Antes de a Ponte da Arrábida existir, houve sobre o Douro, entre o Porto e Gaia, um outro arco. Era de aço, pesava cerca de duas mil toneladas e atravessava o rio de um só vão, sem um único apoio no leito.

Foi feito para segurar o arco de betão enquanto ele se construía, e para ser desmontado no fim. Pelo meio, conta o engenheiro Júlio Appleton, teve de ser arrastado de lado diante de público e jornalistas de todo o mundo, e havia quem antevisse um fracasso.

Evocação pintada de um engenheiro com o modelo reduzido de uma ponte em arco e um instrumento de registo em papel, nos anos 1950 (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Evocação pintada de um engenheiro com o modelo reduzido de uma ponte em arco e um instrumento de registo em papel, nos anos 1950 (figura genérica, não retrato).

O arco de betão que o aço segurou era, quando a ponte foi inaugurada, a 22 de junho de 1963, o arco de betão armado de maior vão do mundo: 270 metros. Foi-o durante pouco mais de um ano. Nesse 22 de junho, o Porto esteve em festa, com barcos engalanados no rio. Hoje passam lá por cima, a cerca de setenta metros da água, mais de cem mil veículos por dia.

Pintura do dia da inauguração da Ponte da Arrábida, em 1963, com barcos engalanados no Douro, a partir de uma fotografia real da ponte de Alepuzio (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 03Pintura do dia da inauguração da Ponte da Arrábida, em 1963, com barcos engalanados no Douro, a partir de uma fotografia real da ponte de Alepuzio (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

O problema era o rio. Um arco de betão faz-se sobre uma estrutura provisória, o cimbre, que o segura até o arco se aguentar sozinho. A solução clássica era um cimbre de madeira com apoios no leito. No estuário do Douro, muito profundo e com cheias frequentes e violentas, isso estava fora de questão, explica o engenheiro Manuel de Matos Fernandes. O cimbre da Arrábida foi então um arco de aço: três «costelas» lado a lado, com 258 metros de vão.

Evocação pintada da peça central do cimbre a ser levada pelo rio, em cima de uma barca e com rebocadores, para debaixo do vão, no verão de 1961 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 04Evocação pintada da peça central do cimbre a ser levada pelo rio, em cima de uma barca e com rebocadores, para debaixo do vão, no verão de 1961 (figuras genéricas, não retratos).

Quem o pensou foi Edgar Cardoso, nascido no Porto em 1913 e professor de Pontes no Instituto Superior Técnico. Nos anos 1950 reforçou também a ponte Luiz I, por onde passava ainda a estrada de Lisboa para o Porto. Em 1952 recebeu da Junta Autónoma de Estradas a encomenda da nova travessia, e o projeto ficou pronto em 1955. Seria a primeira grande ponte sobre o Douro concebida, projetada e construída por técnicos e empresas portuguesas.

Pintura de um montador de aço no cimbre, ao nascer do dia (figura genérica, não retrato).
FIG. 05Pintura de um montador de aço no cimbre, ao nascer do dia (figura genérica, não retrato).

Cardoso estudava as pontes em modelos reduzidos e fazia ele próprio os instrumentos de medida. Appleton, que foi seu aluno, escreve que à época não havia meios analíticos capazes de calcular aquela estrutura. Para a Arrábida, Cardoso obteve os esforços e as deformações num modelo reduzido da ponte, com um desses instrumentos, o autoinfluenciógrafo: uma carga percorria o tabuleiro do modelo e um rolo de papel, a par e passo com ela, registava a resposta da estrutura.

Evocação pintada de dois operários a encaixar a barra de uma junta do cimbre, ao nascer do dia, em 1961 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Evocação pintada de dois operários a encaixar a barra de uma junta do cimbre, ao nascer do dia, em 1961 (figuras genéricas, não retratos).

O cimbre construiu-o e montou-o a Sécheron Portuguesa, uma empresa do Porto que, segundo o seu engenheiro João Sobreira, tinha começado a trabalhar apenas um ano antes de receber a obra. As duas metades avançaram sobre o rio, cada uma a partir da sua margem, presas por cabos. O relatório que Sobreira publicou em 1962 conta o que custou mantê-las na mesma linha. O vento e sobretudo o sol, ao aquecer as largas faces do aço, tendiam a desalinhá-las. «Pode dizer-se que foi uma luta permanentemente travada contra aqueles elementos», escreveu, e acrescentou: «um dos quais, o sol, foi aliás um bom aliado».

Evocação pintada do cimbre a ser arrastado de lado, sob o primeiro arco de betão, diante de público e jornalistas (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Evocação pintada do cimbre a ser arrastado de lado, sob o primeiro arco de betão, diante de público e jornalistas (figuras genéricas, não retratos).

Segundo o relatório, fizeram-se na montagem para cima de 15 000 furos, e houve juntas com mais de trezentos parafusos. Os cálculos previam que, ao esticar os cabos, a ponta de uma das metades subisse 227 milímetros; segundo Sobreira, o valor real diferiu desse em apenas alguns milímetros.

Evocação pintada, segundo Júlio Appleton, de uma pequena equipa a ensaiar a manobra na véspera, à noite (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 08Evocação pintada, segundo Júlio Appleton, de uma pequena equipa a ensaiar a manobra na véspera, à noite (figuras genéricas, não retratos).

No verão de 1961 chegou a vez da peça do meio. Tinha quase oitenta metros e cerca de quinhentas toneladas, e foi montada em cima de uma barca da Administração dos Portos do Douro e Leixões, a Marieta. Três rebocadores levaram-na para debaixo do vão. Seis macacos hidráulicos içaram-na, por degraus de 95 centímetros, até ao lugar que a esperava lá em cima. Encaixou com uma folga de apenas uns poucos centímetros de cada lado.

Pintura da face inferior do arco da Ponte da Arrábida, a partir de uma fotografia real de Vysotsky (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 09Pintura da face inferior do arco da Ponte da Arrábida, a partir de uma fotografia real de Vysotsky (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

Depois foi preciso fechar o arco, e o sol voltou a entrar em cena. As barras da articulação, escreve Sobreira, foram instaladas «às primeiras horas da madrugada, a fim de que o aumento de temperatura iniciasse o primeiro alívio dos cabos». No início da tarde, os cabos começaram a ser aliviados, sem nada a registar. O cimbre fechou meses depois do previsto, e Sobreira terminou o relatório a falar de quem tinha estado em cima do aço: «o espírito de sacrifício, a valentia e a competência dos operários portugueses».

Era só metade do trabalho. A ponte assenta em dois arcos de betão paralelos e, por economia, o cimbre só tinha a largura de um. Depois de pronto o primeiro arco, o cimbre foi baixado e arrastado de lado, 15 metros, para debaixo do lugar do segundo. Foi essa a operação que atraiu o público e os jornalistas. Correu bem.

Na véspera, à noite, conta ainda Appleton, o professor e uma pequena equipa da obra tinham ensaiado a operação, para terem a certeza de que tudo correria na perfeição. Depois voltaram a pôr o cimbre debaixo do primeiro arco, para o espetáculo do dia seguinte. O que o público veio ver já tinha sido ensaiado uma vez.

Fontes16 referências
  • João Cunha de Araújo Sobreira, «A montagem do cimbre da Ponte da Arrábida», Boletim da Ordem dos Engenheiros, julho-agosto de 1962 (cópia no Técnico: 110.tecnico.ulisboa.pt); separata da Sécheron Portuguesa, julho de 1963: arquivo.pt
  • Júlio Appleton, «Engenheiros Eminentes: Edgar Cardoso (1913-2000)», Ordem dos Engenheiros, tradução do artigo da Structural Engineering International (2020): ordemdosengenheiros.pt · doi.org
  • Manuel de Matos Fernandes, «Ponte da Arrábida foi inaugurada há 50 anos», O Tripeiro, setembro de 2013, republicado pela Associação Comercial do Porto: cciporto.com
  • Decreto n.º 13/2013, Diário da República, 1.ª série, n.º 119, 24 de junho de 2013: files.diariodarepublica.pt
  • Património Cultural, Ponte da Arrábida: imovel.patrimoniocultural.gov.pt
  • Notícias U.Porto, «Ponte da Arrábida classificada como Monumento Nacional» (2013): noticias.up.pt
  • Câmara Municipal do Porto, «Histórias da cidade: Ponte da Arrábida, engenho e arte de Edgar Cardoso no rio Douro» (2023): porto.pt
  • Isabelle Ietka et al., «Structural Monitoring of a Large-Span Arch Bridge Using Customized Sensors», Sensors 23 (2023): doi.org
  • Manuel de Azeredo, «As Pontes do Porto», FEUP: up.pt
  • Técnico Lisboa, «110 Histórias, 110 Objetos: The Arrábida Bridge Model» (2022): tecnico.ulisboa.pt
  • CP, Boletim n.º 324 (1956): cp.pt
  • Diário das Sessões da Assembleia Nacional, n.º 150, 10 de março de 1960: debates.parlamento.pt
  • O Leme, «Conclusão do arco da Ponte da Arrábida» (cita o Diário Popular de 20 de julho de 1961): leme.pt
  • «O cinquentenário da Ponte da Arrábida e o centenário de Edgar Cardoso», jornal de gaveta, 22 de junho de 2013: arquivo.pt
  • Ponte de Gladesville: Transport for NSW, transport.nsw.gov.au · ASCE, asce.org
  • Jornal de Notícias, «Obras de requalificação da Ponte da Arrábida só avançam no fim do ano» (2026): jn.pt