A ponte que ligava o Porto a Gaia eram vinte barcas amarradas umas às outras, com um estrado de pranchas por cima.

Na manhã de 29 de março de 1809 passou por ela uma multidão de uma vez só, toda no mesmo sentido, a correr.

A ponte cedeu.

Durante séculos, o Porto não teve ponte nenhuma. Atravessava-se o rio em barcos e em jangadas, e a partir de 1744 houve uma carreira regular entre as duas margens. Numa descrição da cidade impressa em 1787, o padre Agostinho Rebelo da Costa explicava porquê: o Douro, escrevia, «a sua grossa corrente, não lhe permite ponte».

FIG. 02

Houve, ainda assim, quem tentasse desenhar uma.

Carlos Luís Ferreira da Cruz Amarante nasceu em Braga em 1748 e era, em 1802, primeiro-tenente do Real Corpo de Engenheiros. Nesse ano desenhou para o Porto uma ponte de pedra, de um só arco, sobre o Douro.

A folha ainda existe. Sobre a linha de água, Amarante marcou a preia-mar, marcou a baixa-mar e, acima das duas, traçou um terceiro nível que anotou à mão: «Cheya mayor em 1796». A maior cheia de que a cidade tinha memória, posta no desenho como quem estabelece até onde é preciso contar com o rio.

FIG. 03

E metade da folha nem sequer é a ponte acabada: é um homem a explicar, por desenho, como é que aquilo se fazia. O cimbre de madeira sobre o qual o arco se fecharia, os tirantes de ferro, uma escala medida em palmos e em braças.

Nunca se construiu.

O que se construiu foi outra coisa, quatro anos depois. A 15 de agosto de 1806 inaugurou-se a Ponte das Barcas, também projetada por Amarante, e foi a primeira travessia fixa que ligou as duas margens do Douro no Porto.

FIG. 04

Eram vinte barcaças alinhadas de uma margem à outra, presas entre si por cabos. Por cima passava tudo, nos dois sentidos: gente a pé, cavalos, carros de carga. Ao meio, o estrado abria-se em duas metades, para dar passagem aos barcos que subiam e desciam o rio.

E quando o Douro crescia, desmontava-se. Era uma travessia permanente que se tirava do rio no inverno e se voltava a montar quando a água baixava. Era o que a cidade tinha, e resolveu um problema que se arrastava havia séculos.

Em março de 1809, o marechal Nicolas Jean de Dieu Soult entrou em Portugal pelo vale do Tâmega. Tomou Chaves a 12, Braga a 20, e a 27 avistou as defesas do Porto.

FIG. 05

Enviou ao bispo do Porto propostas para a rendição da cidade. Foram rejeitadas.

As defesas tinham sido levantadas pela própria população, sob a direção de oficiais de engenharia portugueses e britânicos: uma linha que ia do Forte de São João Baptista da Foz até à capela do Bonfim, com doze redutos artilhados e paliçadas a fechar os intervalos. A linha foi dividida em três setores. O do centro ficou a cargo do brigadeiro Caetano José Vaz Parreiras, o do poente a cargo do brigadeiro António José de Lima Barreto, o do nascente a cargo do general António Marcelino da Vitória.

O ataque começou às sete da manhã de 29 de março, e começou pelos flancos. Parreiras mandou forças do centro para os dois lados, a tentar segurar as pontas. Foi então que os franceses atacaram o centro, agora mais fraco. Rompeu-se, e a divisão de infantaria de Mermet entrou na cidade e seguiu direita ao rio.

FIG. 06

Nos flancos, os portugueses começaram a retirar. A poente, a ordem de retirada custou a vida ao brigadeiro Lima Barreto. A nascente, o general Vitória saiu pela estrada de Valongo, ainda a combater quem o perseguia.

A linha rompida ficava nas colinas, a norte. A Ribeira fica em baixo, à beira de água. A população correu para lá, e ali havia uma única saída: as vinte barcas amarradas umas às outras, e o estrado de pranchas por cima.

Foi ali que a ponte cedeu, e afogaram-se no Douro muitos dos que tentavam atravessar.

FIG. 07

Não se sabe quantos morreram. Os autores que escreveram sobre o desastre, coevos e posteriores, nunca assentaram na mesma conta.

A ponte foi reconstruída, e o Porto continuou a atravessar o rio sobre barcas até 1843, quando se inaugurou a Ponte Pênsil, a primeira ponte fixa de todo o Douro português.

O desenho de 1802 nunca chegou a ser uma ponte, mas continua inteiro, na Biblioteca Nacional de Portugal.

FIG. 08

E em 1897 o escultor José Joaquim Teixeira Lopes, pai, fundiu um baixo-relevo em bronze com aquela cena e embutiu-o na parede de um arco do Cais da Ribeira. Chamam-lhe as Alminhas da Ponte. Ainda hoje se deixam ali velas acesas e flores.

Em 2009 inaugurou-se um monumento ao desastre, do arquiteto Eduardo Souto de Moura. São duas peças em aço corten, gémeas e simétricas, e a geometria de ambas vem da dobragem de um único painel retangular de oito metros.

Uma está no Cais da Ribeira. A outra está na Avenida de Diogo Leite, em Gaia. Assentam nos antigos muros de contenção, precisamente onde estavam as amarrações dos cabos da ponte.

Cada uma avança cerca de três metros sobre a água.

Não se tocam.

Fontes9 referências
  • Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional Digital. AMARANTE, Carlos Luís Ferreira da Cruz, Projecto d'Huma Ponte Para a Cidade do Porto, Sobre o Rio Douro, De Hum só Arco..., 1802. Um desenho, tinta da china e aguadas, 1,27 m × 67,5 cm. Cota D-42-R. purl.pt
  • Museu Nacional Soares dos Reis. Ficha de coleção do Desastre da Ponte das Barcas, autor desconhecido, gravura a traço; e Arquivo de Gravura, com a ficha da gravura de Robert Batty (Londres, 1830).
  • Arquivo Municipal do Porto (GISA). «Alminhas da Ponte : Ribeira : Porto».
  • AZEREDO, Manuel de, As Pontes do Porto, FEUP / Universidade do Porto, 1998.
  • Universidade do Porto, SIGARRA. Nota biográfica de José Joaquim Teixeira Lopes.
  • eViterbo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Carlos Ferreira Amarante.
  • Wikipédia, artigos «Ponte das Barcas», «Alminhas da Ponte», «Batalha do Porto (1809)» e «Carlos Amarante».
  • Jornal de Notícias, «Carlos Amarante pai da ponte». O Minho, «Engenheiro Carlos Amarante e a ponte que nunca se fez».
  • Fotografia das Alminhas da Ponte: Joseolgon, Wikimedia Commons, CC BY 4.0.