Durante treze meses seguidos, um vulcão destruiu casas e campos inteiros na ilha do Faial. E não matou uma única pessoa.

Um geólogo chamaria a isto, décadas depois, «absolutamente espantoso».

O rasto desta história havia de chegar, dois anos mais tarde, ao Senado dos Estados Unidos, com um nome que ninguém esperaria encontrar numa lei sobre um vulcão açoriano.

A 27 de setembro de 1957, a cerca de um quilómetro da Ponta dos Capelinhos, o mar começou a expelir cinza, vapor e fragmentos de rocha. Nasceu ali, debaixo de água, uma ilha nova. Pintura.
FIG. 02A 27 de setembro de 1957, a cerca de um quilómetro da Ponta dos Capelinhos, o mar começou a expelir cinza, vapor e fragmentos de rocha. Nasceu ali, debaixo de água, uma ilha nova. Pintura.

A erupção do vulcão dos Capelinhos, 1957-1958

A erupção começou ao largo da Ponta dos Capelinhos, no extremo ocidental do Faial, nos Açores, a 27 de setembro de 1957, e manteve-se em atividade por treze meses, até 24 de outubro de 1958.

Nos dez dias anteriores, entre 16 e 27 de setembro, a ilha já tremia: mais de duzentos abalos, a maior parte ligeiros, sentidos por quem vivia no Capelo, sem que ninguém soubesse ainda o que aí vinha. Depois, a cerca de um quilómetro da costa, o mar começou a vomitar cinza, vapor e fragmentos de rocha. Nasceu ali, debaixo de água, uma ilha nova. Cresceu até se ligar à costa por um istmo, e a terra recém-nascida tornou-se, sem cerimónia, parte do Faial.

Um ano inteiro de tremor e queda de cinza sobre o oeste do Faial: colheitas perdidas, telhados a ceder sob o peso da cinza, o quotidiano suspenso. Ninguém morreu. Pintura.
FIG. 03Um ano inteiro de tremor e queda de cinza sobre o oeste do Faial: colheitas perdidas, telhados a ceder sob o peso da cinza, o quotidiano suspenso. Ninguém morreu. Pintura.

Seguiu-se um ano inteiro de tremor e cinza sobre o oeste da ilha. Cobria os campos como uma segunda neve, escura, e que não derretia. Nas freguesias mais próximas do vulcão, casas e campos ficaram arrasados: colheitas perdidas, telhados a ceder sob o peso da cinza, o quotidiano suspenso.

E, no meio de tudo isto, ninguém morreu.

A erupção acrescentou cerca de 2,4 quilómetros quadrados de terra nova à ilha do Faial. O mar já devolveu grande parte: hoje resta bem menos de metade do que ali nasceu. Pintura.
FIG. 04A erupção acrescentou cerca de 2,4 quilómetros quadrados de terra nova à ilha do Faial. O mar já devolveu grande parte: hoje resta bem menos de metade do que ali nasceu. Pintura.

É esse o facto que ainda hoje surpreende quem estuda os Capelinhos. Rui Coutinho, geólogo, resumiu-o desta forma ao fim de décadas de investigação: é «absolutamente espantoso» que não tenha havido uma única vítima mortal.

O farol soterrado em cinza

Há um monumento a essa sorte, e continua de pé. O farol da Ponta dos Capelinhos tinha sido construído entre 1894 e 1903, e há mais de cinco décadas marcava o limite da terra firme. A erupção soterrou-o em cinza e rocha até ao segundo andar: só esse piso ficou visível acima do novo solo. Ainda assim, a torre resistiu. Manteve-se de pé, «em condições razoáveis», segundo um relatório da época. Hoje, requalificado, é o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, aberto ao público desde maio de 2008.

Depois da crise, cerca de 40% da população ativa do Faial emigrou, muitos para os Estados Unidos. Pintura.
FIG. 05Depois da crise, cerca de 40% da população ativa do Faial emigrou, muitos para os Estados Unidos. Pintura.

A terra nova e a emigração para os Estados Unidos

A ilha, essa, ganhou terra: cerca de dois vírgula quatro quilómetros quadrados de chão que um ano antes não existiam. O mar já lhe devolveu grande parte: hoje resta bem menos de metade do que ali nasceu. Mas foi outra perda, não geológica, que mudou mais vidas. A crise vulcânica destruiu o sustento de milhares de famílias no oeste do Faial, e cerca de quarenta por cento da população ativa da ilha emigrou.

Muitos foram para os Estados Unidos. E foi aí que a história dos Capelinhos deixou de ser só açoriana.

O Congresso dos EUA respondeu com o Azorean Refugee Act, promulgado a 2 de setembro de 1958: mil e quinhentos vistos especiais para as famílias atingidas pelo vulcão, apadrinhados no Senado por John Pastore, de Rhode Island, e por um jovem senador de Massachusetts — John Fitzgerald Kennedy. Pintura.
FIG. 06O Congresso dos EUA respondeu com o Azorean Refugee Act, promulgado a 2 de setembro de 1958: mil e quinhentos vistos especiais para as famílias atingidas pelo vulcão, apadrinhados no Senado por John Pastore, de Rhode Island, e por um jovem senador de Massachusetts — John Fitzgerald Kennedy. Pintura.

O Azorean Refugee Act e o senador John F. Kennedy

O Congresso norte-americano respondeu à crise com uma lei feita à medida: o Azorean Refugee Act, promulgado a 2 de setembro de 1958, disponibilizando mil e quinhentos vistos especiais, fora das quotas normais de imigração, às famílias atingidas pelo vulcão. Mais tarde, a lei foi alargada, até 1962, a um número ainda maior de refugiados.

A lei tinha dois padrinhos no Senado. Um era John Pastore, de Rhode Island. O outro era um jovem senador de Massachusetts, ainda a dois anos de distância da Casa Branca. Chamava-se John Fitzgerald Kennedy.

O geólogo achou espantoso que ninguém tivesse morrido num vulcão que ardeu treze meses seguidos. Talvez seja ainda mais espantoso que essa mesma erupção, nos Açores, tenha posto o nome de um futuro presidente dos Estados Unidos numa lei americana, dois anos antes de ele ser conhecido por alguém fora de Massachusetts.