Entra-se numa cabine, ao fundo da encosta do Bom Jesus, em Braga. Ouve-se uma torneira a abrir lá em cima. Sente-se o travão soltar-se nas duas cabines ao mesmo tempo. E a viagem começa, sem motor, sem eletricidade, exatamente como começava em 1882.

O Elevador do Bom Jesus foi o primeiro funicular construído na Península Ibérica. E é, ainda hoje, o mais antigo do mundo em serviço a funcionar com um sistema de contrapeso de água. São dois recordes diferentes, não um só: o primeiro a nascer, o único a continuar.

O Elevador do Bom Jesus, o primeiro funicular construído na Península Ibérica e, ainda hoje, o mais antigo do mundo em serviço com contrapeso de água. Pintura a partir de uma fotografia real do local (Adelino silva 1967, CC BY-SA 4.0), com a luz alterada; a estrutura é a da fotografia.
FIG. 02O Elevador do Bom Jesus, o primeiro funicular construído na Península Ibérica e, ainda hoje, o mais antigo do mundo em serviço com contrapeso de água. Pintura a partir de uma fotografia real do local (Adelino silva 1967, CC BY-SA 4.0), com a luz alterada; a estrutura é a da fotografia.

Antes dele havia bois.

Antes do elevador havia bois. Nos dias de maior movimento, a subida ao santuário era demasiado íngreme para os cavalos sozinhos dos «americanos» de Braga. Pintura: cena de época imaginada, figuras genéricas.
FIG. 03Antes do elevador havia bois. Nos dias de maior movimento, a subida ao santuário era demasiado íngreme para os cavalos sozinhos dos «americanos» de Braga. Pintura: cena de época imaginada, figuras genéricas.

Na década de 1870, o empresário bracarense Manuel Joaquim Gomes controlava os transportes públicos de Braga: uma linha de carros puxados a cavalo, os «americanos», que ligava a estação de comboios ao outro extremo da cidade e, dali, ao pórtico do Santuário do Bom Jesus do Monte. Nos dias de maior movimento, a subida era demasiado íngreme para os cavalos sozinhos, e era preciso reforçar a tração com bois, animal a puxar animal numa encosta que nenhum dos dois tinha sido feito para vencer sozinho. Gomes decidiu resolver o problema de vez.

O projeto foi desenhado na Suíça, pelo engenheiro Niklaus Riggenbach, que enviou por correio todas as indicações necessárias, sem nunca visitar a encosta que o receberia. Pintura: natureza-morta imaginada.
FIG. 04O projeto foi desenhado na Suíça, pelo engenheiro Niklaus Riggenbach, que enviou por correio todas as indicações necessárias, sem nunca visitar a encosta que o receberia. Pintura: natureza-morta imaginada.

Foi desenhado na Suíça, pelo engenheiro Niklaus Riggenbach, que enviou por correio todas as indicações para construir o sistema e instalar os equipamentos, sem nunca visitar a encosta que o receberia. As obras arrancaram em março de 1880.

Duas cabines, cada uma com um depósito para 5850 litros de água. A cabine de cima enche, fica mais pesada, e essa diferença de peso é que puxa o sistema, sem motor e sem eletricidade. Pintura: cena imaginada.
FIG. 05Duas cabines, cada uma com um depósito para 5850 litros de água. A cabine de cima enche, fica mais pesada, e essa diferença de peso é que puxa o sistema, sem motor e sem eletricidade. Pintura: cena imaginada.

Mas um desenho não sobe uma montanha sozinho. No terreno, foi o jovem engenheiro luso-francês Raul Mesnier de Ponsard quem recebeu os desenhos vindos da Suíça, os interpretou e testou, na própria encosta, as soluções possíveis, ajustando no chão o que só existia até então em papel: onde a inclinação real diferia do papel, era ele quem tinha de decidir o que fazer. Segundo os consultores da National Geographic Portugal, historiador da tecnologia incluído, o maior mérito coube a esse trabalho no terreno.

O elevador é operado pela Confraria do Bom Jesus do Monte, a instituição que gere o santuário desde 1629, há quase quatro séculos. Pintura: figura genérica de época.
FIG. 06O elevador é operado pela Confraria do Bom Jesus do Monte, a instituição que gere o santuário desde 1629, há quase quatro séculos. Pintura: figura genérica de época.

O elevador tem duas cabines independentes, ligadas por um cabo de aço sobre o plano inclinado. Cada uma transporta um depósito com capacidade para 5 850 litros de água. Quando a cabine de cima enche o depósito, fica mais pesada do que a de baixo, e essa diferença de peso é que puxa o sistema; a quantidade de água é calculada, em cada viagem, segundo o número e o peso dos passageiros. Lá em baixo, a água é despejada, e o ciclo repete-se.

Todos os dias, das oito às vinte horas, de meia em meia hora, alguém sente ainda hoje o mesmo movimento sem motor que se sentia em 1882. Pintura: figura genérica de época, não retrato de pessoa real.
FIG. 07Todos os dias, das oito às vinte horas, de meia em meia hora, alguém sente ainda hoje o mesmo movimento sem motor que se sentia em 1882. Pintura: figura genérica de época, não retrato de pessoa real.

Há ainda um pormenor que a mesma reportagem regista: a água vem das próprias nascentes do monte do Bom Jesus, por tubagem até um depósito subterrâneo, e não da rede pública, como acontece noutros funiculares. Isso também explica a escolha da água em vez do carvão: Portugal não produzia carvão suficiente, tinha de o importar, e ali, na encosta, a água era o que sobrava.

O elevador foi inaugurado a 25 de março de 1882.

Hoje funciona todos os dias, das oito da manhã às oito da noite, com partidas a cada meia hora. A viagem sobe mais de 270 metros de plano inclinado, vencendo um desnível de 116 metros, em dois a quatro minutos, à velocidade de um passo apressado. É operado pela Confraria do Bom Jesus do Monte, a mesma instituição que gere o santuário desde 1629, há quase quatro séculos.

Em 2013, o Estado classificou-o como Monumento de Interesse Público. Em 2019, o Santuário do Bom Jesus do Monte, e as instalações que o rodeiam, entre elas o elevador, entraram na Lista do Património Mundial da UNESCO, no mesmo dia em que o Palácio Nacional de Mafra foi também inscrito. Uma máquina pensada para resolver um problema de bois tornou-se, sem nunca ter sido redesenhada, parte de um bem classificado como património da humanidade.

Nada nele foi trocado por uma versão mais moderna. As mesmas duas cabines, a mesma água, o mesmo peso a decidir quem sobe e quem desce, de meia em meia hora, todos os dias.

Fontes6 referências
  • Portaria n.º 305/2013, de 23 de maio (Diário da República). Classifica o Elevador do Bom Jesus do Monte como Monumento de Interesse Público; fixa a formulação oficial do duplo superlativo e nomeia os papéis de Riggenbach e Mesnier.
  • Confraria do Bom Jesus do Monte, «Elevador ou Funicular», bomjesus.pt. Fonte institucional primária: a entidade que opera o elevador desde a origem.
  • National Geographic Portugal, «O elevador do Bom Jesus de Braga, único no mundo» (2021), com os consultores José Manuel Lopes Cordeiro (historiador da tecnologia) e a Confraria do Bom Jesus do Monte. A fonte mais detalhada sobre o mecanismo, a economia da escolha da água, e a biografia de Manuel Joaquim Gomes.
  • Wikipédia (PT), «Elevador do Bom Jesus», com ficha técnica citando a base de dados SIPA da Direção-Geral do Património Cultural.
  • UNESCO World Heritage Centre, «Sanctuary of Bom Jesus do Monte in Braga», whc.unesco.org. Ficha oficial da inscrição de 2019.
  • Comissão Nacional da UNESCO Portugal, notícia da 43.ª sessão do Comité do Património Mundial (7 de julho de 2019).