Conta-se em Arca que quem pôs ali aquela pedra foi uma mulher. Trouxe-a à cabeça, a fiar numa roca, com um filho ao colo.
A pedra é uma anta, e continua onde estava: uma laje de granito que nenhum homem levanta, assente sobre as pedras ao alto que a seguram há uns quatro mil e quinhentos anos. Estamos no concelho de Oliveira de Frades, no distrito de Viseu. A gente da terra chama-lhe a Pedra dos Mouros.
Na toponímia portuguesa, «mouro» quase nunca quer dizer muçulmano. Serve para nomear o muito antigo e o inexplicável, e estes monumentos são milhares de anos anteriores a qualquer presença islâmica na Península.
Aquilo é um sepulcro, erguido no Neo-calcolítico, e a serra em volta está cheia de outros iguais.
Só que, até 1921, a arqueologia portuguesa conhecia nesta região um único dólmen. Este. O arqueólogo João Luís Cardoso escreve que a região dolménica estava «então totalmente ignorada».

Porquê este. A resposta passa por meia página esquecida de uma revista, por uma promessa que ninguém cumpriu durante vinte e três anos, e por uma conversa de adega numa festa de anos.
A lenda da moura da Anta de Arca
Comecemos pela lenda. A versão que hoje se conta em Arca não anda solta. Foi recolhida na própria aldeia por Sónia Batista, publicada em 1998 em Lendas Lafonenses, e está catalogada no Arquivo Português de Lendas. Nessa versão, a moura aparece todos os anos na madrugada de São João, a fiar em cima da anta, rodeada de objetos de ouro. A quem primeiro ali passar pergunta de que gosta mais, se dos olhos dela, se do ouro. E como toda a gente responde que prefere o ouro, o ouro desfaz-se em cinza.
A mesma ficha regista outra coisa, e é essa que interessa: a crença de quem contou vem lá anotada como incerta. Contou-se a história, e ficou escrito que quem a contava não sabia bem se acreditava.
Mouras encantadas: uma crença de todo o país
A crença é bem mais velha do que essa recolha, e não é só de Viseu. Em 1882, José Leite de Vasconcelos começava por observar que poucas terras haveria em Portugal onde não se falasse de mouros e mouras a habitar grutas, montes e outeiros. De São Pedro do Sul, aqui ao lado, registou as mouras encantadas nos outeiros, a aparecer na manhã de São João a estender meadas de ouro por cima deles, e com força bastante para carregar um outeiro à cabeça. Quem tenha um penedo antigo à saída da sua terra tem provavelmente uma destas histórias em casa.

Está impresso trinta e nove anos antes de alguém ter mapeado estas antas.
O mesmo homem havia de ser o primeiro cientista a escrever sobre a pedra de Arca.
1898: a primeira notícia científica da Pedra dos Mouros
Foi no último trimestre de 1898, em meia página d'O Archeologo Portuguez, a revista que ele próprio dirigia. Vasconcelos publicou uma fotografia do monumento e um esboço da planta, chegados pela mão de um lente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, o Dr. Júlio Henriques.
E escreveu duas frases que carregam tudo o que se segue.

A primeira: «Chama-se vulgarmente a Pedra dos Mouros.»
A segunda: «Eu espero explorá-lo em indo á Beira.»
Não foi. O registo oficial data a exploração da anta de 1921, vinte e três anos depois, e a ficha do Estado usa o condicional, sem dizer quem a fez. Ficamos com a promessa datada e sem o nome de quem a cumpriu.
1910: a anta classificada monumento nacional
O Estado, esse, chegou primeiro. Por decreto de 16 de junho de 1910 a Pedra dos Mouros foi classificada monumento nacional, na linha das diretrizes de trabalho do Conselho Superior dos Monumentos Nacionais, que havia muito vinha a defender o inventário das riquezas arqueológicas do país. Estava protegida por lei antes de alguém lhe ter mexido na terra.

Porque é que a aldeia se chama Arca
Falta seguir uma nota de rodapé. Ao chegar ao nome do sítio, na meia página de 1898, Vasconcelos remete o leitor para um livro seu já publicado, as Religiões da Lusitânia. Aí defende que «arcas» terá sido um antigo nome comum destes monumentos em português, tal como anta e orca. Na Estremadura espanhola, nota, os dólmens ainda hoje se chamam mesmo arcas. Escreve-o com as reservas todas: «parece que», «é possível que», e a ressalva de que só a arqueologia poderá esclarecer. E liga a hipótese, pelo nome, a uma terra do concelho de Oliveira de Frades.
Chama-se Arca.
Ou seja: é provável que a aldeia tenha o nome da pedra, e que esse nome tenha sido, em tempos, a palavra portuguesa corrente para aquele objeto. Depois a palavra caiu em desuso em todo o lado e ficou agarrada ao sítio, como um nome próprio que já ninguém sabia traduzir.
No mesmo livro, Vasconcelos deixa escrita uma frase que inverte a ordem por que instintivamente arrumamos estas coisas: «O que pode acontecer é sobre o nome criar-se uma lenda.»

Primeiro o nome. Só depois a história feita para o explicar.
Quanto ao que os monumentos tinham sido, ninguém acertava. Martins Sarmento, citado por Vasconcelos, tinha posto o problema sem rodeios: sabe-se apenas que aquilo é obra de mouros, e sobre a sua serventia «phantasiam-se todas as explicações, menos a que se aproxima da verdadeira». Nem o povo. Nem, durante muito tempo, os sábios.
Os nomes das pedras como indício arqueológico
Mas nas mesmas páginas Vasconcelos deixa uma instrução prática à sua própria disciplina. Quando se encontrarem tais nomes pelo país, escreve, deve a atenção do arqueólogo ficar alerta, porque pode haver ou ter havido ali monumentos pré-históricos. Quem escreveu que aqueles nomes valiam como indício foi o fundador da arqueologia portuguesa, e escreveu-o para quem viesse a seguir.
Quem veio a seguir apareceu por outro caminho, e a história é dele.

12 de janeiro de 1917: como começou o levantamento de Lafões
12 de janeiro de 1917. Uma festa de anos em casa de um amigo. Momentos antes do jantar, na adega, com dois copos de bom vinho já bebidos, um rapaz aborda o professor primário de Ventosa, José Manuel da Silva, que conhecia bem a serra do Caramulo. Conta-o ele próprio, anos mais tarde, no prefácio do seu livro. Seis dias depois, a 18 de janeiro, uma abundante queda de neve não os impede de fazer a primeira viagem de reconhecimento.
O rapaz chamava-se Aristides de Amorim Girão, era de Fataunços, ali em Vouzela, e havia de ser geógrafo, não arqueólogo. O livro que saiu daí, publicado aos vinte e seis anos, foi o primeiro trabalho científico da sua vida. Assinalou vinte e oito ocorrências arqueológicas numa região onde a ciência via uma. Serviu de base à carta que Vera Leisner publicou em 1998.
Vários daqueles monumentos entraram no registo científico com o nome que já traziam de casa. A anta do Ventoso, ou Cova da Moura. A Pedra da Moura do Campo de Arca.
Visitar a Anta da Arca, em Oliveira de Frades
E começou a saber-se o que estas pedras guardam. Do dólmen da Malhada de Cambarinho, ali ao lado, saíram pontas de seta de sílex, lâminas retocadas e um cristal de quartzo, lá posto com uma intenção que hoje ninguém sabe ler. No mesmo concelho, em Antelas, as explorações de 1917 deram com pinturas nos esteios (as pedras ao alto que sustentam a cobertura), e o monumento havia de revelar-se um autêntico templo pré-histórico subterrâneo. Já aqui contámos como o país levou o seu tempo a acreditar no que estava desenhado nas pedras do Côa.
Reza a tradição que a laje chegou ali à cabeça de alguém, a fiar, com uma criança ao colo.
O que se carregou durante quatro mil e quinhentos anos foi a notícia de que aquilo estava ali e de que importava, passada de boca em boca por gente que nunca soube o que era. Vasconcelos, que estudou o assunto a vida inteira, disse que ia e não foi durante vinte e três anos. A ignorância, ali, era de todos.
Chegou até nós ao colo de quem nunca soube o que trazia.