Na neve dos Himalaias, um padre de Oleiros pegou em qualquer coisa e caiu-lhe um bom pedaço de dedo. Não deu por isso. Soube pelo sangue.

Já quase não via. Durante mais de vinte e cinco dias, não foi capaz de ler uma só letra do breviário.

Na descida, o companheiro que deixara para trás alcançou-o com mantimentos. O padre escreveu que só o reconheceu depois de o ter nos braços.

Evocação pintada da travessia de 1624. Com o frio, escreve Andrade, ao pegar em qualquer coisa caiu-lhe um bom pedaço de dedo. Não deu por isso: soube pelo sangue.
FIG. 02Evocação pintada da travessia de 1624. Com o frio, escreve Andrade, ao pegar em qualquer coisa caiu-lhe um bom pedaço de dedo. Não deu por isso: soube pelo sangue.

Chamava-se António de Andrade, era jesuíta, e o companheiro era o irmão Manuel Marques. Era 1624. O caminho entre a aldeia de Mana e o Tibete só se passava dois meses por ano, e Andrade tentara-o antes do tempo. É dado como o primeiro europeu de que há notícia a atravessar os Himalaias.

Ia à procura de cristãos para lá das montanhas: havia cerca de vinte anos que os padres ouviam falar deles. O que encontrou, contou-o numa carta.

Evocação pintada de António de Andrade em Srinagar, a do vale do Ganges, em 1624, onde os retiveram cinco dias. Disse que ia ao Tibete à procura de um irmão seu; quando lhe encontraram na bagagem as roupas pretas de padre, explicou que eram para o luto, se o irmão tivesse morrido. Evocação, não retrato.
FIG. 03Evocação pintada de António de Andrade em Srinagar, a do vale do Ganges, em 1624, onde os retiveram cinco dias. Disse que ia ao Tibete à procura de um irmão seu; quando lhe encontraram na bagagem as roupas pretas de padre, explicou que eram para o luto, se o irmão tivesse morrido. Evocação, não retrato.

A 30 de março tinham saído de Agra, onde Andrade era o superior da missão dos jesuítas junto da corte do Grão-Mogol. Em Deli, juntaram-se a peregrinos hindus que iam em romaria ao templo de Badrinath, e numa madrugada, à saída da cidade, despiram as roupas pretas de padre. Por baixo, iam vestidos como os mogóis, de touca e cabaia. Nem os cristãos que os acompanhavam souberam de nada.

Em Srinagar, a do vale do Ganges e não a de Caxemira, retiveram-nos cinco dias e interrogaram-nos. Andrade respondeu que era português e que ia ao Tibete à procura de um irmão seu, que lá estava havia anos. Deram com as roupas pretas na bagagem; eram, explicou, para o luto, se o irmão tivesse morrido. Deixaram-nos passar.

Evocação pintada de um episódio que Andrade conta a caminho do Tibete, perto de Badrinath: um menino de dois ou três anos comia um pedaço de neve. Mandou que lhe dessem passas e lhe tirassem a neve das mãos. O menino deitou as passas fora e chorou pela sua neve. Figura genérica, não retrato.
FIG. 04Evocação pintada de um episódio que Andrade conta a caminho do Tibete, perto de Badrinath: um menino de dois ou três anos comia um pedaço de neve. Mandou que lhe dessem passas e lhe tirassem a neve das mãos. O menino deitou as passas fora e chorou pela sua neve. Figura genérica, não retrato.

Perto de Badrinath, viu um menino de dois ou três anos a comer um pedaço de neve. Pareceu-lhe que lhe faria mal. Mandou que lhe dessem passas e lhe tirassem a neve das mãos. O menino provou as passas, deitou-as fora e chorou pela sua neve.

Em Mana, a última aldeia, chegaram-lhe avisos de que o rajá de Srinagar os mandava prender. Andrade deixou Marques na aldeia e partiu de madrugada, antes de o caminho abrir, com dois moços cristãos.

Evocação pintada da travessia de 1624. O passo por onde se entra no Tibete fica a mais de cinco mil e quatrocentos metros. Muitas vezes ficavam enterrados na neve até ao peito, ou até aos ombros, e avançavam por cima dela com o corpo, como quem nada. Figuras genéricas.
FIG. 05Evocação pintada da travessia de 1624. O passo por onde se entra no Tibete fica a mais de cinco mil e quatrocentos metros. Muitas vezes ficavam enterrados na neve até ao peito, ou até aos ombros, e avançavam por cima dela com o corpo, como quem nada. Figuras genéricas.

O passo por onde se entra no Tibete fica a mais de cinco mil e quatrocentos metros. Afundavam-se na neve até ao peito, às vezes até aos ombros. Avançavam por cima dela com o corpo, como quem nada. Dormiam sobre a neve, com um dos três cobertores por baixo e os outros dois por cima, e sacudiam-na durante a noite para não ficarem soterrados. Comiam-na aos pedaços.

No alto, só viam branco. Estavam a cinco léguas da cidade real. Andrade quis mandar os dois moços para trás e ficar sozinho, à espera. Choraram e recusaram-se a ir sem ele, e Andrade voltou com eles. Foi nessa descida que Marques os alcançou.

Pintura das ruínas de Tsaparang, a antiga capital do reino de Guge, no Tibete ocidental, a partir de uma fotografia de Jean-Marie Hullot (CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons). Andrade chegou aqui no princípio de agosto de 1624. Ainda hoje há em Tsaparang templos antigos de paredes pintadas.
FIG. 06Pintura das ruínas de Tsaparang, a antiga capital do reino de Guge, no Tibete ocidental, a partir de uma fotografia de Jean-Marie Hullot (CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons). Andrade chegou aqui no princípio de agosto de 1624. Ainda hoje há em Tsaparang templos antigos de paredes pintadas.

Quase um mês depois, com menos neve, fizeram de novo o caminho. O rei, avisado, mandou-lhes dois homens e depois três cavalos: tinham-lhe escrito que era gente muito estranha, nunca vista naquelas terras. No princípio de agosto de 1624 entraram em Tsaparang, a que os portugueses chamavam Chaparangue, capital do reino de Guge, no Tibete ocidental. A gente saiu às ruas, e as mulheres às janelas, para os ver.

O rei julgava que traziam pérolas e joias. Quando soube que não eram mercadores, perdeu o entusiasmo. Depois de os ouvir, ele e a rainha passaram a recebê-los todos os dias. Falavam através de intérpretes, por três línguas, e Andrade escreve que cada um entendia muito pouco do que se tratava.

Evocação pintada das audiências em Tsaparang, em 1624: de costas, de sotaina, Andrade; ao centro, o intérprete. O rei de Guge e a rainha passaram a receber Andrade todos os dias. Falavam através de intérpretes, por três línguas, e cada um, escreve ele, entendia muito pouco do que se tratava. Figuras evocadas, não retratos.
FIG. 07Evocação pintada das audiências em Tsaparang, em 1624: de costas, de sotaina, Andrade; ao centro, o intérprete. O rei de Guge e a rainha passaram a receber Andrade todos os dias. Falavam através de intérpretes, por três línguas, e cada um, escreve ele, entendia muito pouco do que se tratava. Figuras evocadas, não retratos.

Cristãos, não os encontrou. Havia lamas budistas, e casas de oração muito limpas, pintadas nos tetos e nas paredes. Ainda hoje há em Tsaparang templos antigos de paredes pintadas.

E aquilo não ficava no fim do mundo. Enquanto lá esteve, chegou uma caravana de mais de duzentos mercadores com sedas, porcelana e chá da China. Disseram-lhe que vinha todos os anos.

Evocação pintada da partida de 1624. Três dias depois da partida, o rei mandou atrás deles três homens, com mais de dois mil frutos em seis cestinhos, trazidos de outra cidade a doze ou quinze dias de caminho, «em sinal de amor». Figuras genéricas de época.
FIG. 08Evocação pintada da partida de 1624. Três dias depois da partida, o rei mandou atrás deles três homens, com mais de dois mil frutos em seis cestinhos, trazidos de outra cidade a doze ou quinze dias de caminho, «em sinal de amor». Figuras genéricas de época.

O rei só o deixou partir quando ele jurou voltar, e deu-lhe um papel selado com as armas reais em que o tomava por mestre e lhe dava sítio para uma casa de oração. Três dias depois da partida, alcançaram-nos três homens mandados pelo rei, com mais de dois mil frutos em seis cestinhos, trazidos de outra cidade a doze ou quinze dias de caminho. Mandava-os, disseram, «em sinal de amor».

Em Agra, a 8 de novembro de 1624, Andrade escreveu tudo. Voltou a Tsaparang em 1625, outra vez com Marques, e em 1626 levantou-se uma igreja ao pé do palácio. Numa carta desse ano, escrita em Tsaparang, Andrade deu a latitude da cidade: entre trinta e um e trinta e dois graus para norte. Os mapas de hoje põem-na entre esses dois números. Contou também que, para dizer missa, tinham de aquecer o vinho antes de o deitar no cálice, para não gelar.

Folha de rosto da edição de Roma, de 1627, do relato de Andrade, «Relatione del novo scoprimento del gran Cataio, overo regno di Tibet», impressa por Francesco Corbelletti (domínio público; Biblioteca Nazionale Centrale di Roma, via Internet Archive).
FIG. 09Folha de rosto da edição de Roma, de 1627, do relato de Andrade, «Relatione del novo scoprimento del gran Cataio, overo regno di Tibet», impressa por Francesco Corbelletti (domínio público; Biblioteca Nazionale Centrale di Roma, via Internet Archive).

A primeira carta saíra em Lisboa em 1626, num folheto de dezasseis folhas, com o título «Novo descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibet», e em pouco mais de dois anos o relato lia-se já em castelhano; em italiano, em Roma e em Nápoles; em francês, em Gante e em Pont-à-Mousson; e em polaco, em Cracóvia.

Em 1924, o historiador jesuíta C. Wessels escreveu que essas traduções mostram com que avidez a Europa procurou notícias daquela terra, e que depois nada se seguiu: tirando alguns missionários, passaram mais de dois séculos até outro europeu chegar a Tsaparang.

Evocação pintada de Manuel Marques em Tsaparang, em 1641. Estava sozinho na casa da missão. Nas cartas desse ano dizia que, por querer partir, era maltratado e ferido, a ponto de não ter esperança de sair. Figura evocada, não retrato.
FIG. 10Evocação pintada de Manuel Marques em Tsaparang, em 1641. Estava sozinho na casa da missão. Nas cartas desse ano dizia que, por querer partir, era maltratado e ferido, a ponto de não ter esperança de sair. Figura evocada, não retrato.

Em 1630, com Andrade já fora do Tibete, o rei do Ladaque cercou Tsaparang, e o rei de Guge foi levado cativo para Leh, com a família.

Em Goa, Andrade foi provincial da Companhia de Jesus e depois reitor do Colégio de São Paulo. Estava a preparar o regresso ao Tibete, com seis religiosos, quando morreu, a 19 de março de 1634, envenenado no colégio. As versões antigas não concordam sobre quem o matou. O tribunal do Santo Ofício de Goa, de que Andrade era deputado, abriu um inquérito, e o historiador Michael Sweet, que o estudou, concluiu em 2016 que as provas apontam para padres e irmãos do próprio colégio, por animosidade pessoal.

Tsaparang ficara nas mãos de um governador posto pelo rei do Ladaque, e em 1635 os últimos jesuítas foram expulsos. A Companhia passou a esperar em Srinagar, do lado de cá das montanhas. Foi daí que Manuel Marques partiu, em 1640, para tentar voltar. Foi preso ao atravessar o passo de Mana. Fugiu, voltou a ser apanhado, e pediram por ele um resgate pesado.

Em agosto e em outubro de 1641, escreveu de Tsaparang. Estava sozinho, na casa da missão. Dizia que, por querer partir, era maltratado e ferido, a ponto de não ter esperança de sair. O jesuíta José de Castro conseguiu em Lahore uma carta de recomendação dirigida ao senhor de Tsaparang para que o deixasse partir. A resposta foi uma recusa. Em 1642, Marques ainda lá estava.

No catálogo da Companhia de 1647, o nome dele já não aparece.

No de 1641, há uma nota: para negociar a libertação dele, um dos padres ficara em Srinagar, a cidade onde em 1624 os tinham retido cinco dias.

Fontes8 referências
  • António de Andrade, Novo descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibet, Lisboa, Mateus Pinheiro, 1626 (a carta de Agra, 8 de novembro de 1624), e a carta ânua de Chaparangue, 15 de agosto de 1626, na edição de Francisco Maria Esteves Pereira, O descobrimento do Tibet pelo P. António de Andrade, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921 (Academia das Sciências de Lisboa). As duas cartas, a biografia, o itinerário e a lista das edições e traduções. archive.org
  • António de Andrade, Relatione del novo scoprimento del gran Cataio, overo regno di Tibet, Roma, Francesco Corbelletti, 1627. Exemplar da Biblioteca Nacional Central de Roma. archive.org
  • C. Wessels, Early Jesuit Travellers in Central Asia, 1603-1721, Haia, Martinus Nijhoff, 1924, capítulos II e III. A viagem de 1624, a missão de Tsaparang, a queda de 1630, a morte de 1634, o destino de Manuel Marques e a visita de G. M. Young. archive.org
  • Bruna Dutra de Oliveira Soalheiro Cruz, A missão tibetana na correspondência jesuíta (1624-1631), dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, 2009. doi.org
  • Bruna Dutra de Oliveira Soalheiro Cruz, Política e retórica: estratégias de conversão nas missões jesuítas do Mogol, Tibete e Bengala (XVI-XVIII), tese de doutoramento, Universidade de São Paulo, 2014. A morte de Andrade e o traslado da devassa na Torre do Tombo. doi.org
  • Michael J. Sweet, «Murder in the Refectory: The Death of António de Andrade, S.J.», The Catholic Historical Review, 102 (1), 2016, pp. 26-45. doi.org
  • Jadwiga Miszalska, «Polish Seventeenth-Century Translations of Jesuit Accounts from the Far East in the Context of Translation History», Przekładaniec, 2019. A tradução polaca de Fryderyk Szembek, Cracóvia, 1628. doi.org
  • Público, «400 anos depois, uma "expedição" portuguesa regressa ao Shangri-La», 12 de agosto de 2024. Entrevista a Joaquim Magalhães de Castro sobre Tsaparang hoje. publico.pt