Em Linhares, em Celorico da Beira, o relógio do castelo tocou sem ninguém lhe tocar. Foi o tremor que lhe moveu o toque. O pároco escreveu-o assim: «dando notícia dele primeiro o relógio sito na torre do castelo desta vila com o seu toque movido pelos impulsos do tremor». Datou a resposta de 6 de maio de 1756, seis meses depois. Respondia a uma pergunta que Lisboa lhe tinha feito.
A pergunta era a primeira de treze, e chegou a padres de todo o reino. Houve quem respondesse pelo relógio da torre e quem contasse o abalo em credos.

O terramoto de 1 de novembro de 1755, dia de Todos-os-Santos, com o maremoto e os incêndios que se lhe seguiram, destruiu grande parte de Lisboa e fez milhares de mortos. Na capital sabia-se o que tinha acontecido. Do resto do reino sabia-se muito menos.

A 20 de janeiro de 1756, em Belém, o secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal, escreveu aos arcebispos e bispos do reino. O rei mandava-lhes uns «interrogatórios», para copiar e fazer chegar a cada pároco. Os padres responderiam «averiguando e examinando com todo o cuidado e exactidão o seu conteúdo».

As perguntas eram as mesmas para todas as freguesias. A primeira: «A que horas principiou o terramoto do primeiro de Novembro e que tempo durou?» A segunda pedia uma direção: se o impulso fora maior de uma parte do que de outra, «do norte para o sul ou pelo contrário», e para que lado tinham caído mais ruínas. Quem a escreveu não queria saber só o que caíra. Queria saber de onde viera o abalo.

Seguiam-se as casas arruinadas e as pessoas que tinham morrido. Depois, a quinta: «Que novidade se viu no Mar, nas Fontes, e nos Rios?» O questionário queria saber se a maré vazara primeiro ou enchera e quantos palmos crescera acima do ordinário. Queria saber se a terra abrira «bocas» ou rebentara alguma fonte nova. Perguntava pelas providências do eclesiástico, dos militares e dos ministros, pelos tremores repetidos, pela memória de outro terramoto. E, a meio de um inquérito sobre um sismo, pedia, como num censo, o número de pessoas de cada freguesia, por sexo. Fechavam a lista a falta de mantimentos e os incêndios.

O bispo de Coimbra deu um mês aos párocos da diocese e pediu-lhes que aproveitassem esse tempo para conferir os pontos duvidosos «com pessoas inteligentes, e peritas».

As respostas que se conservam têm datas de fevereiro a maio de 1756. Muitas mediram o tempo como Linhares, pelo relógio. Em Veiros, perto de Estremoz, o abalo começou «entre as nove e dez horas da manhã pelo relógio da torre desta vila».

Noutras freguesias, o tempo contou-se a rezar. Em Caçarelhos, no concelho de Vimioso, o tremor «durou o tempo em que se podem rezar duas estações, pouco mais ou menos». Em Campo de Víboras, ali perto, começou «Às nove horas e meia, mais ou menos», e «passados dois credos tornou a repetir». Os dois credos medem o tempo até a terra voltar a tremer.

Houve quem confessasse não saber. «Como nesta freguesia não há relógio, não se pode averiguar ao certo às horas que principiou», respondeu o pároco de Agadão. De Almaça veio uma queixa: «Esta miserável terra, como nela não há relógio». Em Melo, «o relógio anda poucas vezes certo e por isso não podemos averiguar as horas».

Mesmo assim, as contas batem certo. A maioria das respostas põe o começo por volta das nove e meia da manhã e dá ao abalo uma duração entre três ou quatro minutos e um quarto de hora. O historiador José Augusto dos Santos Alves, que transcreveu estas respostas, vê nesta concordância o «tempo do relógio» a impor-se em quase todo o reino como referência.
Os padres responderam também ao que viram depois. À volta da laguna de Aveiro, nas respostas que Clara Sarmento e Alexandre Cardoso estudaram, a água inundou freguesias em fevereiro e março de 1756 com o tempo sereno e sem chuva. Em Vera Cruz, «estando o tempo serenno», a água ficou perto de quinze dias; o pároco atribuiu a cheia «à braveza do mar», e a demora à barra entupida. À pergunta sobre a memória de outros terramotos, o de Nossa Senhora da Apresentação recordou um sismo sentido em Aveiro a 23 de agosto de 1753, de que as «memórias do Reino» pouco falavam. E o de Angeja, à pergunta sobre a falta de mantimentos, respondeu que a escassez vinha de três anos de seca, e não do terramoto.
As respostas seguiram para o secretário de Estado, e a carta mandava guardar o seu conteúdo «em segredo», para ser presente ao rei. Estão hoje na Torre do Tombo, no fundo do Ministério do Reino, maço 638. Não são as Memórias Paroquiais, que vieram de outro inquérito, de 1758, com outras perguntas.
No início do século XX, Francisco Luís Pereira de Sousa, tenente-coronel e assistente da Universidade de Lisboa, encontrou-as no Arquivo Nacional. Usou-as para desenhar as linhas de igual intensidade do terramoto em Portugal. Papéis escritos para um rei tornaram-se um mapa. Sousa citava o sismólogo francês Montessus de Ballore, para quem o questionário tinha «um carácter verdadeiramente científico, bastante estranho para a época».
Nem todos o leem assim. Para Oldroyd e outros historiadores da ciência, o inquérito foi pensado para a reconstrução, e não para a investigação. E Lisboa não foi a única a perguntar: em Espanha, Fernando VI mandara já, a 8 de novembro de 1755, um inquérito às cidades e vilas do seu reino. Com pouco mais de dois meses de intervalo, os dois reinos fizeram a mesma coisa: perguntaram a quem estava lá.
Em 2025, três investigadores voltaram aos manuscritos de 1756, na Torre do Tombo, para perceber o que o sismo fez aos rios. Nas regiões do Vouga e do Zêzere, validaram 351 registos. Numa resposta, o Vouga perdia o curso natural e as águas pareciam ferver; noutra, no Zêzere, a água subiu mais de um côvado. Essas observações ficaram escritas porque a quinta e a sétima perguntas as pediam.
Faltava mais de um século para a escala de Mercalli, que Pereira de Sousa viria a usar. Em 1756, o reino mediu o terramoto como pôde: pelo relógio da torre, onde o havia; por credos e estações, onde o tempo se contava a rezar; pela memória, onde alguém se lembrava de um tremor anterior. E mandou tudo para Lisboa, freguesia a freguesia, em resposta às mesmas treze perguntas.
Fontes12 referências
- José Augusto dos Santos Alves, «O Marquês de Pombal e a mudança de paradigma», Cultura, 22, 2006 (com a transcrição da carta de 20 de janeiro de 1756, do questionário e de excertos das respostas; Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, Livro de Avisos 5 e maço 638).
- Clara Sarmento e Alexandre Cardoso, «Testemunhos históricos da influência do terramoto de 1755 na laguna de Aveiro», Territorium, 13, 2006.
- Jorge Miguel Ferreira, Da sismicidade à ciência dos sismos: para a história da sismologia em Portugal, tese de doutoramento, Universidade de Évora, 2013.
- Amélia Ferreira e Alexandra Esteves, «Entre vivos e mortos: uma reflexão sobre a ação da Igreja no terramoto de Lisboa de 1755», Universidade Católica Portuguesa.
- «As Memórias Paroquiais de 1758, de novo», Notícias da Torre do Tombo, 1, 2023.
- Alice Tavares, Aníbal G. Costa e Carlos Sousa Oliveira, «An Evaluation of the Effects of the 1755 Lisbon Earthquake on Rivers and Their Tributaries in Mainland Portugal», Hydrology, 12, 2025.
- José Manuel Martínez Solares, «El Terremoto de Lisboa de 1 de noviembre de 1755», Física de la Tierra, 29, 2017.
- Jaime Peregrín Pizarro, «Evaluar un desastre. Procedimientos de la Monarquía Hispánica tras el Terremoto de Lisboa de 1755: la Orden Circular del 8 de noviembre», Revista de Historia Moderna, 40, 2022.
- M. J. Ferro Tavares, F. Amador e M. Serrano Pinto, «O terramoto de Lisboa de 1755: tremores e temores», Cuadernos Dieciochistas, 6, 2005.
- A. C. Araújo, «The 1755 Lisbon Earthquake: The Catastrophe and the Reconstruction», Storicamente, 2021.
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, «O Terramoto de 1755, a Torre do Tombo e Manuel da Maia».
- Quake (Lisboa), «O inquérito ao sismo de Lisboa».
