Quando José Franco era criança, o mundo em que nasceu ainda existia. Quando morreu, esse mundo já só existia onde ele o tinha reconstruído: à mão, em ponto pequeno, peça a peça.

Há uma aldeia, no concelho de Mafra, onde um moinho de vento mói trigo a sério e um forno de lenha coze pão todos os dias. Tem capela, escola, taberna, oficinas. Tem gente a trabalhar, parada para sempre em ofícios que já ninguém exerce. E tudo aquilo, do moinho ao mais pequeno boneco, saiu das mãos de um só homem.

Chamava-se José Silos Franco, e a obra é a que hoje tem o seu nome, a Aldeia-Museu José Franco, no Sobreiro, a poucos quilómetros do colossal Palácio-Convento de Mafra. Nasceu ali em 1920, numa família pobre, ligada ao barro e à venda de loiça. Deixou a escola aos dez anos para aprender a olaria; aos dezassete, recuperou a olaria do avô e pôs-se a trabalhar por conta própria. As suas peças depressa se distinguiram das outras, e em 1940, ainda muito novo, levou-as à Exposição do Mundo Português, que lhe deu nome para lá da sua terra.

A cozinha saloia da aldeia não é um cenário parado: o forno de lenha coze pão verdadeiro todos os dias. A vida que ele guardou continua a acontecer dentro da réplica.
FIG. 02A cozinha saloia da aldeia não é um cenário parado: o forno de lenha coze pão verdadeiro todos os dias. A vida que ele guardou continua a acontecer dentro da réplica.

Porque José Franco era saloio. Já falámos dos saloios nesta página: as gentes do campo do termo de Lisboa, que durante séculos abasteceram a cidade de pão, hortaliça e vinho. Foi esse o mundo em que ele cresceu, e foi esse o mundo que, ao longo da sua vida, viu desaparecer. Lê-se ainda hoje, no museu que guarda a obra, que a aldeia nasceu para perpetuar a identidade da Região Saloia, «tão ferozmente ameaçada pela voracidade dos novos tempos».

Ao lado da casa e da olaria, José Franco foi levantando uma aldeia saloia inteira, do início do século XX, à mão. Em tamanho de gente: o moinho de vento onde se mói o trigo, a azenha para moer o milho, a capela sob a invocação de Santo António, a cozinha saloia onde todos os dias se coze o pão, a escola com a lousa, as carteiras e os livros. E, ao lado, o mundo em ponto pequeno: ruas de casas em miniatura povoadas por bonecos mecanizados, postos a repetir para sempre os gestos do trabalho de antigamente, o ferreiro, a lavadeira, o lavrador. A ideia surgiu por volta de 1945, e foi erguendo a aldeia durante o resto da vida, mais de sessenta anos, peça a peça. Um mundo inteiro, feito por um homem só, quase ao ritmo a que o verdadeiro se apagava.

Uma cidade inteira de gente de barro, parada para sempre em ofícios que já ninguém exerce: o ferreiro, a lavadeira, o lavrador. O homem que guardava a memória de todos ia, sem dar por isso, ficando sem o seu próprio tempo.
FIG. 03Uma cidade inteira de gente de barro, parada para sempre em ofícios que já ninguém exerce: o ferreiro, a lavadeira, o lavrador. O homem que guardava a memória de todos ia, sem dar por isso, ficando sem o seu próprio tempo.

Quem o conheceu lembra-o como «um artista perfeccionista em absoluto», escultor popular de peças pequenas feitas com enorme minúcia, «uma pessoa com grandeza de alma».

E é aqui que se percebe o que ele andava afinal a fazer. Não chegava a ser saudade. Era uma cópia, talvez a última, de um original que estava a ser destruído. À medida que o campo se esvaziava e a vida saloia se apagava na vida verdadeira, José Franco ia-a guardando, peça a peça, no único sítio onde ainda lhe restava existir. O homem que guardava a memória de toda a gente estava, sem dar por isso, a ficar sem o seu próprio tempo.

O homem, pelas mãos. Deixou a escola aos dez anos pela roda de oleiro, recuperou a olaria do avô aos dezassete, e passou mais de sessenta anos a fazer um mundo, uma pequena figura de barro de cada vez.
FIG. 04O homem, pelas mãos. Deixou a escola aos dez anos pela roda de oleiro, recuperou a olaria do avô aos dezassete, e passou mais de sessenta anos a fazer um mundo, uma pequena figura de barro de cada vez.

Maria Helena, a mulher que pintava, vidrava e vendia a loiça com ele, e que durante anos geriu a aldeia, morreu em 1989. Em 2000, já com oitenta anos, o Estado condecorou-o com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Mas o que ele queria de facto não chegou a erguer-se. Contava Dulce Silva, sua secretária, que José Franco deixou dois sonhos por concretizar: uma escola de formação para as crianças do Sobreiro e uma fundação que mantivesse a obra inteira depois dele. Por essa fundação, dizia ela, «lutou muito sozinho», com a própria família contra. Morreu em abril de 2009, aos oitenta e nove anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na sequência de uma queda.

A aldeia continua aberta, todos os dias do ano, de graça, visitada por milhares de pessoas que talvez não saibam o nome de quem a fez. O forno ainda coze pão. O moinho ainda mói. O mundo que salvou sobreviveu-lhe; as duas coisas que quis para si, a escola e a casa para a sua obra, é que ficaram por construir.

Ergueu uma aldeia inteira: capela, escola, taberna, oficinas, à mão. As duas coisas que ele quis para si, uma escola para as crianças e uma casa para a sua obra, é que ficaram por construir.
FIG. 05Ergueu uma aldeia inteira: capela, escola, taberna, oficinas, à mão. As duas coisas que ele quis para si, uma escola para as crianças e uma casa para a sua obra, é que ficaram por construir.

Esta página chama-se Portugal Esquecido. José Franco passou a vida a garantir que um pedaço dele não o fosse.