No dia em que a ponte D. Luís abriu ao público, as pessoas começaram a fugir dela a correr.
Era 31 de outubro de 1886. Abriram o tabuleiro de cima e uma enorme multidão atravessou a ponte, escreveu no dia seguinte o Comércio do Porto, «desordenadamente, enchendo-a completamente». No meio da confusão o tabuleiro oscilou ligeiramente, e alguém julgou que a ponte estava a ceder e disse-o em voz alta. «O povo começou a fugir desorientado.»
Não houve o mais leve desastre. O sossego voltou depressa e, durante o resto da tarde e parte da noite, milhares de pessoas continuaram a atravessá-la, com o Douro muito lá em baixo. O jornal contou aquele pânico exatamente pelo que era: «uma das provas decisivas da sua solidez».
A ponte aguentou. Aguenta há cento e quarenta anos.

E não foi desenhada por Gustave Eiffel.
Foi desenhada por Théophile Seyrig, que ganhou o concurso a Eiffel e que tinha sido sócio dele.
A troca de nomes não é obra de ninguém em particular. O historiador José Manuel Lopes Cordeiro, da Universidade do Minho, aponta as causas: Eiffel era o diretor do projeto e o responsável máximo da empresa, passou a atribuir-se-lhe tudo o que saía da casa, tivesse ele ou não o concebido, e a fama que lhe deram Garabit e a Torre do Campo de Marte relegou para segundo plano qualquer dos seus colaboradores. Em Portugal, escreve Cordeiro, há a tentação de lhe imputar tudo o que é estrutura metálica: viadutos de caminho de ferro, o elevador de Santa Justa e esta ponte.

Sobre o Douro, a cerca de um quilómetro uma da outra, há duas grandes pontes de ferro. Parecem-se muito. A outra é a Maria Pia, ferroviária, a que quase toda a gente atribui a Eiffel, e é por ela que esta história tem de começar.
O Douro não deixava pôr pilares dentro de água. Corrente forte, até vinte metros de fundo nas cheias, e um leito de cascalho onde não assentavam fundações. Levar a linha do Norte para a outra margem obrigava, por isso, a uma coisa quase impensável em 1876: um único arco de 160 metros, sem nada por baixo. O maior arco do mundo, nessa altura, tinha 158 metros e meio e estava sobre o Mississípi.
Concorreram quatro empresas. A proposta da Eiffel & Cie. era a mais barata das quatro, cerca de dois terços do preço da concorrente mais próxima, e foi a escolhida. A Ponte Maria Pia abriu a 4 de novembro de 1877, inaugurada pelo rei D. Luís I e pela rainha que lhe deu o nome. Era então o maior arco de ferro do mundo.

Dentro da Eiffel & Cie. havia um sócio.
Chamava-se Théophile Seyrig. Era dez anos mais novo do que Eiffel, tinha saído primeiro da turma na École Centrale de Paris, a mesma escola por onde Eiffel passara, e entrou na empresa também com dinheiro seu. O contrato que os ligava reservava a gerência exclusiva para Eiffel; a Seyrig cabia estatuto de empregado. Não era uma maldade: era um contrato, e era assim que funcionavam as casas de engenharia do século dezanove. O trabalho saía em nome da casa, e a casa tinha o nome de um homem.
Em 1878 abriu em Paris a Exposição Universal, no Campo de Marte, o terreno onde a Torre viria a erguer-se. No pavilhão da Eiffel & Cie. estava a maqueta da Maria Pia, acabada de inaugurar.

E no folheto que a própria Casa Eiffel editou para acompanhar aquela maqueta, os cálculos e os desenhos da Maria Pia vinham atribuídos a Théophile Seyrig.
O grande arco da Maria Pia, a ponte que quase toda a gente atribui a Eiffel, foi concebido por Seyrig. E o nome dele estava impresso, desde o princípio, pela empresa que assinava a obra.
Cordeiro trava aqui, e com razão: a Maria Pia foi uma obra coletiva, com muita gente dentro, e Eiffel dirigiu-a. Mas o elemento que a tornou inovadora, o grande arco, é de Seyrig.

Pouco depois, a Casa Eiffel foi chamada a aplicar o mesmo conceito de arco no viaduto de Garabit. Seyrig reclamou a sua parte nos lucros. Eiffel recusou e rompeu o contrato entre os dois. Seyrig moveu-lhe um processo, que se arrastou, e nunca recebeu compensação nenhuma. Ao virar da década saiu da empresa e foi trabalhar para uma casa belga, onde, escreve o historiador Bertrand Lemoine, ganhou renome com a ponte que viria a construir no Porto.
Para os cálculos de Garabit, a Eiffel & Cie. contratou um engenheiro de vinte e três anos acabado de sair do Politécnico de Zurique: Maurice Koechlin, que faria os cálculos e co-assinaria o projeto da Torre Eiffel, cuja ideia, escreve Lemoine no sítio oficial da Torre, coube a Émile Nouguier. É o mesmo Lemoine que remata que saber escolher colaboradores era uma das grandes qualidades de Eiffel, e que isso confirma a dimensão coletiva da obra dele.
Entretanto, no Porto, a velha ponte pênsil já não chegava: o comércio progredia, as fábricas espalhavam-se pelo bairro oriental, e o trânsito entre as duas margens crescia a olhos vistos.

Em 1880 abriu concurso internacional para a substituir, com o caderno de encargos redigido em francês e duas condições duras: nenhum apoio dentro do rio, e dois tabuleiros, um à cota da ribeira e outro lá no alto. A exigência dos dois tabuleiros era portuguesa: vinha de um anteprojeto do Ministério das Obras Públicas, e estava escrita no programa do concurso antes de qualquer concorrente responder.
Responderam dez empresas, todas estrangeiras, com doze projetos.
Ganhou uma das propostas mais caras, por ser tecnicamente superior a todas as outras. Era a da Société de Willebroeck, belga, e o projeto estava assinado por Théophile Seyrig.

O arco tinha 172 metros. Doze a mais do que o da Maria Pia.
Quando fechou, era o maior arco de ferro do mundo. E o anterior tinha sido o dele. Em 1884, Seyrig publicou em Paris um livro só sobre a montagem daquele arco.
Nem o rei nem Seyrig estiveram naquela inauguração de 1886. Quem regista a ausência de Seyrig é o historiador Manuel de Sousa; os motivos da ausência do rei não se conhecem.
Nas placas de mármore da ponte está gravado o nome oficial: PONTE LUIZ I, sem título nenhum. Foi sempre esse o nome, nos jornais do tempo da construção, tal como a própria Maria Pia nunca foi Dona Maria Pia. Conta-se no Porto que a cidade, ofendida com a falta do rei, lhe teria tirado o «Dom». O «Dom» que se ouve hoje por toda a parte é um acrescento da cidade a um rei de quem gostava.
Do homem que desenhou as duas, as fontes não dizem sequer o mesmo. A Wikipédia portuguesa chama-lhe engenheiro belga; a ficha da Direção-Geral do Património Cultural, engenheiro francês; a base internacional Structurae regista apenas que nasceu em Berlim. E a Infraestruturas de Portugal, que é a dona da obra, não lhe atribui nacionalidade nenhuma: descreve-o como antigo sócio de Gustave Eiffel ao serviço de uma empresa belga.
As duas pontes continuam lá, a cerca de um quilómetro uma da outra, sobre o mesmo rio e entre as mesmas duas cidades.
Por cima de uma passa o metro de poucos em poucos minutos, no tabuleiro de onde a multidão fugiu naquele dia de outubro. A outra não leva nada desde 1991, quando lhe passou o último comboio. Em 1982, um mesmo decreto mandou proteger as duas.
Parecem-se porque foram desenhadas pela mesma mão.
Fontes13 referências
- CORDEIRO, José Manuel Lopes (2009), «Ponte Maria Pia: uma ponte de Eiffel e de Seyrig», Universidade do Minho. [ocomboio.net](ocomboio.net)
- CRUZ, Paulo J. S. & CORDEIRO, José Manuel Lopes (2003), «Audacious and Elegant 19th Century Porto Bridges», Practice Periodical on Structural Design and Construction (ASCE), v. 8, n.º 4. Corpo do artigo atrás do paywall da ASCE; lido o resumo no espelho dos autores. [academia.edu](academia.edu)
- LEMOINE, Bertrand (2019), «Gustave Eiffel and his collaborators», sítio oficial da Torre Eiffel. [toureiffel.paris](toureiffel.paris)
- Infraestruturas de Portugal, S.A., ficha «Ponte Luiz I». [infraestruturasdeportugal.pt](servicos.infraestruturasdeportugal.pt)
- Direção-Geral do Património Cultural, ficha do imóvel «Ponte de D. Luís» (code 74503), classificação IIP pelo Decreto n.º 28/82. [patrimoniocultural.gov.pt](imovel.patrimoniocultural.gov.pt)
- AZEREDO, Manuel de (1999), «The Bridges of Porto: Technical Data», Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. [up.pt](up.pt)
- American Society of Civil Engineers, Historic Civil Engineering Landmark, «Ponte Maria Pia Bridge». [asce.org](asce.org)
- Structurae, «Théophile Seyrig (1843-1923)». [structurae.net](structurae.net)
- SOUSA, Manuel de (2021), «Ponte Luís I: história de uma obra única», Porto d'Honra, que cita verbatim O Comércio do Porto de 1 de novembro de 1886, e cuja bibliografia inclui VASCONCELOS, A. (2014), A ponte Luiz I, Edições Afrontamento, e CLETO, J. (2012), Lendas do Porto, vol. 2. [portodhonra.com](portodhonra.com)
- Arquivo Municipal do Porto (GISA), documentos com referência à Ponte Luís I, incluindo o processo «Obras de abertura da Avenida da Ponte» (1947-1949). [gisaweb.cm-porto.pt](gisaweb.cm-porto.pt)
- Câmara Municipal do Porto, «Plano de Renovação da Zona Central da Cidade, 1915». [cm-porto.pt](cm-porto.pt)
- Wikipédia, «Ponte de D. Luís (Porto)», «Dom Luís I Bridge», «Maria Pia Bridge», «Théophile Seyrig» (versões portuguesa, inglesa e francesa).
- Fotografias de época: Emílio Biel (1883) e George Danson Tait (1886-87), domínio público, Wikimedia Commons.