No seminário de Braga, chamavam-lhe Himalaya por ser muito alto. Em 1904, este padre de Arcos de Valdevez levou à Exposição Universal de St. Louis uma máquina de treze metros feita de 6117 espelhos pequenos, e um mecanismo de relojoaria fazia-a seguir o sol de manhã à noite.
O padre deu-lhe um nome tirado do grego, pirelióforo: mais ou menos, «trago o fogo do sol». O júri da exposição deu-lhe um grande prémio, duas medalhas de ouro e uma de prata. De noite, escreveu Alfredo Mesquita, um jornalista que esteve diante dela, quem olhasse do foco via uma estrela, alinhada com o eixo do espelho, repetida seis mil vezes. Com a lua, acrescentou o jornalista, acontecia o mesmo.

Para que queria um padre o fogo do sol?

A resposta deu-a ele próprio a Mesquita, que a publicou em 1905 na revista Serões. Aos doze anos, contou, trabalhava na terra e via o pai sair de casa sempre que vinha trovoada forte, para levar os enxurros da montanha a regar os campos. Achou que era mania, e disse-lho. O pai respondeu que o fazia por experiência: sempre vira as culturas medrar até onde essa água chegava. Um ano depois de ir estudar para Arcos, ouviu dois homens da serra do Soajo: «Este anno havemos de ter muito feno na serra, porque o anno foi de muitas trovoadas.» No seminário aprendeu que a chuva das trovoadas trazia compostos de azoto. «A chimica ficava satisfeita com isto», contou, «mas eu não.»

Queria fazer o que o raio faz: tirar o azoto do ar e dá-lo à terra como adubo. Para isso precisava de um foco com a intensidade do raio, e foi procurá-lo no sol.

Chamava-se Manuel António Gomes e nascera a 9 de dezembro de 1868 em Cendufe, no concelho de Arcos de Valdevez, numa família de lavradores pobres. Entrou no seminário aos quinze anos, ficou com a alcunha e juntou-a ao nome. Foi padre até ao fim da vida.

Em 1899, em Paris, registou duas patentes francesas de um aparelho para obter altas temperaturas com a luz do sol, e pouco depois experimentou ali a primeira máquina. A segunda subiu aos Pirenéus franceses no verão de 1900: em Sorède, no Coll del Buc, por baixo do castelo de Ultrera, artesãos da terra levaram-na monte acima, às costas de homens e de mulas. Tinha 260 espelhos e trabalhou ali cerca de três meses.

Na patente americana, pedida em 1901, apresenta-se como «engineer, a subject of the King of Portugal»: engenheiro, súbdito do rei de Portugal. Em 1902 montou a terceira máquina, em Lisboa. Das três, diria ele a Mesquita, nenhuma lhe permitira ainda «dizer se sim, ou não».

A quarta foi para St. Louis. A exposição abriu a 30 de abril de 1904 e recebeu quase vinte milhões de visitantes. A 5 de julho, uma chapa fotográfica mostra a máquina ainda reduzida à armação, com operários empoleirados na estrutura e um cartaz: «Portuguese Solar Apparatus». Cada espelho ficou preso por três parafusos, para ser afinado um a um, e o relógio que movia o conjunto, desenhara-o e construíra-o o próprio padre.

O investigador Manuel Collares Pereira, que estudou a máquina um século depois, conta que o foco derretia ferro e desfazia em fumo, quase de imediato, um pedaço de madeira. Em 1905, o inventor não quis dizer a quantos graus chegava: esperava por experiências definitivas. Terá tido poucos dias de céu limpo durante a feira. A 12 de março de 1905, o New York Times publicou um artigo sobre as possibilidades da máquina premiada do «Father Himalaya».

Acabada a exposição, Himalaya tentou oferecê-la à universidade da cidade e a outras instituições. Nenhuma a aceitou. Foi desmontada, e perdeu-se-lhe o rasto: Alfredo Tinoco, num estudo sobre Portugal na exposição, escreve que foi roubada de um armazém; Collares Pereira diz só que desapareceu, e pergunta se foi roubada ou levada aos bocados. Himalaya passou a outros inventos, entre eles um explosivo a que chamou himalaíte, usado em pedreiras e na agricultura. Morreu em Viana do Castelo a 21 de dezembro de 1933.

Duas das suas máquinas voltaram a existir. Em Sorède, a associação Les Amis du Padre Himalaya reconstruiu a de 1900 sem planta nenhuma, a partir de três fotografias da época e da medida da pista de cimento que ficou no monte. Está noutro sítio de Sorède, num antigo vinhedo transformado em arboreto, e foi inaugurada a 29 de setembro de 2016.

Em Arcos de Valdevez, uma réplica em tamanho natural da de St. Louis está ao ar livre, junto às Oficinas de Criatividade Himalaya, um centro de ciência que recebe sobretudo famílias e escolas. Para os cem anos do prémio, a Ciência Viva lançou um concurso com o nome dele.
Nenhuma das máquinas lhe deu o adubo que procurava. Tinham começado todas num campo do Minho, com um lavrador que saía de casa quando trovejava e que dizia ao filho que «as aguas de trovoada engordam a terra».
Fontes15 referências
- Alfredo Mesquita, «O Padre Himalaya e o seu invento», Serões, 2.ª série, vol. 1, n.º 1, julho de 1905, pp. 23-27 (digitalização do Getty Research Institute no Internet Archive).
- Patente dos Estados Unidos n.º 797 891, M. A. G. Himalaya, «Solar apparatus for producing high temperatures», pedida a 30 de agosto de 1901, concedida a 22 de agosto de 1905.
- J. W. Buel (ed.), Louisiana and the Fair, vol. 8, St. Louis, 1904-1905, pp. 3127-3128.
- The New York Times, «Father Himalaya and the possibilities of his prize-winning pyrheliophor», 12 de março de 1905.
- St. Louis Public Library, coleção de negativos em vidro da Louisiana Purchase Exposition: «Father Himalaya's Pyrheliophor» (D80435, 1904) e «The Pyrheliophor, a solar apparatus» (D80274, 5 de julho de 1904). Sem direitos de autor nos Estados Unidos.
- Alfredo Tinoco, «Portugal na Exposição Universal de 1904: O Padre Himalaia e o Pirelióforo», Cadernos de Sociomuseologia, 42 (2012).
- Manuel Collares Pereira, «A highly innovative, high temperature, high concentration, solar optical system at the turn of the nineteenth century. The Pyrheliophoro», INETI (c. 2004).
- Márcia Lemos, «Padre Himalaya: o retrato de um utopista português», E-topia, 11 (2010).
- Câmara Municipal da Amadora, «Padre Manuel António Gomes Himalaya».
- Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, «Centro Ciência Viva dos Arcos: Oficinas de Criatividade Himalaya».
- Ciência Viva, «Concurso Solar "Padre Himalaya"» (página de 2005, no Arquivo.pt).
- Les Amis du Padre Himalaya, «Le four solaire de Sorède» e «La reconstruction du four».
- Midi Libre, «Le four solaire de Sorède», 21 de março de 2014; Plein Soleil, «Inauguration du four solaire de Sorède», 6 de outubro de 2016.
- ECO, Joana Piriquito Santos, «O pirelióforo do Padre Himalaya», 18 de junho de 2024.
- «Louisiana Purchase Exposition», Wikipedia.