Os irmãos Lumière não quiseram vender a câmara a um florista do Porto. Ele foi buscar outra a França e com ela filmou os operários de uma fábrica de camisas a sair do trabalho.

Chamava-se Aurélio da Paz dos Reis e, em julho de 1896, tinha 33 anos e uma loja de flores. Vendia também material fotográfico, máquinas de escrever e automóveis.

Evocação pintada de uma sessão de cinema num teatro do Porto, em julho de 1896 (figuras genéricas).
FIG. 02Evocação pintada de uma sessão de cinema num teatro do Porto, em julho de 1896 (figuras genéricas).

Nesse mês chegou ao Teatro do Príncipe Real, no Porto, o inglês Edwin Rousby com o Animatógrafo, um aparelho da casa de Robert W. Paul que punha figuras a mexer num pano: uma oficina de ferreiros, uma dança do ventre. Em Lisboa, a primeira sessão de cinema em Portugal de que há registo tinha sido a 18 de junho. No Porto, O Primeiro de Janeiro escreveu que as experiências «surpreenderam e maravilharam os espectadores». Segundo o historiador Luís de Pina, Paz dos Reis não perdeu uma única sessão.

Evocação pintada de uma oficina em França onde se vende uma câmara de filmar, em 1896 (figuras genéricas).
FIG. 03Evocação pintada de uma oficina em França onde se vende uma câmara de filmar, em 1896 (figuras genéricas).

Queria um aparelho daqueles. Foi a França e tentou comprar um cinematógrafo aos Lumière. O Manual do Cidadão Aurélio da Paz dos Reis, que a historiadora Isabel Pina cita, diz que eles recusaram, e, segundo a Cinemateca Portuguesa, resistiam a vendê-lo antes de maio de 1897. Comprou então uma câmara a um dos fabricantes que lhes faziam concorrência.

Exposição de floricultura no antigo Palácio de Cristal, no Porto, em 1908. (Fotografia de Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, domínio público)
FIG. 04Exposição de floricultura no antigo Palácio de Cristal, no Porto, em 1908. (Fotografia de Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, domínio público)

Com o fotógrafo Francisco Magalhães Bastos Júnior, filmou a fábrica de António da Silva Cunha, a Confiança, no número 181 da Rua de Santa Catarina. Os operários saem pela porta e, na rua, passam charretes. O filme tem 55 segundos, em película de 35 milímetros, a preto e branco e sem som. Os temas e os enquadramentos seguiam o catálogo dos Lumière, diz a Cinemateca, e o historiador José Quinta Ferreira acrescenta que foram adaptados ao contexto português: são por isso um testemunho dos usos e costumes da época.

Aurélio da Paz dos Reis. (Retrato, domínio público)
FIG. 05Aurélio da Paz dos Reis. (Retrato, domínio público)

A 12 de novembro de 1896, o Jornal de Notícias anunciava para essa noite, no Príncipe Real, o «Kinetógrafo Português»: doze quadros, sete deles portugueses. Entre eles estavam o Jogo do Pau em Santo Tirso, o Zé Pereira, a chegada de um comboio americano a Cadouços e a saída dos operários da Confiança. O aparelho funcionava no intervalo entre o segundo e o terceiro ato de uma companhia de zarzuela.

Evocação pintada da filmagem de uma saída de fábrica numa rua do Porto, em 1896 (figuras genéricas).
FIG. 06Evocação pintada da filmagem de uma saída de fábrica numa rua do Porto, em 1896 (figuras genéricas).

A saída dos operários é, segundo a Cinemateca, o filme português mais antigo que ela guarda. Antes dele já houvera sessões de animatógrafo no Porto, e um operador inglês filmara em Lisboa. Segundo Quinta Ferreira, a imprensa e o público acolheram bem os filmes; um recorte sem data elogiava a projeção, com as figuras «cheias de movimento e de vida».

Evocação pintada de uma sessão do «Kinetógrafo Português», com os bombos atrás do ecrã, em 1896 (figuras genéricas).
FIG. 07Evocação pintada de uma sessão do «Kinetógrafo Português», com os bombos atrás do ecrã, em 1896 (figuras genéricas).

Seguiu-se Braga. O mesmo recorte dizia que os donos do aparelho projetavam uma «grande tournée» pelo Brasil. A 8 de dezembro, Paz dos Reis embarcou para o Rio de Janeiro e estreou no Teatro Lucinda a 15 de janeiro de 1897. A imprensa da época apontou a cintilação e a falta de nitidez dos filmes. Desapontado, diz a Cinemateca, deixou o cinema; o dinheiro gasto nos filmes e no aparelho nunca foi recuperado, escreve Isabel Pina.

Reunião no pátio do Palácio da Bolsa, no Porto, em 1899. (Fotografia de Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, domínio público)
FIG. 08Reunião no pátio do Palácio da Bolsa, no Porto, em 1899. (Fotografia de Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, domínio público)

Em 2001, cento e cinco anos depois, Manoel de Oliveira, também ele do Porto, voltou àquela porta. No filme Porto da Minha Infância pôs o plano de 1896 e refez a cena com trabalhadores de 2001 e um ator a fazer de Paz dos Reis. A antiga fábrica de camisas era então a sede da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, uma das produtoras do filme.

Paz dos Reis terá feito uns trinta filmes, segundo o historiador Félix Ribeiro. A Cinemateca guarda quatro, recuperados em 1982. Guarda também uma câmara que identifica como a dele, descoberta nos anos setenta, que passou pelas famílias de dois atores de teatro e pelas mãos de um colecionador antes de lá entrar. Só se conhecem mais três exemplares iguais.

Passou à fotografia estereoscópica, que dá a ver as imagens em relevo. Deixou 7294 chapas de vidro, uma das maiores coleções dos arquivos públicos portugueses, segundo Isabel Pina. Na descrição do fundo que ela cita há os médicos Ricardo Jorge, Câmara Pestana e Bento Silva no Porto, durante a peste bubónica.

Em 1900, segundo Quinta Ferreira, a Exposição Universal de Paris deu-lhe uma medalha de prata: a fotografia premiada era a de uma feira de gado.

Fontes12 referências
  • Cinemateca Portuguesa, Cinemateca Digital, ficha de Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança (Aurélio da Paz dos Reis, 1896, 55 s, 16 imagens por segundo, 35 mm).
  • Cinemateca Portuguesa, «O Museu vai a casa»: Kinétographe de Bedts (CP-MC|GF586).
  • José Quinta Ferreira, «Do início do Cinema em Portugal à construção do modelo de produção no período do cinema mudo da indústria cinematográfica no Norte de Portugal», AVANCA | CINEMA, 2023.
  • Isabel Pina, «Cinema in the (stereoscopic) photography of Paz dos Reis: aesthetics and visual experiences», 6th International Conference on Creative Media/Technologies (IConCMT), St. Pölten, 27-28 de novembro de 2024.
  • Isabel Pina, «Aurélio da Paz dos Reis: Stereoscopic Photography and Panoramic Visions», AVANCA | CINEMA, n.º 16, 2025 (resumo).
  • Atas do III Encontro Anual da AIM (Associação de Investigadores da Imagem em Movimento), estudo sobre Porto da Minha Infância, de Manoel de Oliveira.
  • GRIMH, página sobre o Porto nos primeiros anos do cinema, com os excertos de O Primeiro de Janeiro de 18 e 24 de julho de 1896.
  • Histórias de Cinema, «Primórdios do cinema português» (resumindo Luís de Pina, 1986; A. Videira Santos, 1990; António J. Ferreira, 1986).
  • Mais Lisboa (NOVA FCSH), «Cinema em Lisboa: como tudo começou».
  • RTP Ensina, «Aurélio Paz dos Reis, o primeiro cineasta português».
  • Jogo do Pau Português (jogodopau.wiki), transcrições dos recortes «Jornal de Notícias, 12 de novembro de 1896» e «Experiencias do kinetographo».
  • Wikipédia, «Aurélio Paz dos Reis» e «Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança».