No dia em que a ponte D. Luís abriu ao público, as pessoas começaram a fugir dela a correr.

Era 31 de outubro de 1886. Aberto o tabuleiro de cima, uma enorme multidão atravessou-o em correria, o tabuleiro oscilou ligeiramente, e alguém julgou que a ponte estava a ceder e disse-o em voz alta. O povo, escreveu o Comércio do Porto no dia seguinte, começou a fugir desorientado.

Não houve o mais leve desastre, e o jornal contou aquele pânico exatamente pelo que ele era: uma das provas decisivas da solidez da ponte.

A ponte aguentou. Aguenta há cento e quarenta anos.

E não foi desenhada por Gustave Eiffel.

Quem assinou o projeto

Foi desenhada por Théophile Seyrig, que ganhou o concurso a Eiffel e que tinha sido sócio dele.

A troca de nomes não é obra de ninguém em particular, e o historiador José Manuel Lopes Cordeiro, da Universidade do Minho, aponta as causas: Eiffel era o diretor do projeto e o responsável máximo da empresa em cujo nome a obra era apresentada; a publicidade fez o resto, e passou a atribuir-se a Gustave Eiffel todas as obras saídas da Casa Eiffel, tivesse ele ou não as concebido; e a fama internacional que lhe deram o viaduto de Garabit e a Torre do Campo de Marte acabou por relegar para plano secundário qualquer dos seus colaboradores. Em Portugal, escreve Cordeiro, há a tentação de lhe imputar a autoria de tudo o que é estrutura metálica: vários viadutos metálicos do caminho de ferro, o elevador de Santa Justa e a Garagem Auto-Palace, ambos em Lisboa, e esta ponte.

Sobre o Douro, entre o Porto e Vila Nova de Gaia, estão duas grandes pontes de ferro a cerca de um quilómetro uma da outra. Parecem-se muito: o mesmo arco de treliça a saltar de margem a margem, o mesmo desenho de rendilhado escuro contra o céu. A mais antiga é a Maria Pia, ferroviária, e é essa que quase toda a gente atribui a Eiffel. A outra é a de dois tabuleiros, a que liga a Ribeira ao alto da cidade, com trezentos e noventa e cinco metros de comprimento, oito de largura e três mil e quarenta e cinco toneladas de ferro.

A troca dos nomes é a parte fácil. O que custa a explicar é como se perde um nome com a obra inteira à vista, todos os dias, com o metro a passar por cima.

O nome nunca esteve escondido: foi impresso, em 1878, num folheto que a própria empresa de Gustave Eiffel editou.

O rio que não deixava pôr pilares

Começa no rio, e começa por uma impossibilidade.

Fotografia de Emílio Biel, 1883. As duas metades do arco da ponte Luiz I, penduradas dos cabos das duas torres de montagem erguidas sobre os pilares, ainda sem se tocarem ao centro. Por baixo, a velha ponte pênsil continua a trabalhar, e há barcos no rio.
FIG. 02Fotografia de Emílio Biel, 1883. As duas metades do arco da ponte Luiz I, penduradas dos cabos das duas torres de montagem erguidas sobre os pilares, ainda sem se tocarem ao centro. Por baixo, a velha ponte pênsil continua a trabalhar, e há barcos no rio.

O Douro, naquele troço, não deixava pôr pilares dentro de água. A corrente é forte, a profundidade pode chegar aos vinte metros nas cheias, e o leito é uma camada funda de cascalho onde não assentavam fundações. Levar a linha do Norte para a outra margem obrigava, por isso, a uma coisa que na época era quase impensável: um único arco de cento e sessenta metros, sem nada por baixo dele.

Para se perceber o que isso significava, basta olhar para o que existia. O maior vão de uma ponte em arco no mundo era então o da ponte que James B. Eads tinha lançado sobre o Mississípi, em St. Louis: cento e cinquenta e oito metros e meio. O Douro exigia mais um metro e meio do que o maior arco que até então se construíra.

Concorreram quatro empresas. A proposta da Eiffel & Cie. custava novecentos e sessenta e cinco mil francos, era a mais barata das quatro, cerca de dois terços do preço da concorrente mais próxima, e foi a escolhida. A comissão que avaliou a empresa, então ainda pouco experiente, deu parecer favorável, mas não escondeu a dificuldade: o estudo completo de uma estrutura daquele tamanho apresentava, escreveu, grandes dificuldades, e os métodos de cálculo conhecidos até então só se podiam aplicar na prática com o auxílio de hipóteses que se afastavam mais ou menos do que estava estabelecido, tornando incertos os resultados previstos.

A obra começou a 5 de janeiro de 1876. A Ponte Maria Pia abriu a 4 de novembro de 1877, inaugurada pelo rei D. Luís I e pela rainha Maria Pia de Saboia, que lhe deu o nome. Quando abriu, era o maior arco de ferro do mundo. A Sociedade Americana de Engenheiros Civis ainda hoje a inscreve na sua lista de marcos históricos da engenharia civil com essa exata formulação.

O sócio com estatuto de empregado

Dentro da Eiffel & Cie. havia um sócio, e é dele que esta história trata.

Chamava-se Théophile Seyrig. Era dez anos mais novo do que Gustave Eiffel e tinha saído primeiro da sua turma na École Centrale de Paris, a mesma escola por onde Eiffel passara. Além do engenho, entrou com capital seu. A associação foi formalizada por contrato, renovado cinco anos mais tarde.

Os termos desse contrato explicam praticamente tudo o que se segue. Eiffel entrava com os ativos do negócio e com os lucros previstos, e reservava para si a gerência exclusiva da empresa, com poderes de assinatura delegados em Hector Lelièvre. A Théophile Seyrig cabia apenas estatuto de empregado.

Não era uma maldade. Era um contrato, e era assim que funcionavam as casas de engenharia do século dezanove: o trabalho saía em nome da casa, e a casa tinha o nome de um homem. Quem o escreve é Bertrand Lemoine, arquiteto, engenheiro e historiador, antigo diretor de investigação do Centro Nacional de Investigação Científica francês, num texto publicado no sítio oficial da Torre Eiffel. E é o mesmo texto que acrescenta: apesar disso, o contributo de Seyrig foi decisivo, e foi graças a ele que a empresa ganhou o concurso da Maria Pia, com a ideia extremamente inovadora que ele propôs em 1875, a de um arco biarticulado.

O nome estava no papel desde 1878

A 1 de maio de 1878 abriu em Paris a Exposição Universal, no Campo de Marte, o mesmo terreno onde a Torre viria a erguer-se.

Théophile Seyrig, o engenheiro que desenhou a ponte Luiz I e concebeu o grande arco da ponte Maria Pia. As fontes não dizem sequer o mesmo sobre a sua origem: a Infraestruturas de Portugal, dona da obra, descreve-o apenas como antigo sócio de Gustave Eiffel ao serviço de uma empresa belga. Pintura a partir da sua fotografia real, c. 1890 (domínio público).
FIG. 03Théophile Seyrig, o engenheiro que desenhou a ponte Luiz I e concebeu o grande arco da ponte Maria Pia. As fontes não dizem sequer o mesmo sobre a sua origem: a Infraestruturas de Portugal, dona da obra, descreve-o apenas como antigo sócio de Gustave Eiffel ao serviço de uma empresa belga. Pintura a partir da sua fotografia real, c. 1890 (domínio público).

No pavilhão da Eiffel & Cie. estava a maqueta da Maria Pia, acabada de inaugurar, a uma escala de um para cinquenta. Ao lado dela estava um desenho com um título comprido em francês: uma ponte rodoviária projetada para o porto do Porto, com tabuleiro formando ponte levadiça para a passagem dos navios. De um só tabuleiro, baixo, com um troço que se abria ao meio para deixar passar os barcos de maior calado. Nunca saiu do papel. O Arquivo Municipal do Porto guarda a reprodução desse anteprojeto, editado em opúsculo em Clichy.

E no folheto que a própria Casa Eiffel editou para acompanhar aquela maqueta, os cálculos e os desenhos da Maria Pia vinham atribuídos a Théophile Seyrig e a Henry de Dion.

O nome estava lá. Estava lá desde o princípio, impresso pela empresa que assinava a obra.

Em 1878, o próprio Seyrig apresentou o projeto da ponte à Société des Ingénieurs Civils, em Paris, numa comunicação em que, significativamente, nunca refere o nome de Eiffel.

O historiador José Manuel Lopes Cordeiro, da Universidade do Minho, que estudou a questão em detalhe, trava aqui, e com razão. A Maria Pia foi uma obra coletiva. Émile Nouguier concebeu o sistema de montagem do grande arco; Joseph Collin, representante da Casa Eiffel em Portugal, e Marcele Angevere dirigiram os trabalhos; e Gustave Eiffel, além de diretor do projeto e responsável máximo da empresa em cujo nome ele era apresentado, teve um papel importante, sobretudo pela sua preocupação em inovar em todos os domínios. Quando a ponte fez setenta e cinco anos, em 1952, saiu uma série de artigos com o título «Os homens da Ponte Maria Pia» que associava à obra três nomes: Manuel Afonso Espregueira, diretor-geral da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, que resolveu definitivamente o problema do atravessamento do Douro pela linha do Norte; Pedro Inácio Lopes, responsável pela adoção do local, defronte do antigo Seminário, e pelo anteprojeto correspondente; e Gustave Eiffel. Já então se salientava que a ponte fora projetada por Eiffel e por Seyrig, escreve Cordeiro, e já então nunca se esclareceu com precisão o contributo de cada um.

Mas o elemento inovador da conceção, o grande arco metálico, foi concebido por Théophile Seyrig. É a conclusão de Cordeiro, e é também a de Bernard Marrey, autor francês de vários livros sobre Eiffel, incluindo uma biografia: Marrey afirma, sem margem para dúvidas, que o projeto da Maria Pia apresentado pela Casa Eiffel foi concebido pelo seu associado Théophile Seyrig.

Garabit, e a rutura

Pouco depois, a Casa Eiffel foi chamada a construir o viaduto de Garabit, em França, sobre o mesmo modelo da ponte do Porto.

Seyrig reclamou a sua parte nos lucros. Eiffel recusou e rompeu o contrato entre os dois.

As duas fontes que o contam contam-no do mesmo modo. Lemoine, no sítio da Torre Eiffel, escreve que Seyrig quis, logicamente, a sua parte, que Eiffel recusou e rompeu o contrato, que Seyrig deixou a empresa e foi trabalhar para os belgas da Willebroeck, onde ganhou renome com a ponte do Porto, e que, apesar de uma longa série de processos judiciais, nunca recebeu compensação nenhuma. Cordeiro acrescenta o que estava por baixo da desavença: o valor da quota de Seyrig na sociedade em comandita que ambos constituíram era consideravelmente superior à de Eiffel, e o salário que Eiffel tinha atribuído a si próprio na empresa era o triplo do de Seyrig.

Paris, Exposição Universal de 1878. No pavilhão da Eiffel & Cie. estava a maqueta da ponte Maria Pia, acabada de inaugurar. No folheto que a própria casa editou para a acompanhar, os cálculos e os desenhos da ponte vinham atribuídos a Théophile Seyrig. Pintura; figuras genéricas do período, não retratos.
FIG. 04Paris, Exposição Universal de 1878. No pavilhão da Eiffel & Cie. estava a maqueta da ponte Maria Pia, acabada de inaugurar. No folheto que a própria casa editou para a acompanhar, os cálculos e os desenhos da ponte vinham atribuídos a Théophile Seyrig. Pintura; figuras genéricas do período, não retratos.

Ao virar da década, a sociedade estava desfeita.

Para os cálculos de Garabit, a Eiffel & Cie. contratou então um engenheiro de vinte e três anos acabado de sair do Politécnico de Zurique. Chamava-se Maurice Koechlin. Ficaria na empresa o resto da sua longa carreira, fez os cálculos e co-assinou o projeto da Torre Eiffel, e dirigiu a empresa depois de Gustave Eiffel se retirar. A ideia da Torre, escreve Lemoine, coube a Émile Nouguier; a execução dos trabalhos, ao mestre montador Jean Compagnon.

É assim que o próprio Lemoine remata a sua lista de colaboradores: o cuidado e o discernimento que Eiffel demonstrou na escolha dos seus colaboradores foram uma das suas grandes qualidades de empresário, e confirmam a dimensão coletiva das suas realizações.

A Wikipédia francesa escreve que Koechlin veio substituir Seyrig na empresa; Lemoine escreve que foi contratado depois da rutura, para os cálculos de Garabit. São coisas diferentes, e é a segunda que aqui se segue.

O concurso que Seyrig ganhou ao antigo sócio

Entretanto, no Porto, a velha ponte pênsil já não chegava.

Aquela travessia já ia na terceira solução: a ponte das barcas, inaugurada em 1806; a ponte pênsil, aberta ao trânsito em 1843, com projeto final do engenheiro Stanislas Bigot e um vão de cento e setenta metros; e agora uma terceira. O comércio crescia, as fábricas espalhavam-se pelo bairro oriental da cidade, e o trânsito entre Gaia e o Porto crescia a olhos vistos.

O concurso internacional foi lançado em 1880, com o caderno de encargos redigido em francês. As condições eram duras: a ponte seria erguida vinte metros a montante da pênsil, sem apoios dentro do rio, e teria dois tabuleiros afastados quarenta e oito metros um do outro, o de baixo a doze metros do rio.

A exigência dos dois tabuleiros não veio de nenhum concorrente. Veio de um anteprojeto feito do lado português, no Ministério das Obras Públicas, e é aqui que as fontes se separam: a ficha da Direção-Geral do Património Cultural diz que o anteprojeto foi entregue ao engenheiro João Joaquim de Matos; o historiador Manuel de Sousa escreve que terá cabido a Bento Fortunato de Almeida d'Eça, engenheiro militar ao serviço do mesmo ministério, a autoria de um anteprojeto que, pela primeira vez, propôs dois tabuleiros rodoviários. O que as duas versões têm em comum é o essencial: a ideia que tornou esta ponte diferente de todas as outras é portuguesa e é ministerial.

Responderam dez empresas, todas estrangeiras, com doze projetos. A escolha, sustentada num relatório exaustivo de uma comissão de peritos, recaiu sobre uma das propostas mais caras, por ser tecnicamente superior a todas as outras.

Era a da Société de Willebroeck, belga, e o projeto estava assinado por Théophile Seyrig. Entre os concorrentes derrotados estava a G. Eiffel et Cie.

No mesmo ano de 1878, Seyrig apresentou o projeto da ponte Maria Pia à Société des Ingénieurs Civils, em Paris, numa comunicação em que nunca refere o nome de Eiffel. Pintura: evocação de época de uma pessoa real, não um retrato fotográfico.
FIG. 05No mesmo ano de 1878, Seyrig apresentou o projeto da ponte Maria Pia à Société des Ingénieurs Civils, em Paris, numa comunicação em que nunca refere o nome de Eiffel. Pintura: evocação de época de uma pessoa real, não um retrato fotográfico.

Cordeiro resume-o secamente: ambas as empresas apresentaram projetos, e a Willebroeck, precisamente com base num projeto de Théophile Seyrig, venceu toda a concorrência. Noutro ponto do mesmo texto chama-lhe, entre parênteses, o que é: o projeto com que Théophile Seyrig venceu o seu antigo sócio.

O contrato foi fechado no final de novembro de 1881, pelo governo de Fontes Pereira de Melo, por pouco mais de quatrocentos contos de réis, depois de o tabuleiro superior ter sido alargado de seis para oito metros. A obra começou nesse mesmo ano, ao lado das torres da ponte pênsil, que seria desmontada.

Como se monta um arco de cento e setenta e dois metros

O arco da nova ponte tinha cento e setenta e dois metros de corda: doze a mais do que o da Maria Pia. Quando fechou, era o maior arco de ferro do mundo, e o anterior tinha sido o dele.

Quando os engenheiros Paulo J. S. Cruz e José Manuel Lopes Cordeiro escreveram sobre estas pontes numa revista da Sociedade Americana de Engenheiros Civis, em 2003, registaram que o arco da Luiz I detinha ainda, nessa data, o recorde do maior arco de ferro do mundo.

A montagem seguiu o método já usado na Maria Pia. Ergueram-se duas torres de catorze metros de altura em cima dos pilares principais; tirantes seguravam as duas metades do arco enquanto elas avançavam em consola sobre o rio, e cabos de aço ligavam as duas partes. As peças foram pré-montadas junto à Alfândega Nova, transportadas em barcaças até ao local, e içadas com recurso a motores de combustão interna a gasolina, uma novidade para a época.

Existe uma fotografia de Emílio Biel, de 1883, que mostra exatamente esse momento: as duas metades do arco suspensas dos cabos, a apontarem uma para a outra por cima da água, e ainda sem se tocarem. Por trás, a ponte pênsil continua a trabalhar, e há barcos no rio.

Théophile Seyrig publicou em Paris, em 1884, um livro só sobre a montagem daquele arco. Chama-se, sem rodeios, Pont D. Luiz I à Porto. Montage de l'arche principale. Escreveu um livro sobre como montou aquele arco.

31 de outubro de 1886

As primeiras provas de carga fizeram-se a 26 de maio de 1886, com dois mil quilos por metro. O arco e o tabuleiro superior ficaram concluídos a 30 de outubro. No dia seguinte, 31 de outubro, dia em que o rei D. Luís I fazia quarenta e oito anos, a ponte foi inaugurada.

Oito candeeiros a gás no tabuleiro inferior e vinte e quatro no superior, montados pela Companhia Aliança de Massarelos, garantiam a iluminação.

A montagem seguiu o método já usado na Maria Pia: duas torres de catorze metros sobre os pilares principais, tirantes a segurar as duas metades do arco, e as peças içadas com motores a gasolina, uma novidade para a época. Pintura: evocação do método descrito nas fontes; figuras genéricas, não retratos.
FIG. 06A montagem seguiu o método já usado na Maria Pia: duas torres de catorze metros sobre os pilares principais, tirantes a segurar as duas metades do arco, e as peças içadas com motores a gasolina, uma novidade para a época. Pintura: evocação do método descrito nas fontes; figuras genéricas, não retratos.

Depois de a comitiva atravessar a ponte, foi recebida do lado de Vila Nova de Gaia pelos representantes da Câmara Municipal e pelas autoridades civis, e saudada por uma salva de tiros do Regimento da Serra do Pilar. Assinado o auto da bênção, abriram-na ao público.

O que se seguiu está no Comércio do Porto do dia 1 de novembro de 1886, e vale a pena lê-lo como foi escrito:

> «[…] a ponte foi então aberta ao público, tendo uma enorme multidão corrido desordenadamente, enchendo-a completamente. No meio daquela confusão houve um momento de pânico, felizmente passageiro, tendo o tabuleiro oscilado ligeiramente […]»

E então, continua o jornal, alguém julgou que a ponte estava a ceder, «manifestando o seu receio em alta voz»:

> «O povo começou a fugir desorientado. Mas pouco tempo foi preciso para se restabelecer o sossego e a serenidade, não havendo o mais leve desastre, apesar da imensa multidão que então transitava por ali. Durante o resto da tarde e parte da noite a ponte foi atravessada por milhares de pessoas, sendo esta uma das provas decisivas da sua solidez.»

Nem o rei nem Théophile Seyrig lá estavam. Os motivos da ausência do rei não são conhecidos. A de Seyrig é registada pelo historiador Manuel de Sousa, e é a única fonte que a regista, pelo que fica assim, atribuída. O mesmo autor escreve que ambos tinham estado no Porto quatro anos antes, a 9 de janeiro de 1882, quando se inauguraram os trabalhos de construção com explosões de dinamite no morro da Serra do Pilar, e que dessa vez estavam presentes Seyrig, o rei D. Luís e a rainha Maria Pia.

O «Dom» que o povo acrescentou

Conta-se no Porto que a cidade, ofendida com a falta do rei na inauguração, lhe teria tirado o «Dom» do nome como resposta ao desrespeito.

A documentação da época mostra o contrário, e o argumento é do historiador Joel Cleto. Nas notícias dos jornais durante todo o período da construção, a ponte era designada por «Ponte Luiz I». Outras obras importantes da mesma época com nomes de membros da família real também não levavam o título: a ponte ferroviária Maria Pia, e não Dona Maria Pia, dedicada à rainha; o velódromo Maria Amélia, e não Dona Amélia, dedicado à futura rainha consorte de D. Carlos. E o nome oficial está gravado, em placas de mármore, nos pegões-encontro sobre as entradas do tabuleiro inferior: PONTE LUIZ I.

Ou seja: o «Dom» nunca lá esteve. Quem o acrescentou, e continua a acrescentá-lo, foi a cidade, que salvaguardava assim o título de um rei de quem gostava. Antes de subir ao trono, D. Luís tinha sido duque do Porto, e era presença assídua na cidade.

A discussão não é sequer uma questão do passado. Em agosto de 2026, a Infraestruturas de Portugal, dona da obra, mantém páginas em que lhe chama «Ponte D. Luís I»; a ficha da Direção-Geral do Património Cultural intitula-se «Ponte de D. Luís»; e o Arquivo Municipal do Porto cataloga tudo sob «Ponte Luís I». Cento e quarenta anos depois, as próprias instituições do Estado ainda não escrevem o nome da mesma maneira.

Fotografia de George Danson Tait, 1886-87. A ponte Luiz I acabada, vista do lado de Gaia, com o tabuleiro da velha ponte pênsil ainda à sua frente, à cota baixa. A pênsil viria a ser desmontada; restam dela, do lado do Porto, os dois pilares que a sustentavam.
FIG. 07Fotografia de George Danson Tait, 1886-87. A ponte Luiz I acabada, vista do lado de Gaia, com o tabuleiro da velha ponte pênsil ainda à sua frente, à cota baixa. A pênsil viria a ser desmontada; restam dela, do lado do Porto, os dois pilares que a sustentavam.

O que a ponte fez às duas margens

Uma ponte cujo tabuleiro de cima vai ligar as partes altas de duas cidades não se encaixa em nenhuma delas sem custo. E a opção pela cota alta reorganizou as duas margens de maneiras diferentes e duradouras.

Do lado do Porto, o tabuleiro superior foi encaixar numa área densamente construída, e a ligação direta ao centro tardou décadas. Quem a decidiu, e quando, está datado: na primeira vereação republicana da Câmara Municipal do Porto, eleita em 1914, o vereador das obras Elísio de Melo impulsionou o Plano de Melhoramentos e Ampliação da Cidade do Porto, aprovado em sessão de Câmara a 31 de dezembro de 1914, cujo programa incluía expressamente uma nova ligação da Praça de Almeida Garrett ao tabuleiro superior da Ponte Luís I. O plano da Avenida da Cidade foi aprovado em sessão de Câmara a 29 de novembro de 1915.

Executá-lo custou um bairro. Entre 1947 e 1949, a Câmara Municipal do Porto demoliu a Rua do Corpo da Guarda e o Largo da Cividade para abrir a Avenida da Ponte, hoje Avenida de D. Afonso Henriques; as fotografias das demolições estão no arquivo da própria Câmara, e nelas veem-se, prédio a prédio, os estabelecimentos que ali estavam. A cicatriz que ficou entre a estação de São Bento e as imediações da Sé, apesar de sucessivos projetos de integração urbanística nunca concretizados, ainda hoje é bem visível.

Do lado de Vila Nova de Gaia, o efeito foi maior ainda: parte significativa da Serra do Pilar foi desmontada, trabalho concluído em 1927 com a criação do jardim do Morro, e para sul abriu-se uma avenida de trinta metros de largura, concluída em 1934, que deslocou o centro da então vila para longe da beira-rio. Não conseguimos apurar que entidade deliberou essa obra: a única fonte que a descreve, o historiador Manuel de Sousa, não a atribui a ninguém, e nada do que lemos a datou como deliberação. Fica sem nome.

Da ponte pênsil, que a Luiz I substituiu, restam os dois pilares que a sustentavam, do lado do Porto, classificados em nome próprio.

Cento e quarenta anos a levar gente

O tabuleiro inferior só ficou concluído em 1888.

Durante décadas pagou-se para atravessar, e a tabela de portagens é um retrato do país que a usava: cobrava-se a gente a pé, ao gado vacum por cabeça, às cavalgaduras, aos carros de dois bois, às diligências com um suplemento por passageiro, às carruagens de quatro rodas e às carroças de carga. A cobrança foi adjudicada a um concessionário por vinte e nove contos de réis anuais, ficando este com o encargo do salário dos cobradores e da iluminação da ponte. A 1 de julho de 1913 lançaram-se foguetes para celebrar o fim da portagem para peões; as restantes só terminaram a 1 de janeiro de 1944, quando se considerou que o Estado já tinha sido inteiramente ressarcido do investimento.

Em dezembro de 1909, nas grandes cheias do Douro, as águas chegaram a menos de um metro do tabuleiro inferior, e chegou a ser considerada a demolição desse tabuleiro com cargas explosivas para evitar a destruição de toda a ponte. O nível baixou ao longo da tarde.

Depois disso, a ponte foi mudando de passageiros sem mudar de estrutura. Carris de elétricos no princípio do século vinte; troleicarros nos dois tabuleiros a partir de 1959 e até 1993; um reforço geral dirigido pelo engenheiro Edgar Cardoso em 1954, obra que ao mesmo tempo lhe reduziu o peso total. O tabuleiro superior fechou ao trânsito automóvel em 2003 e, desde 2005, é por ali que passa a linha D do Metro do Porto. A reabilitação do tabuleiro inferior ficou concluída em 2023, e esse tabuleiro serve hoje peões, transportes públicos, táxis e bicicletas.

A ponte Luiz I hoje, vista do miradouro da Serra do Pilar: o arco de 172 metros, o tabuleiro de cima por onde passa o metro desde 2005 e o tabuleiro de baixo, reabilitado em 2023. Pintura a partir de uma fotografia real de Thomas Dahlström Nielsen (2023, CC BY-SA 4.0); a estrutura é a da fotografia.
FIG. 08A ponte Luiz I hoje, vista do miradouro da Serra do Pilar: o arco de 172 metros, o tabuleiro de cima por onde passa o metro desde 2005 e o tabuleiro de baixo, reabilitado em 2023. Pintura a partir de uma fotografia real de Thomas Dahlström Nielsen (2023, CC BY-SA 4.0); a estrutura é a da fotografia.

Em 1990, a Sociedade Americana de Engenheiros Civis distinguiu a Maria Pia com um prémio internacional para obras de engenharia civil. A Luiz I está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1982, pelo Decreto n.º 28/82, e integra o bem que a UNESCO inscreveu na Lista do Património Mundial em 1996, cujo nome oficial a nomeia: Centro Histórico do Porto, Ponte Luiz I e Mosteiro da Serra do Pilar.

Na mesma Ribeira, a poucos minutos a pé, fica a Feitoria Inglesa, a casa dos comerciantes britânicos do vinho do Porto. É outra história, e já a contámos.

O que as fontes não fixam

Do homem que desenhou as duas pontes, as fontes não dizem sequer o mesmo.

A Wikipédia portuguesa chama-lhe engenheiro belga. A ficha da Direção-Geral do Património Cultural chama-lhe engenheiro francês. A Wikipédia inglesa dá-o como engenheiro francês nascido na Alemanha. A Wikipédia francesa dá-o como francês, nascido em Berlim, formado na École Centrale de Paris e sepultado no cemitério de Marnes-la-Coquette. A base de dados internacional Structurae regista-o simplesmente como nascido em Berlim.

A Infraestruturas de Portugal, que é a dona da obra, não lhe atribui nacionalidade nenhuma. Descreve-o como François Gustave Théophile Seyrig, antigo sócio de Gustave Eiffel ao serviço da empresa belga Société Willebroeck. É a formulação que este texto adota.

O assunto não fecha. A única página biográfica que as enciclopédias citam, escrita pelo professor Manuel de Azeredo para a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, já não responde no endereço em que está citada. Nem sequer o ano de nascimento está fixado: a ficha da Direção-Geral do Património Cultural diverge de todas as outras fontes.

Théophile Seyrig morreu a 5 de julho de 1923.

As duas pontes

As duas pontes continuam lá, a cerca de um quilómetro uma da outra, sobre o mesmo rio e entre as mesmas duas cidades.

Por cima de uma passa o metro de poucos em poucos minutos, no tabuleiro de onde a multidão fugiu naquele dia de outubro. A outra não leva nada desde 1991, quando lhe passou o último comboio e a Ponte de São João a substituiu. Em 1982, um mesmo decreto mandou proteger as duas.

Parecem-se porque foram desenhadas pela mesma mão.

Fontes

- CORDEIRO, José Manuel Lopes (2009), «Ponte Maria Pia: uma ponte de Eiffel e de Seyrig», Universidade do Minho. [ocomboio.net](https://ocomboio.net/PDF/montpellier/portugais/lopescordeiro.pdf) - CRUZ, Paulo J. S. & CORDEIRO, José Manuel Lopes (2003), «Audacious and Elegant 19th Century Porto Bridges», Practice Periodical on Structural Design and Construction (ASCE), v. 8, n.º 4. Corpo do artigo atrás do paywall da ASCE; lido o resumo no espelho dos autores. [academia.edu](https://www.academia.edu/31264185/Audacious_and_Elegant_19th_Century_Porto_Bridges) - LEMOINE, Bertrand (2019), «Gustave Eiffel and his collaborators», sítio oficial da Torre Eiffel. [toureiffel.paris](https://www.toureiffel.paris/en/news/130-years/gustave-eiffel-and-his-collaborators) - Infraestruturas de Portugal, S.A., ficha «Ponte Luiz I». [infraestruturasdeportugal.pt](https://servicos.infraestruturasdeportugal.pt/a-descobrir/obras-de-arte/ponte-luiz-i) - Direção-Geral do Património Cultural, ficha do imóvel «Ponte de D. Luís» (code 74503), classificação IIP pelo Decreto n.º 28/82. [patrimoniocultural.gov.pt](https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=74503) - AZEREDO, Manuel de (1999), «The Bridges of Porto: Technical Data», Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. [up.pt](https://www.up.pt/arquivoweb/web.fe.up.pt/_azr/pontes/techdata.html) - American Society of Civil Engineers, Historic Civil Engineering Landmark, «Ponte Maria Pia Bridge». [asce.org](https://www.asce.org/about-civil-engineering/history-and-heritage/historic-landmarks/ponte-maria-pia-bridge) - Structurae, «Théophile Seyrig (1843-1923)». [structurae.net](https://structurae.net/en/persons/theophile-seyrig) - SOUSA, Manuel de (2021), «Ponte Luís I: história de uma obra única», Porto d'Honra, que cita verbatim O Comércio do Porto de 1 de novembro de 1886, e cuja bibliografia inclui VASCONCELOS, A. (2014), A ponte Luiz I, Edições Afrontamento, e CLETO, J. (2012), Lendas do Porto, vol. 2. [portodhonra.com](https://www.portodhonra.com/2021/07/ponte-luis-i-historia-de-uma-obra-unica.html) - Arquivo Municipal do Porto (GISA), documentos com referência à Ponte Luís I, incluindo o processo «Obras de abertura da Avenida da Ponte» (1947-1949). [gisaweb.cm-porto.pt](https://gisaweb.cm-porto.pt/topics/7860/documents/) - Câmara Municipal do Porto, «Plano de Renovação da Zona Central da Cidade, 1915». [cm-porto.pt](https://www.cm-porto.pt/os_planos_do_porto/renovacao-das-areas-centrais-1915) - Wikipédia, «Ponte de D. Luís (Porto)», «Dom Luís I Bridge», «Maria Pia Bridge», «Théophile Seyrig» (versões portuguesa, inglesa e francesa). - Fotografias de época: Emílio Biel (1883) e George Danson Tait (1886-87), domínio público, Wikimedia Commons.

### Notas de proveniência

- Do artigo de Cruz & Cordeiro (2003) foi lido o resumo publicado pelos autores, não o corpo, que está atrás do paywall da ASCE. É por isso que a afirmação sobre o recorde do arco aparece datada de 2003 e atribuída, e não no presente. - A citação de O Comércio do Porto de 1 de novembro de 1886 foi lida numa transcrição, não no original. - A ausência de Théophile Seyrig na inauguração tem uma única fonte, e vai atribuída ao autor no corpo do texto. - Do lado de Vila Nova de Gaia, não conseguimos apurar que entidade deliberou o desmonte da Serra do Pilar e a abertura da avenida. A prosa di-lo em vez de escrever um sujeito que não tem fonte. - Onde as fontes divergem, este texto não escolhe: escreve uma forma verdadeira sob todas as leituras. É o caso do ano exato da rutura com Eiffel, da data e do valor exatos do contrato de 1881, do preço da portagem de peões e da altura exata a que a cheia de 1909 chegou.