«É outra loiça.» Ainda hoje é assim que se elogia o que é bom de mais para o comum.

Quase ninguém sabe que «a outra loiça» foi um lugar a sério, à beira do Tejo, nem o que custou fazê-la.

Foi um industrial português que a ergueu. Algures nos anos de mil oitocentos e cinquenta, numa quinta de Sacavém debruçada sobre o rio, começou a fabricar-se loiça fina. Um inglês comprou-a, ganhou com ela um título de barão e fez dela a maior fábrica de cerâmica do país. Lá dentro, crianças de onze anos trabalhavam descalças. No fim, foi um tribunal que a mandou fechar.

«Sacavém é outra loiça.» A frase virou medida de excelência em todo o país.
FIG. 02«Sacavém é outra loiça.» A frase virou medida de excelência em todo o país.

Entre um extremo e o outro cabe um século, e cabe quase tudo o que Portugal foi.

O nome do fundador é Manuel Joaquim Afonso, nascido em Leiria, homem do barro e não do sangue. Quando a fábrica nasceu ao certo, ninguém o sabe dizer: um painel de azulejos à entrada dava o ano de 1850, mas o único documento que dela se conhece, o alvará de patente, só data de 1856. A fábrica teve fama antes de ter papéis.

Trabalhavam descalças, muitas com 11 e 12 anos, às vezes 14 horas seguidas. (Segundo o arquivo do museu.)
FIG. 03Trabalhavam descalças, muitas com 11 e 12 anos, às vezes 14 horas seguidas. (Segundo o arquivo do museu.)

Entre 1861 e 1863, Afonso vendeu-a a um inglês, John Stott Howorth, que trouxe de Stoke-on-Trent, no coração cerâmico de Inglaterra, técnicas novas. A casa subiu depressa. O rei D. Luís I fez de Howorth Barão de Howorth de Sacavém, em 1885, e deu à fábrica o direito de se chamar Real Fábrica de Loiça de Sacavém.

Conta-se, segundo documentos da época, que o próprio rei-consorte D. Fernando II, nos últimos anos de vida, pintou pela própria mão peças saídas daqueles fornos. Foi algures por estas décadas, sem que ninguém o saiba datar ao certo, que a frase ganhou o seu sentido: «Sacavém é outra loiça».

Da mesma oficina saíram peças pintadas por reis e os azulejos de São Bento. A fábrica era também uma escola de arte.
FIG. 04Da mesma oficina saíram peças pintadas por reis e os azulejos de São Bento. A fábrica era também uma escola de arte.

E a vila inteira tornou-se a fábrica. Em 1890, mais de metade dos quase dois mil habitantes de Sacavém ganhava ali o pão: meia povoação acordava para os mesmos fornos. Em 1910 eram mil e dezasseis operários, e a fábrica tinha dezoito fornos. O décimo oitavo, esse, tinham-no os próprios operários levantado em 1850, à mão, com a tecnologia que conheciam.

Em 1917, um inquérito industrial colocava-a entre as vinte e cinco maiores fábricas de Portugal. A loiça saía dos fornos para as mesas de meio país, e não só a loiça. Foi em Sacavém que o pintor Jorge Colaço cozeu os azulejos da Estação de São Bento, no Porto, em 1903, e os do Palace-Hotel do Buçaco, em 1907. São os mesmos painéis diante dos quais ainda hoje param turistas, sem saberem que o barro veio daqui.

Em 1890, mais de metade dos habitantes de Sacavém vivia da fábrica. A aldeia era a fábrica.
FIG. 05Em 1890, mais de metade dos habitantes de Sacavém vivia da fábrica. A aldeia era a fábrica.

E, no entanto, a porcelana que dava brilho às mesas reais saía das mãos de crianças. Segundo o arquivo fotográfico da fábrica, lido pela diretora dos museus de Loures, Ana Paula Assunção, trabalhavam descalços, muitos com onze e doze anos, às vezes catorze horas seguidas. É a imagem que custa fixar: gente miúda, sem sapatos, ao pé de fornos a arder, a fazer a loiça que daria a Portugal um provérbio de excelência.

E, contudo, a mesma fábrica que os punha ali fazia, para o seu tempo, coisas raras. Talvez pela mão inglesa que a geria, foi pioneira em medidas que poucos patrões conheciam: escola dentro das instalações, uma caixa de socorros mútuos, férias pagas, e até campos de férias para os filhos dos operários. O mesmo lugar guardava as duas coisas ao mesmo tempo, sem as sentir contraditórias. Não há aqui um monstro a apontar. Há o preço a que se fez «a outra loiça», e esse preço tem de se olhar inteiro.

A 7 de abril de 1994, o tribunal mandou fechar as portas. A loiça do quotidiano de um país ficou em silêncio.
FIG. 06A 7 de abril de 1994, o tribunal mandou fechar as portas. A loiça do quotidiano de um país ficou em silêncio.

Daquele chão saiu também resistência. Em 1937 deu-se a «greve dos rapazes»: os aprendizes da loiça pararam por causa dos salários baixos e das más condições de trabalho. Foram detidos pela GNR; seguiu-se a vigília das mães à porta, e depois a mão da polícia política do Estado Novo, a PVDE, anterior à PIDE. Um nome ficou colado ao da fábrica: António Ferreira, a quem chamavam «o Compositor», preso vezes sem conta pela polícia política pelo papel que teve nas lutas operárias da fábrica.

Depois veio a descida. Os últimos anos da fábrica foram de conflito laboral e de despedimentos, e o episódio mais sombrio de toda a sua história deu-se a 6 de dezembro de 1982: nesse dia, o administrador Diamantino Bernardo Monteiro Pereira foi morto à saída de casa, em Almada, por uma rajada de metralhadora, num atentado reivindicado pelo grupo FP-25.

A produção parou de vez em 1989. A 23 de março de 1994, o Tribunal Cível da Comarca de Lisboa declarou a falência da fábrica, que fechou as portas a 7 de abril. No terreno onde tinham estado os fornos levantou-se uma urbanização nova, a que deram o nome de Real Forte.

Ficou uma conta por saldar. Em 2000, cerca de cento e cinquenta antigos trabalhadores ainda não tinham recebido as indemnizações a que tinham direito pelo encerramento. E ficou, de pé, uma só coisa inteira: o Forno 18, o forno a lenha que os próprios operários haviam erguido com as mãos. Ainda hoje se poderia acender. Em torno dele abriu, no ano 2000, um pequeno museu.

O país continua a dizer que uma coisa boa «é outra loiça». Quase ninguém sabe que, ao dizê-lo, elogia um lugar que fechou e as mãos descalças que o fizeram. Da fábrica inteira sobraram duas coisas: o forno que os operários ergueram e a frase que o país repete sem lhe conhecer o dono. É hoje a única peça de Sacavém que não se partiu.