravessar o deserto. Naquela terra, disse, não havia caminho certo, a não ser os da beira-mar. Para saber onde havia gente, olhava-se o céu: onde andavam corvos e abutres, ali estava gente. E os homens com quem ia não se guiavam senão pelos ventos, «segundo fazem no mar». Os portugueses tinham chegado àquela costa por mar. Um deles desceu do navio, meteu-se terra adentro e encontrou um povo que também navegava, sobre a areia. E atravessou-a com eles.

Ao fim dos sete meses, ia muitas vezes à praia ver se apareciam velas. Quando os batéis chegaram, João Fernandes contou a Antão Gonçalves que ali perto estava Ahude Meimão, que trazia cativos negros para negociar, e fez vir a gente à praia. Por coisas de pouco valor, Ahude Meimão deixou a Antão Gonçalves nove cativos e um pouco de ouro em pó, e o lugar ficou a chamar-se Cabo do Resgate. Nos anos seguintes, João Fernandes voltou àquela costa nas viagens do Infante, e numa delas Zurara ainda o apresenta como «aquelle scudeiro que ficara os sete mezes antre os Mouros de Zaara».

Logo a seguir ao relato do escudeiro, Zurara faz a conta: até ao ano de 1446 tinham ido àquelas partes cinquenta e uma caravelas. E escreve que o que antes se pintava no mapa-múndi daquela costa não era verdade, porque se pintava «a aventura», e que o que agora se punha nas cartas era «cousa vista por olho». No Bojador, Gil Eanes trouxera umas ervas como sinal de terra. Este escudeiro trouxe a própria terra, contada por dentro.

Zurara não se cansava de se espantar. Um homem criado a pão, vinho e carne, escreve, a viver sete meses de leite de camela, a beber água salobra, e nem essa com fartura, numa terra quente e de areia. E acrescenta: «eu conheci ainda este scudeiro». Homem de boa consciência, diz.

Quando João Fernandes se foi embora, garantiram a Zurara, muitos dos que tinham vivido com ele aqueles sete meses choraram. Choraram de saudade, «com soydoso pensamento».

Fontes6 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, ed. J. P. Aillaud, Paris, 1841, caps. XXIX, XXXIV, XXXV, LXXVII, LXXVIII, XC e XCIII. archive.org
  • Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos feitos da Guiné, manuscrito, Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, ff. 61v a 64r e 126v a 129r (Wikimedia Commons, domínio público).
  • Teresa Lacerda, «João Fernandes», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, 2009. eve.fcsh.unl.pt
  • Vitorino Magalhães Godinho, «Fontes quatrocentistas para a geografia e economia do Saara e Guiné», Revista de História, São Paulo, 1953. revistas.usp.br
  • «Fernandez, John», Encyclopaedia Britannica, 11.ª ed., 1911.
  • «João Fernandes», Encyclopaedia Britannica. britannica.com