Numa tarde de domingo de 1882, numa república de estudantes do Porto, para os lados de Cedofeita, a música parou. Os rapazes que tocavam guitarra num dos quartos pousaram-na e vieram ver o que se passava ali ao lado: um colega estava a falar numa língua que eles não sabiam que existia em Portugal.
Na cama, reclinado, estava Manuel António Branco de Castro, aluno da Academia Politécnica, natural de Duas Igrejas, no planalto de Miranda do Douro. Na cadeira ao pé, de lápis na mão, um caloiro de Medicina chamado José Leite de Vasconcelos, que ouvia pela primeira vez na vida «fallar seguidamente mirandês» e ia esboçando, ali mesmo, as primeiras linhas da sua gramática. O que começou naquele quarto levaria cento e dezassete anos a chegar ao Diário da República: aquilo a que o país viria a chamar a segunda língua de Portugal.

Leite de Vasconcelos, o estudante que colecionava palavras
Vasconcelos já sabia que aquela língua existia. Mas até então só conseguira juntar duas ou três palavras, uma delas «cheno», cheio, ouvida a um conhecido em Guimarães. Foram dois amigos, Afonso Cordeiro e José Joaquim Pinto, que lhe trouxeram a notícia: andava matriculado na Politécnica um rapaz de Miranda que sabia com perfeição a língua daquela terra, porque a falava desde criança. Já falámos aqui de Leite de Vasconcelos, a propósito de uma anta na Beira: é o mesmo que haveria de fundar o Museu Nacional de Arqueologia e de passar a vida a registar o que o país trazia na memória. Em 1882 era um estudante que colecionava palavras.

O domingo de Cedofeita: a fala que não tinha regras
O que se passou naquele domingo, contou-o o próprio, dezoito anos depois. Branco de Castro começou por avisá-lo: «Isto é uma giria de pastores, uma fala charra, não tem regras, nem normas!» Era a sua língua materna, e ele próprio não a achava digna de estudo. Vasconcelos foi-lhe mostrando outra coisa: que as correspondências com o latim «eram certas», que a conjugação «seguia com ordem». E depois deu-se o que registou como o auge do espanto. Quando ao amigo não acudia uma palavra, ou a flexão de um verbo, era Vasconcelos quem lha indicava, deduzida das leis que ia descobrindo enquanto escrevia. O estudante de Medicina previa as formas de uma língua que ouvia pela primeira vez. Branco de Castro pasmava, e acabou convertido: começou, escreveu Vasconcelos, «a venerar esta desherdada e perdida filha do latim».

O Dialecto Mirandez (1882): a primeira descrição do mirandês
Nesse mesmo ano, tudo aquilo saiu do quarto. Primeiro em folhetins de um jornal de Penafiel, O Penafidelense, no verão de 1882; depois num opúsculo datado de 8 de novembro, O Dialecto Mirandez, o primeiro ensaio de glotologia do seu autor, e a primeira descrição escrita da língua: o próprio anotou que nada existia escrito sobre o mirandês além do que acabara de publicar. O livrinho abre assim: «Não é o portuguez a unica lingua usada em Portugal…» E arruma a questão num sítio inesperado: o mirandês não é português mal falado, nem castelhano passado na raia. É uma «evolução legitima» do latim, ao lado do asturo-leonês. Irmã do português, não filha. Com aquela tarde, haveria de escrever, juntava-se «á carta linguistica da Europa neo-latina mais um elemento».

Cinco dias até à Terra de Miranda
No verão seguinte, a convite de Branco de Castro, foi ouvi-la à terra dela. A viagem do Porto a Duas Igrejas levou cinco dias: comboio até ao Pinhão, diligência aos solavancos por Alijó e Murça até Macedo de Cavaleiros, e dali em diante em burros, com duas mulheres e um rapaz por arrieiros, a atravessar o Sabor, o Maçãs e o Angueira. «Conseguir o prazer de ouvir in loco dois ditongos mirandeses», escreveu, «não custa tão pouco como á primeira vista parece.»

Compensou. Em Duas Igrejas, hospedado em casa da família do amigo, encontrou uma terra inteira disposta a ensiná-lo. Nos cabanhais, à sombra, as mulheres diziam-lhe contos e canções; uma rapariga chamada Maria Amara, «Maree'Mara» em mirandês, ficou registada como uma das suas melhores colaboradoras. O povo corria a dizer: «Aquél studante bê aprender la nossa fala!»

A língua do lar: a lhéngua de Miranda do Douro
À noite, um lavrador já de idade, que guardava na memória o léxico inteiro, trepava pela varanda «como um gato» para lhe dar lição: alto, embuçado na capa de honras, «todo vaidoso e todo contente por me ensinar a sua lhengoa». Era uma língua doméstica, «a lingoa do lar, do campo e do amor»: com um estranho, o aldeão passava logo ao português. Ao português chamavam «grave»; à sua fala chamavam charra, com modéstia, e «la nossa lhengoa», com orgulho. E lembravam, com gosto, que os de fora só entendiam uma língua, enquanto um mirandês entendia quatro: mirandês, português, galego e espanhol.
Vasconcelos não parou. No verão de 1884 fez um circuito pela raia de Bragança e encontrou mais: em Rio de Onor e Guadramil, dois falares a que chamou riodonorês e guadramilês; em Sendim, o sendinês. Nem por isso se armou em descobridor: «Quando digo descobri», ressalvou, «entende-se que quero significar que o descobrimento foi em relação á Glottologia», porque muita gente sabia da existência daquelas falas. Dezoito anos depois do domingo de Cedofeita, a Imprensa Nacional publicou os dois volumes dos Estudos de Philologia Mirandesa, 1900 e 1901. O «primeiro ensaio» tornara-se a obra de referência. Lá dentro, a certeza em sete palavras: «A origem do mirandês é o latim.»
Da escola de 1986 à Lei n.º 7/99
O resto veio devagar, por atos com data. Em 1986, o Ministério da Educação autorizou aulas opcionais de língua e cultura mirandesa nas escolas de Miranda do Douro; a disciplina arrancou no ano letivo de 1986/87 com nove alunos, e o primeiro professor chamou-se Domingos Raposo. Em novembro de 1998, a Assembleia da República aprovou uma lei curta, de sete artigos, que viria a ser a Lei n.º 7/99, de 29 de janeiro: «Reconhecimento oficial de direitos linguísticos da comunidade mirandesa». O Estado Português, diz o artigo 2.º, «reconhece o direito a cultivar e promover a língua mirandesa, enquanto património cultural, instrumento de comunicação e de reforço de identidade da terra de Miranda».
A segunda língua de Portugal
A lei não usa a fórmula que se vulgarizou a seguir, mas foi assim que o país a leu e a repetiu: o mirandês passou a ser apresentado como a segunda língua de Portugal. Nesse mesmo ano de 1999, a Câmara de Miranda do Douro e o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa publicaram a primeira Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa: a língua passava a ter uma escrita sua.
Os Lusíadas em mirandês
E a escrita foi usada. Em 2010 saiu Ls Lusíadas: Camões inteiro, traduzido para mirandês por Fracisco Niebro, pseudónimo de Amadeu Ferreira, um jurista nascido em Sendim. Em 2025, o Governo criou uma Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa, com sede em Miranda do Douro. Nas escolas do planalto, o mirandês continua a ser disciplina de opção, como no ano em que teve nove alunos.
«Não tem regras, nem normas», disse naquele domingo, no quarto de Cedofeita, o único homem ali que a falava. As regras estavam lá. Um estudante de Medicina encontrou-as numa tarde, sentado numa cadeira ao pé da cama. Hoje aguentam os oito mil oitocentos e dezasseis versos de Os Lusíadas.