Durante treze meses seguidos, um vulcão destruiu casas e campos inteiros na ilha do Faial. E não matou uma única pessoa.
Um geólogo chamaria a isto, décadas depois, «absolutamente espantoso».
O rasto desta história havia de chegar, dois anos mais tarde, ao Senado dos Estados Unidos, com um nome que ninguém esperaria encontrar numa lei sobre um vulcão açoriano.

A erupção do vulcão dos Capelinhos, 1957-1958
A erupção começou ao largo da Ponta dos Capelinhos, no extremo ocidental do Faial, nos Açores, a 27 de setembro de 1957, e manteve-se em atividade por treze meses, até 24 de outubro de 1958.
Nos dez dias anteriores, entre 16 e 27 de setembro, a ilha já tremia: mais de duzentos abalos, a maior parte ligeiros, sentidos por quem vivia no Capelo, sem que ninguém soubesse ainda o que aí vinha. Depois, a cerca de um quilómetro da costa, o mar começou a vomitar cinza, vapor e fragmentos de rocha. Nasceu ali, debaixo de água, uma ilha nova. Cresceu até se ligar à costa por um istmo, e a terra recém-nascida tornou-se, sem cerimónia, parte do Faial.

Seguiu-se um ano inteiro de tremor e cinza sobre o oeste da ilha. Cobria os campos como uma segunda neve, escura, e que não derretia. Nas freguesias mais próximas do vulcão, casas e campos ficaram arrasados: colheitas perdidas, telhados a ceder sob o peso da cinza, o quotidiano suspenso.
E, no meio de tudo isto, ninguém morreu.

É esse o facto que ainda hoje surpreende quem estuda os Capelinhos. Rui Coutinho, geólogo, resumiu-o desta forma ao fim de décadas de investigação: é «absolutamente espantoso» que não tenha havido uma única vítima mortal.
O farol soterrado em cinza
Há um monumento a essa sorte, e continua de pé. O farol da Ponta dos Capelinhos tinha sido construído entre 1894 e 1903, e há mais de cinco décadas marcava o limite da terra firme. A erupção soterrou-o em cinza e rocha até ao segundo andar: só esse piso ficou visível acima do novo solo. Ainda assim, a torre resistiu. Manteve-se de pé, «em condições razoáveis», segundo um relatório da época. Hoje, requalificado, é o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, aberto ao público desde maio de 2008.

A terra nova e a emigração para os Estados Unidos
A ilha, essa, ganhou terra: cerca de dois vírgula quatro quilómetros quadrados de chão que um ano antes não existiam. O mar já lhe devolveu grande parte: hoje resta bem menos de metade do que ali nasceu. Mas foi outra perda, não geológica, que mudou mais vidas. A crise vulcânica destruiu o sustento de milhares de famílias no oeste do Faial, e cerca de quarenta por cento da população ativa da ilha emigrou.
Muitos foram para os Estados Unidos. E foi aí que a história dos Capelinhos deixou de ser só açoriana.

O Azorean Refugee Act e o senador John F. Kennedy
O Congresso norte-americano respondeu à crise com uma lei feita à medida: o Azorean Refugee Act, promulgado a 2 de setembro de 1958, disponibilizando mil e quinhentos vistos especiais, fora das quotas normais de imigração, às famílias atingidas pelo vulcão. Mais tarde, a lei foi alargada, até 1962, a um número ainda maior de refugiados.
A lei tinha dois padrinhos no Senado. Um era John Pastore, de Rhode Island. O outro era um jovem senador de Massachusetts, ainda a dois anos de distância da Casa Branca. Chamava-se John Fitzgerald Kennedy.
O geólogo achou espantoso que ninguém tivesse morrido num vulcão que ardeu treze meses seguidos. Talvez seja ainda mais espantoso que essa mesma erupção, nos Açores, tenha posto o nome de um futuro presidente dos Estados Unidos numa lei americana, dois anos antes de ele ser conhecido por alguém fora de Massachusetts.