Na praia dos pescadores da Ericeira, na tarde de 5 de outubro de 1910, três pessoas desceram ao mar numa embarcação de pesca. Uma delas tinha vinte anos. Reinara dois anos e oito meses. Não voltaria.

Manuel II subira ao trono a 1 de fevereiro de 1908, com dezoito anos, no dia em que o seu pai, o rei D. Carlos I, e o seu irmão mais velho, o príncipe D. Luís Filipe, foram baleados numa carruagem aberta no Terreiro do Paço por dois republicanos armados. O rei morreu na hora; o príncipe herdeiro, minutos depois, no Arsenal da Marinha. Manuel foi atingido no braço. Tornou-se rei sem o ter planeado, no dia mais violento da monarquia portuguesa em séculos.

Dois anos e oito meses foi quanto durou. A monarquia portuguesa tinha, nessa tarde de outubro, setecentos e sessenta e sete anos: desde D. Afonso Henriques, proclamado rei após Ourique em 1139 e reconhecido pelo reino de Leão em 1143, passando pelas casas de Borgonha, Avis e Bragança, até àquele jovem de vinte anos que dormia no Paço das Necessidades e acordou com granadas.

D. Manuel II, fotografado por Joshua Benoliel: o último rei de Portugal.
FIG. 02D. Manuel II, fotografado por Joshua Benoliel: o último rei de Portugal.

Ao meio-dia de 4 de outubro, o cruzador Adamastor avançou pelo Tejo e abriu fogo sobre o palácio real. Os projéteis chegaram ao alcance dos aposentos do rei. Um criado desceu a bandeira real a tempo: os artilheiros julgaram que a família havia já partido e suspenderam o fogo. Manuel pôs-se a salvo nos terrenos do palácio antes que a pontaria recomeçasse.

A trinta quilómetros de Lisboa, no Palácio de Mafra, esperava uma última hipótese. Contava ali com oitocentos soldados; encontrou cerca de cem. Os oficiais que o receberam foram diretos: Lisboa proclamaria a República de manhã; a posição era insustentável. A única saída era o mar, e o mar ficava na Ericeira.

Postal da proclamação da República Portuguesa, 5 de outubro de 1910.
FIG. 03Postal da proclamação da República Portuguesa, 5 de outubro de 1910.

Às nove da manhã de 5 de outubro, o advogado José Relvas proclamou a República do alto dos Paços do Concelho de Lisboa, para uma multidão no Terreiro do Paço. A bandeira verde e vermelha foi içada no Castelo de São Jorge. No quartel da Rotunda, o segundo-tenente Machado Santos, que sustentara a defesa republicana ao longo de toda a noite, recebia o título de herói da revolução. A família real não soube disso a tempo.

O iate Amélia IV (setenta metros de casco, construído em 1900 e adquirido em 1901 por D. Carlos I para campanhas de oceanografia, batizado com o nome da rainha) aguardava ao largo da Ericeira. Para chegar a bordo, Manuel II, a rainha D. Amélia e a rainha-viúva D. Maria Pia de Saboia desceram à Praia dos Pescadores. Usaram botes da pesca local. Conta-se que tiveram de usar caixotes de peixe para saltar do cais para as embarcações.

O iate real Amélia IV em Londres, 1900: o navio que levou a monarquia ao exílio.
FIG. 04O iate real Amélia IV em Londres, 1900: o navio que levou a monarquia ao exílio.

Segundo os relatos da viagem, partiram primeiro para norte, na direção do Porto; o combustível não chegava, e viraram para sul. A 7 de outubro, o Amélia IV fundeava em Gibraltar. Oito dias depois, D. Maria Pia, avó do rei, nascida princesa de Saboia, casada em Portugal em 1862 com o rei D. Luís I, embarcou num couraçado italiano, o Regina Elena, enviado pelo seu sobrinho, o rei Vítor Manuel III. Era 16 de outubro, o seu sexagésimo terceiro aniversário. Havia ainda uma segunda coincidência que os cronistas da época registaram: saíra de Portugal a 5 de outubro, o mesmo dia do calendário em que, quarenta e oito anos antes, a esquadra que a trazia de Itália avistara Lisboa para o seu casamento. Foi para Nápoles. Morreu perto de Turim em 1911, sem ter regressado.

Em Lisboa, a República tratou do espólio como convinha. O Amélia IV, propriedade da coroa, passou para o Estado. A Marinha retirou-lhe o nome e rebatizou-o NRP Cinco de Outubro, em memória do dia em que transportara a monarquia ao exílio.

A Praia dos Pescadores da Ericeira hoje: o mesmo mar, outra história.
FIG. 05A Praia dos Pescadores da Ericeira hoje: o mesmo mar, outra história.

Manuel II foi para Inglaterra, onde o rei Jorge V o recebeu. Instalou-se em Fulwell Park, em Twickenham, no condado de Middlesex, a cidade onde a sua mãe nascera. Casou em 1913 com a princesa Augusta de Hohenzollern-Sigmaringen; não tiveram filhos. Nos anos seguintes, entregou-se à catalogação sistemática de literatura portuguesa dos séculos XV e XVI, obra que os historiadores reconheceram depois pelo seu rigor académico. Era o trabalho que podia fazer.

Viveu vinte e dois anos em Twickenham. A 2 de julho de 1932, morreu de edema agudo da glote, com quarenta e dois anos, sem ter posto os pés em Portugal desde aquela tarde de outubro. O cruzador britânico HMS Concord transportou o seu caixão até à barra do Tejo. A 2 de agosto de 1932, foi sepultado no Panteão da Casa de Bragança, na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, entre os reis que o precederam.

A Praia dos Pescadores da Ericeira continua ali. A maré entra e sai. O peixe ainda cheira a sal e a mar.