Descobrimentos · episódio 16
Todos os anos, no dia do Corpo de Deus, uma vila de Castela punha nas ruas a guerra de um rei de Portugal.

São quatro panos de lã e seda, cada um com mais de dez metros de comprido e perto de quatro de alto, e contam como D. Afonso V tomou Arzila e entrou em Tânger, no verão de 1471. Têm hoje o nome da vila: as Tapeçarias de Pastrana.

E eram raríssimos no seu tempo. As tapeçarias que contavam uma história iam quase sempre buscá-la à mitologia, à Bíblia ou à Antiguidade. Estas contavam uma guerra do seu próprio tempo, com o rei, o ano e o mês escritos em latim no alto. A National Gallery of Art, em Washington, põe-nas entre as mais belas tapeçarias góticas que existem.

Foram tecidos na Flandres, quase de certeza em Tournai, e são atribuídos ao negócio de Pasquier Grenier, o grande mercador de tapeçarias da cidade, que tinha entre os clientes os duques da Borgonha. Quem os encomendou, nenhum documento o diz. O mais provável, segundo o mesmo museu, é que tenha sido o próprio rei. Terá sido nos anos que se seguiram à campanha. Segundo a especialista Maria Antónia Quina, a tecelagem dos quatro terá levado entre três e cinco anos, em quatro teares ao mesmo tempo, com dezasseis a vinte tapeceiros.

A campanha começou num dia de festa. A 15 de agosto de 1471, dia da Assunção, o rei e o filho, o príncipe D. João, embarcaram em Lisboa em procissão solene. Partiram do Restelo e juntaram a frota em Lagos, a mesma Lagos das caravelas, onde os esperavam os navios e a gente do Algarve. Rui de Pina, o cronista do reino, conta ao todo quatrocentas e setenta e sete velas e até trinta mil homens. A legenda tecida no primeiro pano arredonda: quatrocentos navios, trinta mil homens.

A 20 de agosto, já de tarde, a frota ancorou diante de Arzila. O mar andava muito alto e quebrava num recife de pedra. No desembarque perderam-se uma galé, caravelas e batéis, e afogaram-se, escreve Pina, até oito fidalgos e duzentos homens. O rei quis ir nos primeiros barcos. Das muitas bombardas grossas que levava, só duas pequenas chegaram a terra.

Bastaram para abrir dois lanços do muro. A 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, antes do nascer do sol, exortados pelo rei, os soldados entraram uns pelas brechas e outros por escadas. A vila foi tomada à força; a crónica conta perto de dois mil mortos e cinco mil cativos.

Tomado o castelo, junto ao corpo do conde de Marialva, morto no combate da mesquita, o rei armou cavaleiro o filho, que tinha dezasseis anos. «Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz», disse-lhe, escreve Rui de Pina, e não sem algumas lágrimas.

Em Tânger, escreve Pina, os moradores tiveram medo de que lhes acontecesse o mesmo e abandonaram a cidade. A 28 de agosto, o rei mandou lá D. João, filho do duque de Bragança, que entrou no dia seguinte sem resistência. E Afonso V passou a intitular-se, pela primeira vez, «Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além-mar em África». Os reis que vieram depois guardaram o título.

É isto que os panos mostram, e mostram-no quase como uma reportagem. No alto de três deles corre uma longa legenda em latim que explica a cena. Os estandartes com o emblema do rei, um rodízio a espalhar gotas de água, marcam onde ele está no meio da multidão de figuras. O porta-estandarte que vai à frente do rei no pano do Assalto é identificado como Duarte de Almeida, o mesmo que em Toro, em 1476, perdeu as duas mãos a defender a bandeira. Rei e príncipe vestem brocados de seda sobre a armadura. As bombardas abrigam-se atrás de mantas de madeira que se erguiam com uma corda no momento do tiro. E Arzila, vila do Norte de África, tem telhados inclinados e torres pontiagudas: os tecelões flamengos nunca a tinham visto e deram-lhe o ar de uma cidade do Norte da Europa.
No quarto pano, o de Tânger, não há rei, nem artilharia, nem rodízio. O exército marcha em formação para uma cidade vazia, onde um único soldado ergue a bandeira de Portugal.
Depois, perdem-se de vista. Na primeira menção que se conhece, em 1532, já estão em Castela, no inventário dos bens dos duques do Infantado. Como lá foram parar, nenhum documento o diz. A hipótese mais seguida, segundo Clara Moura Soares, é a de um presente de Afonso V à casa do Infantado; há quem pense em despojo da batalha de Toro. E se alguma vez estiveram em Portugal antes disso, ninguém o pode provar.
Em 1667, os duques de Pastrana deram-nos à colegiada da vila, com uma condição: todos os anos, na procissão do Corpo de Deus, os panos sairiam à rua a enfeitar a vila. Assim se fez durante muito tempo, e o uso foi-os gastando.
Em 1915, avisados pelo diretor do Museu do Prado de que em Pastrana havia tapeçarias onde pareciam estar as armas portuguesas, os historiadores José de Figueiredo e Reynaldo dos Santos foram vê-las e identificaram as três de Arzila. Em Espanha sabia-se delas; para Portugal, foi uma «redescoberta».
Entre 2008 e 2009, numa oficina de Malines, na Bélgica, os restauradores receberam-nas tão comidas pela traça que, vistas à contraluz, pareciam um céu estrelado. No verão de 2010, os quatro panos estiveram juntos em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga, ao lado dos Painéis de São Vicente. «Pela primeira vez em Portugal», anunciou o museu. Entre 2011 e 2012 foram a Washington, onde 88 568 pessoas os viram em 113 dias, e depois a mais três museus americanos.
Os originais estão desde 2014 num museu de Pastrana reabilitado para eles. Portugal tem as cópias, tecidas em tamanho real em Madrid por iniciativa do governo espanhol. No princípio dos anos cinquenta, o Estado português comprou as quatro, com os cartões, para que não se pudessem tecer outra vez. Estão no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães.
Nesse mesmo ano de 1471 em que foi armado cavaleiro, conta Damião de Góis, o pai entregou ao príncipe a governança de tudo o que até então estava descoberto, com as rendas da Guiné. Dez anos depois seria D. João II. Mas no pano do Cerco ainda vai à esquerda, a cavalo, de brocado sobre a armadura, com a sua gente: um rapaz de dezasseis anos, tecido em lã e seda, com a costa descoberta já a seu cargo e o resto do mar pela frente.
Fontes21 referências
- Rui de Pina, Chronica de El-Rei D. Affonso V, vol. III, caps. CLXII a CLXXII, Biblioteca de Clássicos Portugueses (Project Gutenberg; Biblioteca Nacional Digital).
- Legendas latinas tecidas no alto das tapeçarias do Desembarque e do Assalto, nas fotografias da Wikimedia Commons («Landing at Asilah», «Assault on Asilah»; domínio público).
- National Gallery of Art, Washington, The Invention of Glory: Afonso V and the Pastrana Tapestries, painéis da exposição e página da exposição.
- Meadows Museum, Dallas, At the Meadows, primavera de 2012.
- Clara Moura Soares, «El "redescubrimiento" de los tapices de Pastrana en el siglo XX», Archivo Español de Arte, 96:382 (2023), CC BY 4.0.
- Carlota Castro, «Uma Trilogia do Poder. Crónica de D. Afonso V, Painéis de São Vicente de Fora e Tapeçarias de Pastrana», Omni Tempore, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
- Alexandra Lucas Coelho, «As míticas Tapeçarias de Pastrana estão em Lisboa», Público, 12 de junho de 2010.
- Museu Nacional de Arte Antiga, A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana, página da exposição.
- El País, «Salvados de la polilla» (janeiro de 2010) e «Los tapices de Pastrana llegan a Portugal» (junho de 2010).
- Paço dos Duques de Bragança, Guimarães, fichas das cópias das quatro tapeçarias (PD0059, PD0060, PD0145, PD0333).
- Fundación Carlos de Amberes, «Los tapices flamencos de Pastrana (s. XV)».
- Museo Parroquial de Tapices de Pastrana, «The conquest of Tangier» (Google Arts & Culture).
- La Cerca, Guadanews e Turismo en Guadalajara, sobre o aniversário da doação e o museu de Pastrana.
- Real Fábrica de Tapices, «Restauramos dos tapices de Pastrana».
- RTP, sobre o Prémio Professor Reynaldo dos Santos 2010.
- Damião de Góis, Chronica do Principe D. Joam, cap. XXXII, ed. Coimbra (archive.org).
- João de Barros, Ásia, Década I, liv. II, cap. II (archive.org).
- Araújo Oliveira, «Fernão Gomes da Mina», Academia de Marinha (arquivo.pt).
- Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (EVE), «Fernão Gomes» e «Fra Mauro».
- Placido Zurla, Il mappamondo di Fra Mauro camaldolese (archive.org); Museo Galileo, Fra Mauro.
- Wikipedia, «Pastrana Tapestries», «Tapeçarias de Pastrana», «Tapices de Pastrana».
