Amália Rodrigues não sabia o dia em que tinha nascido.
«A minha avó dizia-me que eu nasci com as cerejas.» O registo civil dá uma data: 23 de julho de 1920. Ela festejou sempre a 1 de julho.
Não é boato de camarim nem lenda posterior: é ela a dizê-lo, a uma jornalista do Diário de Notícias, numa entrevista publicada na Revista do DN a 25 de agosto de 1985.

Acabaria por resolver o assunto sozinha, à maneira dela. Mas primeiro há um documento desta história que ainda hoje se pode ler, e não é o registo civil.
É o assento de baptismo do Fundão, fotografado por duas vezes para a imprensa, em 2020 e em 2021. Nessas fotografias lê-se linha a linha. Registo n.º 53: baptismo celebrado a 6 de julho de 1921 na Igreja Matriz do Fundão, diocese da Guarda, pelo cónego Álvaro do Nascimento.

Repete a data que já conhecíamos e acrescenta uma coisa que nenhuma outra fonte nos dá: uma hora. Diz que a criança nasceu «na freguezia da Pena em Lisboa, ás cinco horas do dia vinte e três do mês de julho do anno de mil novecentos e vinte». Dá-lhe um nome só, «Amália», sem apelido nenhum. E fecha com uma linha: os padrinhos não assinaram o assento, «por não saberem escrever».
Há mais duas coisas, e estão à vista de quem olhe para o calendário. O assento foi lavrado onze meses e catorze dias depois do nascimento que regista. E foi lavrado no Fundão, a terra da família, quando o nascimento aconteceu em Lisboa.

Ou seja: o segundo documento não é uma segunda testemunha. É a mesma memória de família escrita outra vez, mais tarde e noutro sítio. A data assenta, afinal, numa fonte só: uma casa onde o tempo se media pelo que estava na árvore.
Essa casa era a dos avós maternos, na Rua Martim Vaz, freguesia da Pena. Amália nasceu em Lisboa por acaso: os pais estavam de passagem, o pai de Castelo Branco, a mãe do Fundão. Nasceu naquela casa, sem médico e sem maternidade. «A minha mãe e a minha avó não tinham dinheiro para ir buscar doutores, para ir a hospitais, nem sabiam que havia maternidades... Só conheciam as chamadas "mulheres do Fundão"», contou ela. Do próprio nascimento guardou uma coisa só, e formulou-a assim: «a única certeza que tenho é que nasci na casa da minha avó, estava lá a minha mãe.» Quando ela tinha pouco mais de um ano, os pais voltaram para a Beira e deixaram-na com aqueles avós.

As instituições que guardam a memória dela não fecham a questão. O Museu do Fado escreve, na ficha biográfica oficial, que existem «algumas reservas quanto ao dia exacto». O Município do Fundão não escreve que ela nasceu a 23 de julho: escreve que foi registada a 23 de julho. São duas maneiras cuidadosas de dizer a mesma coisa.
Em 1965 gravou um disco inteiro de poemas de Camões, de quem já aqui contámos não haver certidão de nascimento. A diferença entre os dois casos é que dela há uma, e foi ela quem nunca festejou a data que lá está.

Tudo o resto ficou registado com método. Foi a primeira mulher a receber honras do Panteão Nacional: a Assembleia da República aprovou-as em 2000, e a 8 de julho de 2001 os restos mortais saíram do Cemitério dos Prazeres para Santa Engrácia. O auto dessa trasladação está na Torre do Tombo com cota exata: Gavetas, gaveta 16, maço 4, número 134. O dia em que os ossos dela mudaram de sítio tem três números que o localizam.
O dia em que ela chegou não tem nenhum, e continua a não ter: toda a gente cita a data, mas nenhuma das fontes citadas reproduz o registo civil de 1920.

Em 2020 fez cem anos, e o país teve de decidir quando os festejar. O programa oficial das comemorações abriu a 1 de julho, com uma gravação de cem guitarristas feita nos Paços do Concelho de Lisboa, e culminou a 23 de julho, com uma missa, uma emissão de selos e dois concertos.
A razão do dia 1 está na entrevista de 1985. Amália não escondeu o que não sabia: «ao certo, ao certo, não sei o dia em que nasci. Cá por mim, optei pelo dia 1 de Julho, que é logo o princípio do mês.»
Fontes12 referências
- Assento de baptismo n.º 53, folha 14 v., Paróquia do Fundão, 6 de julho de 1921: em duas fotografias independentes do livro paroquial, publicadas por Agência ECCLESIA (23-07-2020) e por Capeia Arraiana (11-07-2021).
- Diário de Notícias, «A voz de Deus não morreu e ainda se eleva bem alta», 5 de outubro de 2009, que cita Amália a partir da entrevista de Maria Augusta Silva, Revista do DN, 25 de agosto de 1985.
- Museu do Fado (EGEAC / Câmara Municipal de Lisboa), ficha de personalidade «Amália Rodrigues».
- Fundação Amália Rodrigues, «Uma Estranha Forma de Vida»: cronologia oficial e epígrafe.
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, «Centenário do nascimento de uma estranha forma de vida», julho de 2020. (⚠️ Esta apresentação data a inscrição do fado na UNESCO de 2009; o ano correto é 2011.)
- Assembleia da República, «Honras do Panteão»: Lei n.º 28/2000 e a lista datada das concessões.
- Município do Fundão, «Comemorações do Centenário do Batismo de Amália Rodrigues».
- UNESCO, Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, processo n.º 00563, decisão 6.COM 13.39 (2011).
- Público: «Restos mortais de Amália trasladados para Panteão» (8-07-2001); «100 guitarras a tocarem juntas para os 100 anos de Amália» (1-07-2020); «Dois concertos e um documentário inédito na RTP marcam dia dos 100 anos de Amália» (23-07-2020); «A origem de Amália Rodrigues: um mistério centenário», crónica de Ivo Rocha da Silva (1-07-2021).
- Revista Tabu, entrevista de Felícia Cabrita, 13 de novembro de 2009, reproduzida no Portal do Fado.
- DGADR / Produtos Tradicionais Portugueses, ficha «Cereja do Fundão IGP».
- Genealogia: levantamento de António da Graça Pereira, reproduzido em Genealogia da Beira. Usado apenas onde os nomes coincidem com o assento de 1921.