Descobrimentos · episódio 6
Ao fim de sete meses no Saara, um escudeiro do Infante D. Henrique viu batéis portugueses a procurar os navios e gritou-lhes da praia.

Os marinheiros julgaram que era um homem da terra, vestido como os outros. Só perceberam quem era quando ele falou e disse o nome.

Chamava-se João Fernandes, e ninguém o obrigara a ficar. Sete meses antes, as caravelas de Antão Gonçalves tinham-no deixado no Rio do Ouro, uma enseada na costa do atual Saara Ocidental. Nessa viagem houve dois gestos em sentido contrário: um velho daquela terra quis vir a Portugal ver o Infante, e um escudeiro do Infante quis ficar lá. Gomes Eanes de Zurara, o cronista destas viagens, confessa que se espantou mais com o segundo, que ficou «soomente polla veer, e trazer novas ao Iffante». E trouxe-as: um deserto que se atravessava como se atravessa o mar.

Em 1445, João Fernandes vivia entre os azenegues, os pastores do deserto. Pouco se sabe dele fora destes meses, mas sabe-se que não ia às cegas: tinha estado cativo entre mouros, do lado do Mediterrâneo, e aprendera lá a língua. Zurara não sabia se lhe serviria entre aquela gente, e maravilhava-se de um homem ficar numa terra onde nunca estivera, sem conhecer ninguém, entre gente de quem não sabia os costumes. A Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa chama-lhe o primeiro «lançado» de que há notícia, nome que se dava aos homens que se embrenhavam no interior de África para conhecer os usos, as línguas e o comércio dos povos. Tudo o que viu chegou até nós porque ele o contou e Zurara o escreveu, na Crónica da Guiné.

Ficou com uma família daquela terra. Tiraram-lhe, contra a sua vontade, a roupa, o biscoito e o trigo que levava, e deram-lhe um alquicé, o manto que todos ali vestiam. Eram pastores de ovelhas. Foi com eles e com os rebanhos para o interior, e muitas vezes, conta Zurara, não tinha leite que o fartasse.

Um dia passaram dois homens a cavalo, a caminho de onde andava um tal Ahude Meimão, e perguntaram-lhe se queria ir. Respondeu que sim, porque ouvira dizer que era homem nobre e queria conhecê-lo. Puseram-no num camelo. A água que levavam acabou-se, e andaram três dias sem beber. Chegaram por fim onde andava Ahude Meimão, com os filhos e outros, uns cento e cinquenta homens, segundo Zurara. Recebeu-o muito bem e mandou que lhe dessem do leite de que ele próprio vivia. Quando os navios o foram buscar, estava bem tratado e «de boa collor».

O que viu, contou-o depois. A terra era toda de areia, com outeiros e serras de areia, e erva só nas baixas. A água era de poços; rios correntes, quase nenhuns. As árvores eram pequenas, espinheiros, e nalguns lugares palmeiras. Aquela areia, disse, ia até à terra dos negros, e até ao Mediterrâneo e ao Egito, povoada de pastores que viviam em tendas e andavam com os gados atrás do pasto. Havia muitos camelos, e alguns, dizia ele, andavam cinquenta léguas num dia.

Reparou também nas aves. As andorinhas que partem de cá no verão, contou, vão passar o inverno sobre aquelas areias. As cegonhas vão mais longe, até à terra dos negros.

Mas o que fica daquele capítulo é o modo de atravessar o deserto. Naquela terra, disse, não havia caminho certo, a não ser os da beira-mar. Para saber onde havia gente, olhava-se o céu: onde andavam corvos e abutres, ali estava gente. E os homens com quem ia não se guiavam senão pelos ventos, «segundo fazem no mar». Os portugueses tinham chegado àquela costa por mar. Um deles desceu do navio, meteu-se terra adentro e encontrou um povo que também navegava, sobre a areia. E atravessou-a com eles.
Ao fim dos sete meses, ia muitas vezes à praia ver se apareciam velas. Quando os batéis chegaram, João Fernandes contou a Antão Gonçalves que ali perto estava Ahude Meimão, que trazia cativos negros para negociar, e fez vir a gente à praia. Por coisas de pouco valor, Ahude Meimão deixou a Antão Gonçalves nove cativos e um pouco de ouro em pó, e o lugar ficou a chamar-se Cabo do Resgate. Nos anos seguintes, João Fernandes voltou àquela costa nas viagens do Infante, e numa delas Zurara ainda o apresenta como «aquelle scudeiro que ficara os sete mezes antre os Mouros de Zaara».
Logo a seguir ao relato do escudeiro, Zurara faz a conta: até ao ano de 1446 tinham ido àquelas partes cinquenta e uma caravelas. E escreve que o que antes se pintava no mapa-múndi daquela costa não era verdade, porque se pintava «a aventura», e que o que agora se punha nas cartas era «cousa vista por olho». No Bojador, Gil Eanes trouxera umas ervas como sinal de terra. Este escudeiro trouxe a própria terra, contada por dentro.
Zurara não se cansava de se espantar. Um homem criado a pão, vinho e carne, escreve, a viver sete meses de leite de camela, a beber água salobra, e nem essa com fartura, numa terra quente e de areia. E acrescenta: «eu conheci ainda este scudeiro». Homem de boa consciência, diz.
Quando João Fernandes se foi embora, garantiram a Zurara, muitos dos que tinham vivido com ele aqueles sete meses choraram. Choraram de saudade, «com soydoso pensamento».
Fontes6 referências
- Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, ed. J. P. Aillaud, Paris, 1841, caps. XXIX, XXXIV, XXXV, LXXVII, LXXVIII, XC e XCIII. archive.org
- Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos feitos da Guiné, manuscrito, Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, ff. 61v a 64r e 126v a 129r (Wikimedia Commons, domínio público).
- Teresa Lacerda, «João Fernandes», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, 2009. eve.fcsh.unl.pt
- Vitorino Magalhães Godinho, «Fontes quatrocentistas para a geografia e economia do Saara e Guiné», Revista de História, São Paulo, 1953. revistas.usp.br
- «Fernandez, John», Encyclopaedia Britannica, 11.ª ed., 1911.
- «João Fernandes», Encyclopaedia Britannica. britannica.com
