Um papa mandou excomungar quem entrasse na Mata do Buçaco para cortar uma árvore.
A bula é de Urbano VIII, de 28 de março de 1643, e está gravada numa lápide, sobre a antiga portaria principal da mata. Ao lado está outra bula, mais velha, que trata de outra coisa.
A de 1643 proíbe, sob pena de excomunhão «ipso facto incorrenda», que qualquer pessoa, «de qualquer authoridade que seja», entre sem licença do prior na clausura do convento de Santa Cruz do Buçaco «para effeito de cortar arvores de qualquer casta que sejão ou fazer outro dano». E manda que a cópia da proibição se conserve fixada nas portas do convento, ou em outro lugar patente a todos.

Os frades que ali viviam eram carmelitas descalços. À casa que fundavam num sítio afastado, a ordem chamava «deserto»: uma casa de ermo, feita para a oração longe de gente. E as Constituições da ordem, em Portugal, traziam esta cláusula: «será obrigado o prior a pôr de novo cada anno arvores silvestres: nem poderá cortar, nem arrancar alguma sem approvação do Capitulo Conventual, concorrendo ao menos para isso duas partes das tres dos votos».
Plantar árvores todos os anos era uma obrigação escrita. A mata do Buçaco foi uma regra antes de ser uma floresta.

O monte pertencia à mitra de Coimbra. Para o poder alienar, o bispo-conde D. João Manuel teve de mandar proceder à louvação da serra, e ela foi avaliada em cento e oitenta mil réis, «por ser infructifero e de pouco rendimento», nas palavras de Augusto Mendes Simões de Castro, que em 1896 resumiu a crónica da ordem num guia da mata. É por esse guia que lemos hoje o texto das duas bulas.
Conta essa crónica que o padre geral, ao ver o sítio, disse aos companheiros: «Aqui é vontade de Deus que se funde; murem este sitio, que tem nelle o melhor deserto da Ordem. Porque, se agora, inculto, rude e tosco, é o que admiramos, cultivado, será um paraiso terreal.»

Partiram de Aveiro três frades, a 29 de junho de 1628: fr. Tomás de São Cirilo, primeiro vigário, fr. João Baptista, e o irmão Alberto da Virgem, arquiteto. Levavam, diz a crónica, um cobertor cada um para a cama, uma canastra de sardinhas para a mesa, e dez cruzados para o começo da obra.
A primeira pedra foi lançada a 7 de agosto de 1628. Muraram a mata: «quasi quatro kilometros» de circunferência, pelas contas do mesmo Simões de Castro.

Dentro do muro, plantava-se. O Agiológio Lusitano guarda a memória de fr. João Baptista, natural de Silves, que ali viveu treze anos «plantando por suas proprias mãos grandissima quantidade de arvores». Em 1642 partiu em missão para Moçambique, onde morreu a 25 de fevereiro de 1643.
Fora do muro, cortava-se. Gente das redondezas entrava na cerca a buscar madeira, e foi por isso, «para obviar aos córtes e estragos que furtivamente se lhe faziam», que os frades pediram a Roma a sentença de excomunhão. Urbano VIII assinou-a a 28 de março de 1643.

A sentença ficou por usar. Os frades guardaram-na, e, segundo esse guia, só recorreram a ela quando o bispo-conde D. João de Melo a mandou publicar nas paróquias circunvizinhas e gravar numa lápide, à entrada principal da mata. Foi em 1690.
O muro guardou a mata das pessoas. Não guardou uma árvore lá dentro.

O botânico francês Tournefort já lhe chamava, no início do século XVIII, «Cupressus Lusitanica, patula, fructu minori»: cipreste português, de ramos abertos, fruto menor.
Em 1768, na oitava edição do Gardeners Dictionary, o inglês Philip Miller foi mais longe. Escreveu que havia grande quantidade destas árvores num sítio chamado «Busaco», perto de «Cœmbra», onde lhe chamavam «the Cedar of Busaco»; e que ali crescia até dar madeira, de modo que dali se obtinham sementes com facilidade. Miller acreditava que a árvore vinha de Goa. No jardim do bispo de Londres, em Fulham, passava por «Cedar of Goa», e com esse nome foi mandada dali para o jardim de Leiden.

As floras modernas, de Bean à PROTA, dão a espécie como nativa do México e da América Central. Quando o cipreste chegou ao Buçaco, de onde e por que mãos, nenhuma das fontes que lemos o diz.
O epíteto de Miller ficou. A PROTA, obra de referência sobre os recursos vegetais da África tropical, regista-o entre as árvores de plantação florestal da região, muito plantado em altitude: cerca de setenta a oitenta mil hectares no Quénia.

Os frades saíram. Em 1834 foram extintas as ordens religiosas masculinas em Portugal, e a mata passou depois para a administração geral das matas do reino. Foi essa administração, a partir de meados do século XIX, que plantou no Buçaco as sequoias, as araucárias e os eucaliptos que hoje muita gente associa ao sítio.
Dentro do muro ficou o cedro de São José, junto à ermida do mesmo nome, um dos mais velhos da mata. Em janeiro de 2013, o ciclone Gong destruiu cerca de 40 por cento do arvoredo. Sobre o cedro, disse então ao Público a investigadora Milene Matos: «É apenas um tronco e um pequeno ramo de pé.»
A 4 de fevereiro de 2026, depois da depressão Kristin, o presidente da Fundação Mata do Bussaco, Guilherme Duarte, disse à Lusa que as árvores notáveis não tinham sofrido danos significativos. E acrescentou: «Mas uma árvore com quase quatro séculos de existência, o cedro de São José, está lá. Não caiu.»
Falta a outra bula.
É anterior ao convento: uma bula de Gregório XV, de 23 de julho de 1622, pedida pelo procurador-geral dos Carmelitas Descalços da Congregação de Espanha para as «Cazas de Ermo» da ordem, que proíbe sob pena de excomunhão a entrada de mulheres «de qualquer estado, ou condição, que sejão» no sítio de clausura dessas casas. Manda também expor a cópia numa tábua, à entrada.
Em 1634, uma viúva do Porto imprimiu em Lisboa, na oficina de Mathias Rodrigues, um livro chamado Soledades de Buçaco. Chamava-se Bernarda Ferreira de Lacerda, tinha publicado um poema épico aos vinte e poucos anos, e dedicou o livro às carmelitas descalças do convento de Santo Alberto, em Lisboa, que viviam em clausura. A dedicatória, em português, diz porquê: «Porque Vs. Ms. não podem ver as perfeições do seu Deserto de Buçaco, as quis eu mostrar nesta breve descripção.»
Para garantir o que descrevia, o poema invoca quem podia saber: os habitantes da vizinhança, os que passam por aqueles caminhos, os caçadores das aldeias em redor. Muito do que conta da vida da casa vem das Constituições do Carmelo, citadas nas margens das páginas.
No poema português que fecha o livro, Bernarda escreve que nos troncos da mata escreveria, com lágrimas suaves, a sua trágica vida. E, entre aquelas ermidas, escreve: «Me fingirei metida».
Às freiras de Santo Alberto mandou a mata impressa, com o emblema do Carmo no alto da página de rosto e as armas de Bernarda em baixo.
Fontes17 referências
- LACERDA, Bernarda Ferreira de, Soledades de Buçaco, Lisboa, Mathias Rodrigues, 1634. Exemplar da Johns Hopkins University, coleção Women of the Book. O frontispício gravado, a dedicatória às carmelitas de Santo Alberto e o poema português final. archive.org
- CASTRO, Augusto Mendes Simões de, Guia historico do viajante no Bussaco, 1896. Resume o vol. 2 da Chronica dos Carmelitas Descalços de fr. João do Sacramento e copia as duas bulas «das próprias lapidas»; dá também a transcrição das Constituições e a lista das árvores da mata. archive.org
- MILLER, Philip, The Gardeners Dictionary, 8.ª ed., Londres, 1768, vol. 1, verbete CUPRESSUS. A descrição do «Cedar of Busaco», a crença na origem em Goa, o percurso por Fulham e Leiden e a geada de 1740. archive.org
- TOURNEFORT, J. P. de, Institutiones rei herbariae, 3.ª ed., Paris, 1719, vol. 1. A frase-nome «Cupressus Lusitanica, patula, fructu minori». archive.org
- BORGES, Célia Maia, «Os Eremitas e o Ideal de Santidade no imaginário português: o Deserto dos Carmelitas Descalços no séc. XVII», Lusitania Sacra, 2011. A fundação, os nomes dos fundadores, o breve de 1628 e a leitura do motivo da bula das árvores. revistas.ucp.pt
- BELLINI, Lígia, «Espiritualidade e práticas da escrita no mundo ibérico moderno: a propósito de Soledades de Buçaco (1634)», Fênix 16/1 (2019). O método de verificação do poema e o acesso da autora ao convento. revistafenix.pro.br
- RIGAUX, Maxim, «Bernarda Ferreira de Lacerda as Another Aurora: A Trans-Generic Reading of the Soledades de Buçaco (1634)», International Journal of the Classical Tradition, 2026. A dupla impossibilidade das freiras de Santo Alberto e a observação de Hegstrom. link.springer.com
- SALDANHA, Diogo B. F. D., Contributos para um plano de gestão e de requalificação do Arboreto da Mata Nacional do Buçaco, dissertação, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2013. A doação, a cronologia da construção, os danos de 1810 pela síntese de Santos (2002) e o inventário do arboreto. repositorio-aberto.up.pt
- FARJON, Aljos, «Nomenclature of the Mexican cypress or "cedar of Goa", Cupressus lusitanica Mill.», Taxon 42 (1993), pp. 81-84. Artigo de acesso restrito; o resumo dá a espécie única e o nome correto. onlinelibrary.wiley.com
- PROTA (Plant Resources of Tropical Africa), «Cupressus lusitanica», via PlantUse. A distribuição natural, as áreas de plantação no Quénia e na Etiópia e os usos da madeira. plantuse.plantnet.org)
- BEAN, W. J., Trees and Shrubs Hardy in the British Isles, verbete Cupressus lusitanica, edição em linha. O cultivo em Inglaterra a partir do século XVII e a conjetura sobre a introdução. treesandshrubsonline.org
- World Flora Online, registo wfo-0000630722, com dados de 2024, e GBIF, consulta de setembro de 2026. As duas classificações do género.
- Fundação Mata do Bussaco, páginas «As Bulas Papais», «História», «Flora», «Alguns factos» e «Curiosidades». fmb.pt
- Público, «O bosque encantado», 30 de julho de 2010, lido na cópia do Arquivo.pt. A placa de 1648 junto à capela de São José. arquivo.pt
- Público, janeiro de 2013, lido numa reprodução de terceiros. As palavras de Milene Matos sobre o cedro de São José depois do ciclone Gong.
- Lusa, via RTP, 16 de janeiro de 2015. Os dois anos do temporal, as árvores notáveis derrubadas e o estado do cedro de São José. rtp.pt
- Lusa, via Diário de Coimbra, 4 de fevereiro de 2026. Os prejuízos da depressão Kristin e as palavras do presidente da Fundação sobre o cedro de São José. diariocoimbra.pt