Descobrimentos · episódio 12
Na ilha de Santiago, em Cabo Verde, as aves esperavam os homens sem fugir, e os figos nasciam agarrados ao tronco das figueiras. Contou-o mais tarde um dos que lá desembarcaram por volta de 1460.

Poucos anos depois, o rei de Portugal escrevia que, por ser a ilha tão longe do reino, «a jemte nom quer a ella hyr viuer»: a gente não quer lá ir viver, senão com muito grandes liberdades e franquezas.

Hoje, o lugar onde essa gente acabou por ir viver chama-se Cidade Velha. Em 2009, a UNESCO inscreveu-o na Lista do Património Mundial, o primeiro sítio de Cabo Verde a lá entrar, e chama-lhe a primeira cidade colonial europeia construída nos trópicos. Entre a queixa do rei e essas palavras fica um vale, e por ele passaram, a caminho de outras terras, plantas de vários continentes, dizem a UNESCO e o ICOMOS.

O homem das aves chamava-se Diogo Gomes, almoxarife do paço de Sintra. Conta que vinha a caminho de Portugal com outra caravela, a de António de Noli, genovês, e que ao fim de dois dias e uma noite viram ilhas no mar. A dele, mais veleira, chegou primeiro. Quis ser o primeiro a pôr pé em terra, e diz que o foi. Não viram sinal de gente. Chamaram à ilha Santiago: «até agora assim se chama», escreve.

Depois, conta ainda, Noli chegou a Portugal antes dele e pediu ao rei a capitania da ilha «que eu descobrira». O rei deu-lha. Os documentos do rei dão o achamento de cinco ilhas, Santiago à cabeça, a António de Noli, que não deixou relato nenhum. Quem chegou primeiro é coisa que as fontes não resolvem.

Resolvem outra coisa. A 12 de junho de 1466, em Beja, D. Afonso V escreveu que o irmão, o infante D. Fernando, senhor da ilha, lhe mandara dizer que começara a povoá-la havia quatro anos. E vinha a queixa: era longe de mais, e sem grandes liberdades a gente não ia.

A resposta foi uma carta de privilégios. Os moradores de Santiago ficavam, para sempre, com licença para irem com os seus navios tratar e resgatar em todos os tratos da Guiné, salvo o de Arguim, sem terem de vir ao reino pedir autorização. Resgatar, na língua do tempo, era comerciar por troca. Pagavam ao rei o quarto do que trouxessem, e não pagavam dízima no reino das mercadorias que de lá viessem. Uma quitação de 1496 regista o que o rei recebeu desse quarto nas caravelas que os moradores armaram para a Guiné entre 1491 e 1493: ouro, escravos, marfim, arroz e milho, panos de algodão.

Era um convite escrito em linguagem de chancelaria: quem fosse viver para o meio do mar ficava com a costa de África à porta.

Cabo Verde é terra de secas longas, mas no sul de Santiago havia um vale estreito entre duas montanhas de rocha, com uma ribeira de água doce que, junto ao mar, fazia uma lagoa. Os navios abasteciam-se ali com muita facilidade, escreveram os ingleses que lá estiveram em 1585. Chamava-se Ribeira Grande.

Foi esse o lugar que cresceu. Nos séculos XVI e XVII, Ribeira Grande foi porto de escala nas rotas entre África, o Cabo, o Brasil e as Caraíbas: ali se reparavam navios, se carregavam mantimentos, se tratavam doentes.
A vila fez-se de pedra. A igreja de Nossa Senhora do Rosário, manuelina, com a torre sineira de abóbada gótica, é do fim do século XV. O pelourinho, uma coluna de mármore manuelina do início do século XVI, era o símbolo do poder municipal e da justiça do rei. Em meados desse século, segundo o ICOMOS, a vila tinha já quinhentas casas de pedra, algumas grandes, de mercadores e armadores, e a pedra de várias obras viera de pedreiras de Portugal. Em 1533 passou a ser sede de bispado, por bula de Clemente VII, com a costa da Guiné na mesma diocese.
O vale, porém, não era só porto. Segundo o ICOMOS e a UNESCO, foi um lugar de aclimatação e passagem de plantas entre continentes, uma horta experimental onde se guardavam as sementes e as plantas que depois seguiam para outras terras. Plantas de todos os continentes, diz o ICOMOS.
A UNESCO fala de encontros entre culturas e chama a Ribeira Grande o berço da primeira sociedade crioula plenamente formada. O crioulo cabo-verdiano, de base lexical portuguesa, é hoje a língua materna de quase todos os cabo-verdianos.
Em novembro de 1585, a armada de Sir Francis Drake tomou e saqueou Ribeira Grande. Os ingleses ficaram catorze dias na vila e levaram o que a terra dava. Depois disso, no fim do século XVI, levantou-se no alto do penhasco, a cerca de cento e vinte metros sobre o mar, a fortaleza real de São Filipe.
O relato dessa viagem foi impresso em Londres em 1589. É dele a descrição da lagoa onde os navios se abasteciam. E é dele outra coisa.
Por cima da vila, entre as duas montanhas, os ingleses de Drake encontraram um vale todo convertido em hortas e pomares, e deixaram escrito o que lá crescia: limões, laranjas, cana-de-açúcar, cocos, bananas. Era a mesma ilha para onde, em 1466, o rei escrevera que a gente não queria ir viver.
Fontes17 referências
- História Geral de Cabo Verde. Corpo Documental, vol. I, dir. Luís de Albuquerque e Maria Emília Madeira Santos, Lisboa/Praia, IICT e Direção-Geral do Património Cultural de Cabo Verde, 1988 (archive.org): transcrições dos documentos da Torre do Tombo de 3 de dezembro de 1460, 19 de setembro de 1462, 12 de junho de 1466, 30 de setembro de 1469, 8 de fevereiro de 1472, 19 de fevereiro de 1496 e 8 de abril de 1497.
- António Brásio, Monumenta Missionaria Africana. África Ocidental, 2.ª série, vol. I, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1958 (archive.org): Diogo Gomes, De prima inventione Guinee, texto latino e tradução de Gabriel Pereira; João de Barros, Ásia, Década I, livro II, capítulo I.
- João de Barros, Ásia, Década I, Lisboa, 1552.
- Walter Bigges e Croftes, A Summarie and True Discourse of Sir Frances Drakes West Indian Voyage, Londres, 1589 (Projeto Gutenberg).
- Charles Darwin, Journal of Researches, 2.ª ed., Londres, 1845, cap. I (Projeto Gutenberg; Wikisource).
- Francisco António Cabral, carta das ilhas de Cabo Verde, 1790 (Biblioteca Nacional Digital).
- UNESCO, Centro do Património Mundial, ficha «Cidade Velha, Historic Centre of Ribeira Grande», com a Declaração de Valor Universal Excecional, e notícia «Cidade Velha becomes Cabo Verde's first World Heritage site», 26 de junho de 2009.
- ICOMOS, avaliação da candidatura da Cidade Velha, 2009.
- André Teixeira et al., «Trabalhos arqueológicos na Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago, Cabo Verde)», Arqueologia em Portugal 2020: Estado da Questão, Associação dos Arqueólogos Portugueses e CITCEM, 2020.
- Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, «Sítio Histórico Cidade Velha, Património Mundial».
- Víctor Barros, «A escrita da história da "descoberta" de Cabo Verde», Práticas da História, n.º 5, 2017.
- Hilarino da Luz, «A presença de António da Noli em Cabo Verde», RiMe, 2024.
- Dizionario Biografico degli Italiani, «Da Mosto, Alvise» (Treccani).
- Universidade de Cabo Verde, entrevista ao linguista Jürgen Lang, 2025.
- Constituição da República de Cabo Verde, artigo 9.º (Assembleia Nacional).
- Wikipedia, «Crioulo cabo-verdiano», «Diocese de Santiago de Cabo Verde».
- A Nação (Praia), notícias de 2012 (via arquivo.pt), 2022 e 2026; blogue «Cidade Velha 1462».
