Num fiorde da Gronelândia, um navio português mandou parar todos os motores, para que as mãos dos cirurgiões não tremessem. A operação durou cerca de seis horas, à luz de baterias. O doente era um pescador com uma fratura de crânio. Sobreviveu. Quem o conta é o homem que deu a ordem: Mário Esteves, comandante daquele navio durante doze anos consecutivos.

O navio chamava-se Gil Eannes. Encomendado pelo Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e posto a flutuar em março de 1955, para acompanhar a frota bacalhoeira portuguesa até aos mares da Terra Nova e da Gronelândia: um hospital flutuante para homens que nenhum hospital de terra conseguia alcançar. O que lhe aconteceu depois, quase ninguém conta.

O navio-mãe da Frota Branca

A frota a que dava assistência era uma pequena cidade a meio do Atlântico Norte. Segundo o comandante, juntava cerca de setenta navios e seis mil e quinhentos a sete mil homens, que passavam perto de meio ano no mar. Para todos eles, o Gil Eannes era o fio que os prendia ao país: navio-capitania, navio-correio que recebia e distribuía, nas contas do mesmo testemunho, setenta a oitenta mil cartas por campanha, rebocador dos navios avariados, quebra-gelos, abastecedor de isco, redes, mantimentos e combustível.

A frota bacalhoeira nos mares da Terra Nova e da Gronelândia: cerca de setenta navios e milhares de homens, segundo o comandante, com o Gil Eannes ao largo. Os canadianos chamavam-lhe «The Mother Ship of the White Fleet». Cena ilustrativa de época. Pintura.
FIG. 02A frota bacalhoeira nos mares da Terra Nova e da Gronelândia: cerca de setenta navios e milhares de homens, segundo o comandante, com o Gil Eannes ao largo. Os canadianos chamavam-lhe «The Mother Ship of the White Fleet». Cena ilustrativa de época. Pintura.

Era o segundo navio com aquele nome: o primeiro, um cargueiro alemão apresado na Primeira Guerra Mundial, assistia a frota desde 1927, e o novo, recorda ainda Esteves, herdou dele o nome, o próprio comandante e o sino de proa. Os canadianos deram-lhe o título de The Mother Ship of the White Fleet: o navio-mãe da Frota Branca.

Um hospital gratuito no meio do Atlântico

Mas a palavra que importava era hospital. Em cada época de pesca, pelas contas do comandante, faziam-se a bordo cerca de quatro mil consultas e sessenta a setenta grandes cirurgias, e ficavam internados cerca de quatrocentos doentes. E tudo isto, sublinhava, era gratuito, para toda a gente: espanhóis, franceses, italianos, alemães, russos, ingleses, homens das ilhas Faroé. Qualquer pescador daqueles mares podia bater à porta do hospital português.

O correio da frota: segundo o comandante, setenta a oitenta mil cartas recebidas e distribuídas por campanha entre os pescadores e as famílias. Cena ilustrativa de época; nenhuma pessoa real retratada. Pintura.
FIG. 03O correio da frota: segundo o comandante, setenta a oitenta mil cartas recebidas e distribuídas por campanha entre os pescadores e as famílias. Cena ilustrativa de época; nenhuma pessoa real retratada. Pintura.

A regra que protegia o pescador doente

Havia ainda outra regra, que o comandante fazia questão de explicar. Num navio de pesca à linha, cada homem ganhava conforme o bacalhau que apanhasse; um pescador acamado durante semanas voltaria a casa sem nada. Por isso, um doente internado no Gil Eannes recebia, durante todo o tempo da doença, a média do que os companheiros do seu navio iam pescando, para que não chegasse a Portugal mais pobre do que quando partira. A doença, ali, não tirava o pão a ninguém.

O comandante Esteves resumia tudo num número: em doze anos, nunca um doente morreu a bordo. E quando a morte chegava a outro navio da frota, era o Gil Eannes que ia ao seu encontro. Recolhia o corpo, fazia-lhe o caixão a bordo, prestava-lhe as cerimónias, e sepultava-o no talhão dos portugueses, em St. John's, na Terra Nova, ou em Holsteinsborg, na Gronelândia. Sempre que voltava àqueles portos, a tripulação ia cuidar das sepulturas.

O Gil Eannes hoje, na doca comercial de Viana do Castelo: navio-museu desde agosto de 1998. A pousada da juventude que funcionou a bordo encerrou no início de 2013; hoje o navio apenas se visita. Pintura a partir de fotografia real de Nsandre (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0), estrutura preservada.
FIG. 04O Gil Eannes hoje, na doca comercial de Viana do Castelo: navio-museu desde agosto de 1998. A pousada da juventude que funcionou a bordo encerrou no início de 2013; hoje o navio apenas se visita. Pintura a partir de fotografia real de Nsandre (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0), estrutura preservada.

Do fim da frota ao abandono em Lisboa

Esse mundo foi-se desfazendo devagar. A partir de 1963, para se sustentar, o navio passou a fazer viagens de comércio entre as campanhas, como navio frigorífico e de passageiros. Em 1973 fez a última viagem de assistência à frota, e nesse mesmo ano serviu de embaixada flutuante no Brasil, nas receções do então embaixador José Hermano Saraiva. Ainda voltou ao mar em 1975, com bacalhau seco da Noruega, e foi requisitado pelo Governo português como navio-hospital na fase final da independência de Angola. Em 1984 acabou-se o trabalho. O Gil Eannes ficou em Lisboa, a andar de cais em cais, cada vez mais degradado, pilhado do próprio equipamento, até ser vendido a um sucateiro para abate.

A campanha de 1997 que salvou o Gil Eannes

Foi então que a maré virou. Em 1997, José Hermano Saraiva, o mesmo homem das receções a bordo, fez um apelo num dos seus programas de televisão sobre história: aquele navio não podia acabar em sucata. Viana do Castelo respondeu. A Câmara Municipal mobilizou a cidade, constituiu-se a Comissão Pró-Gil Eannes, e juntou-se, com contributos de vianenses de todas as condições, o equivalente a cerca de 250 mil euros. Uma cidade comprou o seu próprio navio ao sucateiro.

Depois de 1984, o navio andou de cais em cais no porto de Lisboa, degradado e pilhado, até ser vendido a um sucateiro para abate. Evocação ilustrativa. Pintura.
FIG. 05Depois de 1984, o navio andou de cais em cais no porto de Lisboa, degradado e pilhado, até ser vendido a um sucateiro para abate. Evocação ilustrativa. Pintura.

A 31 de janeiro de 1998, o Gil Eannes chegou a Viana do Castelo a reboque, e a cidade recebeu-o em festa na foz do Lima.

Visitar o navio Gil Eannes em Viana do Castelo

Entrou logo para obras profundas nos mesmos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que o tinham posto a flutuar em 1955, e em agosto de 1998 abriu ao público como navio-museu. E durante anos houve a bordo um pormenor que fechava o círculo: uma pousada da juventude com sessenta camas, instalada nas antigas enfermarias e camarotes. Onde os pescadores se deitaram para sarar, dormiram os viajantes, até a pousada encerrar no início de 2013. Hoje o navio está na doca comercial e é só museu: visitam-se a ponte de comando, o consultório médico, a sala de tratamentos, o gabinete de radiologia.

A 31 de janeiro de 1998, rebocado de Lisboa, o Gil Eannes chegou à foz do Lima, e Viana do Castelo recebeu-o em festa. Evocação ilustrativa; nenhuma pessoa real retratada. Pintura.
FIG. 06A 31 de janeiro de 1998, rebocado de Lisboa, o Gil Eannes chegou à foz do Lima, e Viana do Castelo recebeu-o em festa. Evocação ilustrativa; nenhuma pessoa real retratada. Pintura.

O comandante Esteves deixou escrito o que mais o orgulhava: em doze anos, nunca perdeu um doente. Décadas mais tarde, quando foi o navio que ficou entre a vida e a morte, uma cidade inteira fez por ele o que ele fizera pelos pescadores: foi buscá-lo, trouxe-o para casa e tratou-o no estaleiro onde tinha nascido. Viana não deixou que o navio fosse a exceção.