Um pescador muito velho desenhou a sua marca no livro de notas que lhe estenderam. Pelo desenho, e só pelo desenho, quem lho tinha pedido soube que ele era o quarto filho.

Perguntaram-lhe quantos irmãos tinha. Disse que um.

Foi em frente ao Café Ribeiro, no Passeio Alegre, na Póvoa de Varzim. O homem era o Tio Januário, da família dos Chabões, e o que desenhou foi o sinal da casa e, ao lado, três piques e um por cima.

Quem lhe estendera o caderno era António dos Santos Graça, poveiro como ele, que andava havia anos a recolher aquelas marcas à mão, uma a uma. «As marcas são a escrita do Poveiro», escreveu, quando publicou o que tinha juntado. Estavam nas redes, nas velas, nos mastros, nas facas da cortiça, nas mesas e nas cadeiras: em tudo o que fosse de alguém. Uma marca num objeto valia por um registo de propriedade.

E era preciso, porque naquela Póvoa o nome escrito não servia para dar com uma pessoa.

O mesmo encontro, visto de fora: o caderno aberto na mesa e a marca a ser desenhada. Aquelas marcas foram recolhidas à mão, uma a uma, pela praia e pelas ruas, ao longo de anos. Pintura; figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 02O mesmo encontro, visto de fora: o caderno aberto na mesa e a marca a ser desenhada. Aquelas marcas foram recolhidas à mão, uma a uma, pela praia e pelas ruas, ao longo de anos. Pintura; figuras genéricas de época, não retratos.

Os nomes próprios desapareciam por completo e só ficavam as alcunhas. Em vez de João José Loureiro ou de Francisco Fernandes Troina havia o João Caneta e o Francisco Fome-Negra. Graça anotou que muitas mulheres desconheciam o nome do próprio marido, e que se viam aflitas quando lho exigiam para assentos de casamento, batizados ou escrituras. Para tirar o nome de registo a um poveiro havia uma fórmula: perguntava-se-lhe qual era o seu nome da igreja. E ele, invariavelmente, repetia a pergunta a si próprio antes de conseguir responder.

A uma filha de João Sarrão perguntaram como se chamava. «Maria Sarroa.» Pediram-lhe o nome de batismo. Respondeu que o pai era o Tio João Sarrão e que ela sempre fora a Maria Sarroa, mas que, se não era assim, botassem lá Maria Cristela, que era o nome da mãe. No assento ficaram os dois.

Caneta, Pinheira, Trunfo, Fome-Negra: são alcunhas de gente e são também os nomes das marcas. O sistema era o mesmo. Um dizia-se, o outro cortava-se.

Uma marca não se desenhava ao gosto de cada um: era um brasão de família, passava de pais para filhos, e só os herdeiros a podiam usar. As figuras eram coisas do dia a dia reduzidas ao essencial: o sarilho, o coice, que é parte da quilha de um barco, o arpão, o pé-de-galinha. Os traços são todos retos, e quem estudou o sistema explica-o pela ferramenta, porque a marca era sulcada com um objeto cortante na madeira ou na cortiça.

Pintura de uma marca a ser sulcada na cortiça de uma rede, com a faca de aparar a cortiça. Os traços das siglas são todos retos, e quem estudou o sistema explica essa concisão pela ferramenta.
FIG. 03Pintura de uma marca a ser sulcada na cortiça de uma rede, com a faca de aparar a cortiça. Os traços das siglas são todos retos, e quem estudou o sistema explica essa concisão pela ferramenta.

A regra estava dentro do desenho. O chefe da casa usava a marca inteira. O filho mais velho punha-lhe um pique ao lado, o seguinte dois, o seguinte três, e assim por diante. E o mais novo voltava a usar a marca do pai inteira, sem nada, por ser o legítimo herdeiro. Os investigadores que compararam este sistema com outros escrevem que ao mais novo cabiam também os aprestos de pesca, por ser ele o responsável tradicional por cuidar dos pais até ao fim.

Os piques podiam vir alinhados, em cruz, em estrela ou em grade, e para saber de que filho era a marca contavam-se. Graça fixou por escrito as de oitenta e três famílias.

De onde veio tudo isto não está resolvido. Em 1982, uma exposição na Universidade do Minho pôs lado a lado, em mapas, as teses de três investigadores diferentes sobre a origem das siglas. O que as marcas faziam, isso sabe-se.

Voltemos ao Passeio Alegre.

Pintura de um casamento poveiro. Ao casar, o poveiro gravava a sua marca na mesa da sacristia da igreja matriz, com a mesma faca da cortiça. A mesa da velha igreja da Misericórdia, que serviu de matriz até 1757, chegou a ter milhares de marcas, e desapareceu com a demolição da igreja. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 04Pintura de um casamento poveiro. Ao casar, o poveiro gravava a sua marca na mesa da sacristia da igreja matriz, com a mesma faca da cortiça. A mesa da velha igreja da Misericórdia, que serviu de matriz até 1757, chegou a ter milhares de marcas, e desapareceu com a demolição da igreja. Figuras genéricas de época, não retratos.

Januário tinha desenhado a marca dos Chabões com três piques e um por cima. Disse que tivera um irmão só, Tomás Chabão, que herdara a marca do pai inteira. Graça não aceitou: «O quê? Não pode ser! Vocês eram cinco!»

E o velho corrigiu-se. «Não... Ai é verdade, seu Gracinha! Tivemos três cachopas, e eu e meu irmão, éramos cinco!»

Depois quis saber quem lho tinha contado, e perguntou-o na fala da terra. «Quem cunfou essa ao seu Gracinha? Foi o seu paizinho?»

Não tinha sido ninguém. Tinham sido os piques da sua marca.

Pintura da chegada do peixe à praia. Nas caças, o produto de cada rede era assinalado com pequenos golpes feitos no próprio peixe, marcas de barco e não de família, para que em terra fosse entregue às mulheres dos donos certos. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 05Pintura da chegada do peixe à praia. Nas caças, o produto de cada rede era assinalado com pequenos golpes feitos no próprio peixe, marcas de barco e não de família, para que em terra fosse entregue às mulheres dos donos certos. Figuras genéricas de época, não retratos.

«É verdade!, é verdade! Três cachopas e eu e o meu irmão Tomás. Cada filho é um pique... e as cachopas levavam redes ao mar!»

As raparigas contavam. Outro poveiro, o Tio João Liro, explicou a Graça que herdara os aparelhos e a marca de uma tia que, na conta da casa, fora o segundo filho, e que lhe juntara dois piques em cruz porque também trazia redes ao mar.

Fora do barco, a marca acompanhava uma vida inteira. Ao casar, o poveiro cortava-a na mesa da sacristia da igreja matriz, com a mesma faca que lhe servia para aparar a cortiça das redes.

A velha igreja da Misericórdia serviu de matriz até 1757. A mesa da sacristia chegou a ter milhares de marcas gravadas. Desapareceu com a demolição da igreja, sem que ficasse vestígio nem fotografia.

Pintura da conta fiada. O vendeiro analfabeto pintava a marca do devedor antes das rodelas e dos riscos com que designava os vinténs e os tostões. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 06Pintura da conta fiada. O vendeiro analfabeto pintava a marca do devedor antes das rodelas e dos riscos com que designava os vinténs e os tostões. Figuras genéricas de época, não retratos.

Nas arribadas à costa norte, o poveiro deixava a marca nas portas das capelas, como documento de ter passado por ali: as de Nossa Senhora da Bonança, em Esposende, e de Santa Trega, em Espanha, tinham as portas antigas cobertas de marcas.

Havia usos mais prosaicos. O vendeiro analfabeto pintava a marca do devedor antes das rodelas e dos riscos com que contava os vinténs e os tostões. Na faina havia golpes feitos no próprio peixe, marcas de barco e não de família, para que à chegada à praia o produto de cada rede fosse entregue às mulheres dos respetivos donos. No fim, a marca ia para a lousa tumular.

Havia uma coisa, porém, que quase não está documentada. Era corrente entre eles que os velhos poveiros analfabetos, em vez de assinarem de cruz nos documentos públicos, faziam ali a sua marca, como equivalente da assinatura. Graça foi procurar e escreveu, com todas as letras, que encontrou poucos documentos a comprová-lo, e só nas atas da velha Associação Marítima dos Poveiros, que era relativamente moderna.

Ele próprio via a comunidade a encolher. Em 1932 escreveu que a colmeia de pescadores poveiros já não era um décimo do que fora no tempo em que aquela praia abastecia de peixe o Minho, o Douro e Trás-os-Montes.

As siglas na calçada da Póvoa de Varzim, pintadas a partir de uma fotografia real de PedroPVZ (CC BY 2.0). Em 1992, o antropólogo António Medeiros registou o uso das siglas ao longo de toda a avenida marginal e nos paraventos fixos que orlam a praia.
FIG. 07As siglas na calçada da Póvoa de Varzim, pintadas a partir de uma fotografia real de PedroPVZ (CC BY 2.0). Em 1992, o antropólogo António Medeiros registou o uso das siglas ao longo de toda a avenida marginal e nos paraventos fixos que orlam a praia.

Sessenta anos depois, o antropólogo António Medeiros anotou uma troca de nomes. No princípio do século XX, «povoense» era o habitante da Póvoa que nada tinha com a pesca, e «poveiro» era só o pescador; em 1992, a primeira tinha sido abandonada. Foi o nome deles que ficou a servir para toda a gente.

No mesmo texto, Medeiros descreveu o que as siglas tinham passado a ser: estavam ao longo de toda a avenida marginal, nos paraventos fixos que orlam a praia, gravadas em anéis de ouro. E registou o outro lado: nas décadas anteriores, a especulação imobiliária tinha vindo a levar para fora dos limites do concelho uma parte importante dos pescadores poveiros, e isso não travara os investimentos na identidade piscatória e marinheira da cidade.

Desde 2008, a Câmara mandou fazer mais de quinhentas placas de rua a um artista poveiro, cada uma feita à mão. Em cada placa, à volta do nome da rua, corre uma moldura.

Agora as siglas emolduram o nome das ruas.

Fontes8 referências
  • António dos Santos Graça, «O Poveiro. Usos, costumes, tradições, lendas» (1932), reedição na coleção «Portugal de Perto», Etnográfica Press, na plataforma OpenEdition Books. Capítulo III, «As marcas, balizas e divisas», e capítulo IV, «As Alcunhas». Dele vêm o sistema, a regra dos piques, a lista das oitenta e três marcas de família, as cenas do Tio Januário e do Tio João Liro, a camada das alcunhas, a mesa da sacristia, as portas das capelas, o livro do vendeiro e as marcas de peixe. A digitalização resulta de tratamento automático por reconhecimento ótico de caracteres; as citações mantêm a grafia de 1932. books.openedition.org
  • António Medeiros, «Prefácio» à mesma edição, datado de setembro de 1992. A biografia do autor, o contacto com Rocha Peixoto, a nota de Leite de Vasconcelos, a comparação com Jorge Dias, a ressalva sobre o presente etnográfico, a causa bairrista e não nacionalista, o uso das siglas na cidade e a troca de «povoense» por «poveiro». books.openedition.org
  • Nota «O autor», na mesma edição, com a lista das obras publicadas. books.openedition.org
  • Universidade do Minho, Museu da Casa Nogueira da Silva, roteiro da exposição documental e bibliográfica «Siglas Poveiras», organizada pelo Museu Municipal da Póvoa de Varzim, de 11 de novembro a 1 de dezembro de 1982. O inventário do que as siglas cobriam, do apresto de pesca à lousa tumular, e o item das três teses de origem. mns.uminho.pt
  • Rafael Arnoni e Susana Barreto, «Estudo comparativo entre as siglas poveiras de Póvoa de Varzim/Portugal e as marcas de gado do sertão nordestino/Brasil», Revista Internacional de Folkcomunicação, volume 15, número 34, 2017, páginas 137 a 147. A leitura independente da regra de transmissão e a razão dada para o filho mais novo herdar a marca inteira. revistas.uepg.br
  • Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Museu Municipal de Etnografia e História, «História do Museu», com a fundação do museu e o prémio de 1980. cm-pvarzim.pt
  • Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, «Toponímia», com as placas de Nando e os seus números. cm-pvarzim.pt
  • Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, ficha da exposição «IDENTIDADE. A Camisola Poveira». cm-pvarzim.pt