Na neve dos Himalaias, um padre de Oleiros pegou em qualquer coisa e caiu-lhe um bom pedaço de dedo. Não deu por isso. Soube pelo sangue.
Já quase não via. Durante mais de vinte e cinco dias, não foi capaz de ler uma só letra do breviário.
Na descida, o companheiro que deixara para trás alcançou-o com mantimentos. O padre escreveu que só o reconheceu depois de o ter nos braços.

Chamava-se António de Andrade, era jesuíta, e o companheiro era o irmão Manuel Marques. Era 1624. O caminho entre a aldeia de Mana e o Tibete só se passava dois meses por ano, e Andrade tentara-o antes do tempo. É dado como o primeiro europeu de que há notícia a atravessar os Himalaias.
Ia à procura de cristãos para lá das montanhas: havia cerca de vinte anos que os padres ouviam falar deles. O que encontrou, contou-o numa carta.

A 30 de março tinham saído de Agra, onde Andrade era o superior da missão dos jesuítas junto da corte do Grão-Mogol. Em Deli, juntaram-se a peregrinos hindus que iam em romaria ao templo de Badrinath, e numa madrugada, à saída da cidade, despiram as roupas pretas de padre. Por baixo, iam vestidos como os mogóis, de touca e cabaia. Nem os cristãos que os acompanhavam souberam de nada.
Em Srinagar, a do vale do Ganges e não a de Caxemira, retiveram-nos cinco dias e interrogaram-nos. Andrade respondeu que era português e que ia ao Tibete à procura de um irmão seu, que lá estava havia anos. Deram com as roupas pretas na bagagem; eram, explicou, para o luto, se o irmão tivesse morrido. Deixaram-nos passar.

Perto de Badrinath, viu um menino de dois ou três anos a comer um pedaço de neve. Pareceu-lhe que lhe faria mal. Mandou que lhe dessem passas e lhe tirassem a neve das mãos. O menino provou as passas, deitou-as fora e chorou pela sua neve.
Em Mana, a última aldeia, chegaram-lhe avisos de que o rajá de Srinagar os mandava prender. Andrade deixou Marques na aldeia e partiu de madrugada, antes de o caminho abrir, com dois moços cristãos.

O passo por onde se entra no Tibete fica a mais de cinco mil e quatrocentos metros. Afundavam-se na neve até ao peito, às vezes até aos ombros. Avançavam por cima dela com o corpo, como quem nada. Dormiam sobre a neve, com um dos três cobertores por baixo e os outros dois por cima, e sacudiam-na durante a noite para não ficarem soterrados. Comiam-na aos pedaços.
No alto, só viam branco. Estavam a cinco léguas da cidade real. Andrade quis mandar os dois moços para trás e ficar sozinho, à espera. Choraram e recusaram-se a ir sem ele, e Andrade voltou com eles. Foi nessa descida que Marques os alcançou.

Quase um mês depois, com menos neve, fizeram de novo o caminho. O rei, avisado, mandou-lhes dois homens e depois três cavalos: tinham-lhe escrito que era gente muito estranha, nunca vista naquelas terras. No princípio de agosto de 1624 entraram em Tsaparang, a que os portugueses chamavam Chaparangue, capital do reino de Guge, no Tibete ocidental. A gente saiu às ruas, e as mulheres às janelas, para os ver.
O rei julgava que traziam pérolas e joias. Quando soube que não eram mercadores, perdeu o entusiasmo. Depois de os ouvir, ele e a rainha passaram a recebê-los todos os dias. Falavam através de intérpretes, por três línguas, e Andrade escreve que cada um entendia muito pouco do que se tratava.

Cristãos, não os encontrou. Havia lamas budistas, e casas de oração muito limpas, pintadas nos tetos e nas paredes. Ainda hoje há em Tsaparang templos antigos de paredes pintadas.
E aquilo não ficava no fim do mundo. Enquanto lá esteve, chegou uma caravana de mais de duzentos mercadores com sedas, porcelana e chá da China. Disseram-lhe que vinha todos os anos.

O rei só o deixou partir quando ele jurou voltar, e deu-lhe um papel selado com as armas reais em que o tomava por mestre e lhe dava sítio para uma casa de oração. Três dias depois da partida, alcançaram-nos três homens mandados pelo rei, com mais de dois mil frutos em seis cestinhos, trazidos de outra cidade a doze ou quinze dias de caminho. Mandava-os, disseram, «em sinal de amor».
Em Agra, a 8 de novembro de 1624, Andrade escreveu tudo. Voltou a Tsaparang em 1625, outra vez com Marques, e em 1626 levantou-se uma igreja ao pé do palácio. Numa carta desse ano, escrita em Tsaparang, Andrade deu a latitude da cidade: entre trinta e um e trinta e dois graus para norte. Os mapas de hoje põem-na entre esses dois números. Contou também que, para dizer missa, tinham de aquecer o vinho antes de o deitar no cálice, para não gelar.

A primeira carta saíra em Lisboa em 1626, num folheto de dezasseis folhas, com o título «Novo descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibet», e em pouco mais de dois anos o relato lia-se já em castelhano; em italiano, em Roma e em Nápoles; em francês, em Gante e em Pont-à-Mousson; e em polaco, em Cracóvia.
Em 1924, o historiador jesuíta C. Wessels escreveu que essas traduções mostram com que avidez a Europa procurou notícias daquela terra, e que depois nada se seguiu: tirando alguns missionários, passaram mais de dois séculos até outro europeu chegar a Tsaparang.

Em 1630, com Andrade já fora do Tibete, o rei do Ladaque cercou Tsaparang, e o rei de Guge foi levado cativo para Leh, com a família.
Em Goa, Andrade foi provincial da Companhia de Jesus e depois reitor do Colégio de São Paulo. Estava a preparar o regresso ao Tibete, com seis religiosos, quando morreu, a 19 de março de 1634, envenenado no colégio. As versões antigas não concordam sobre quem o matou. O tribunal do Santo Ofício de Goa, de que Andrade era deputado, abriu um inquérito, e o historiador Michael Sweet, que o estudou, concluiu em 2016 que as provas apontam para padres e irmãos do próprio colégio, por animosidade pessoal.
Tsaparang ficara nas mãos de um governador posto pelo rei do Ladaque, e em 1635 os últimos jesuítas foram expulsos. A Companhia passou a esperar em Srinagar, do lado de cá das montanhas. Foi daí que Manuel Marques partiu, em 1640, para tentar voltar. Foi preso ao atravessar o passo de Mana. Fugiu, voltou a ser apanhado, e pediram por ele um resgate pesado.
Em agosto e em outubro de 1641, escreveu de Tsaparang. Estava sozinho, na casa da missão. Dizia que, por querer partir, era maltratado e ferido, a ponto de não ter esperança de sair. O jesuíta José de Castro conseguiu em Lahore uma carta de recomendação dirigida ao senhor de Tsaparang para que o deixasse partir. A resposta foi uma recusa. Em 1642, Marques ainda lá estava.
No catálogo da Companhia de 1647, o nome dele já não aparece.
No de 1641, há uma nota: para negociar a libertação dele, um dos padres ficara em Srinagar, a cidade onde em 1624 os tinham retido cinco dias.
Fontes8 referências
- António de Andrade, Novo descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibet, Lisboa, Mateus Pinheiro, 1626 (a carta de Agra, 8 de novembro de 1624), e a carta ânua de Chaparangue, 15 de agosto de 1626, na edição de Francisco Maria Esteves Pereira, O descobrimento do Tibet pelo P. António de Andrade, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921 (Academia das Sciências de Lisboa). As duas cartas, a biografia, o itinerário e a lista das edições e traduções. archive.org
- António de Andrade, Relatione del novo scoprimento del gran Cataio, overo regno di Tibet, Roma, Francesco Corbelletti, 1627. Exemplar da Biblioteca Nacional Central de Roma. archive.org
- C. Wessels, Early Jesuit Travellers in Central Asia, 1603-1721, Haia, Martinus Nijhoff, 1924, capítulos II e III. A viagem de 1624, a missão de Tsaparang, a queda de 1630, a morte de 1634, o destino de Manuel Marques e a visita de G. M. Young. archive.org
- Bruna Dutra de Oliveira Soalheiro Cruz, A missão tibetana na correspondência jesuíta (1624-1631), dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, 2009. doi.org
- Bruna Dutra de Oliveira Soalheiro Cruz, Política e retórica: estratégias de conversão nas missões jesuítas do Mogol, Tibete e Bengala (XVI-XVIII), tese de doutoramento, Universidade de São Paulo, 2014. A morte de Andrade e o traslado da devassa na Torre do Tombo. doi.org
- Michael J. Sweet, «Murder in the Refectory: The Death of António de Andrade, S.J.», The Catholic Historical Review, 102 (1), 2016, pp. 26-45. doi.org
- Jadwiga Miszalska, «Polish Seventeenth-Century Translations of Jesuit Accounts from the Far East in the Context of Translation History», Przekładaniec, 2019. A tradução polaca de Fryderyk Szembek, Cracóvia, 1628. doi.org
- Público, «400 anos depois, uma "expedição" portuguesa regressa ao Shangri-La», 12 de agosto de 2024. Entrevista a Joaquim Magalhães de Castro sobre Tsaparang hoje. publico.pt
