Quando um pescador da Ericeira não voltava do mar, nem sempre se tinha afogado.

Às vezes estava vivo. Acorrentado num banho de Argel, à espera de que a aldeia juntasse moeda suficiente para o comprar de volta.

Durante quase dois séculos, os corsários do Norte de África caçaram pescadores portugueses ao largo das nossas costas. A Ericeira pagou essa caça em gerações. Já contámos aqui a batalha de 1621, a tarde de glória ao largo da vila. Hoje contamos o que veio depois.

Em 1606, um pirata holandês ensinou Argel a construir navios de alto-mar. A partir daí, nenhum barco da Ericeira estava seguro ao largo.
FIG. 02Em 1606, um pirata holandês ensinou Argel a construir navios de alto-mar. A partir daí, nenhum barco da Ericeira estava seguro ao largo.

Nem sempre tinham chegado tão longe. Durante séculos, os piratas berberescos tinham apenas galés e pequenos barcos a remo, e atacavam só a costa e as aldeias à beira-mar. Em 1606, um pirata holandês, Simon Danser, fixou-se em Argel e ensinou os argelinos a construir navios oceânicos. A partir daí, o corso deixou de ser uma ameaça costeira para passar a ser um perigo de alto-mar. Em 1616 chegaram à ilha de Santa Maria, nos Açores; no ano seguinte, a Porto Santo.

Foi nesse mundo que se travou a batalha. Em outubro de 1621, ao largo da Ericeira, uma frota de dezassete naus e cinco mil homens cercou a nau portuguesa «Nossa Senhora da Conceição». Combateu-se três dias. Ao fim deles, a nau ardeu e afundou-se, e os sobreviventes foram levados para Argel. Um deles, João Carvalho Mascarenhas, viveu para o escrever: em 1627 imprimiu em Lisboa a memória da perda da nau e dos que nela cativaram. A batalha teve canhões, um nome e um relato impresso.

António Ferreira, da Ericeira: quarenta e dois anos de idade, catorze deles como escravo em Argel. Resgatado em 1754. É o único cativo da vila que a documentação nos deixa nomear.
FIG. 03António Ferreira, da Ericeira: quarenta e dois anos de idade, catorze deles como escravo em Argel. Resgatado em 1754. É o único cativo da vila que a documentação nos deixa nomear.

O que veio depois não teve nada disso. Não teve canhões, nem nome, nem livro. Teve apenas uma vila, uma porta de igreja e uma longa aritmética de resgate. A glória durou uma tarde. A conta durou duzentos anos.

Comprar um homem de volta era um ofício. Cabia sobretudo aos trinitários, a ordem religiosa chegada a Lisboa em 1207, que organizava os grandes resgates gerais: juntava-se o dinheiro, mandava-se um religioso ao Norte de África e trazia-se de volta quem se conseguisse pagar. Em 1754, um desses resgates libertou 228 cativos portugueses de Argel. A maior parte era gente do mar, cinquenta e seis pescadores, quarenta e cinco marinheiros. Entre eles ia um homem da Ericeira: António Ferreira, quarenta e dois anos de idade, catorze deles passados como escravo. É o único cativo da vila que a documentação acessível nos deixa nomear.

Não teve canhões, nem nome, nem livro. Teve uma vila, uma porta de igreja e uma longa aritmética de resgate. A glória durou uma tarde; a conta durou duzentos anos.
FIG. 04Não teve canhões, nem nome, nem livro. Teve uma vila, uma porta de igreja e uma longa aritmética de resgate. A glória durou uma tarde; a conta durou duzentos anos.

Não foi o único. Em 1778, outro resgate trouxe onze homens da Ericeira, um capitão e dez pescadores, ao que tudo indica todos do mesmo barco, e todos com o mesmo tempo de cativeiro: treze anos. Treze anos. Um barco inteiro que saiu para o mar e não voltou, e que só uma geração depois alguém conseguiu resgatar.

E não eram casos isolados. Entre 1778 e 1810, mais de seiscentos portugueses foram feitos cativos pelo corso de Argel. Nos últimos anos, entre 1799 e 1810, os argelinos lançaram tudo o que tinham sobre a navegação portuguesa, de guerra, de comércio e de pesca. Chegaram a entrar pelo estuário do Tejo adentro, a atacar pescadores da Trafaria e da Caparica, à porta de Lisboa. Entre os barcos apresados continuavam a contar-se embarcações da Ericeira.

Em 1753 imprimiu-se em Lisboa uma carta vinda de Tunes: um marinheiro da Ericeira, cativo do outro lado do mar, contava o terramoto que abalara a cidade. Não sabemos o seu nome.
FIG. 05Em 1753 imprimiu-se em Lisboa uma carta vinda de Tunes: um marinheiro da Ericeira, cativo do outro lado do mar, contava o terramoto que abalara a cidade. Não sabemos o seu nome.

E havia vozes. Em 1753, imprimiu-se em Lisboa uma carta vinda de Tunes: um marinheiro da Ericeira, cativo do outro lado do mar, contava o terramoto que abalara aquela cidade no fim do ano anterior. Não sabemos o seu nome; o relato é anónimo, e era em Tunes que estava cativo, não em Argel. Mas ali está, em letra de forma, a voz de um homem da vila.

Quanto pesava tudo isto sobre a Ericeira, só os arquivos da terra o poderão dizer. Segundo a historiadora local Conceição Reis, os livros da paróquia guardavam registos de peditórios, coletas feitas para juntar o dinheiro do resgate dos pescadores capturados.

A trégua chegou em 1810; a paz, só a 14 de junho de 1813. O mar da Ericeira ainda havia de afogar os seus pescadores. Mas já não os vendia.
FIG. 06A trégua chegou em 1810; a paz, só a 14 de junho de 1813. O mar da Ericeira ainda havia de afogar os seus pescadores. Mas já não os vendia.

Dois séculos depois da batalha, a vila ainda perdia os seus homens para o mesmo mar. A trégua chegou a 6 de julho de 1810. A paz, essa, só foi assinada a 14 de junho de 1813.

Tarde demais para os catorze anos de António Ferreira. Tarde demais para os onze homens de um só barco. Tarde demais para os nomes que a paróquia guardou e que já não sabemos ler. O mar da Ericeira ainda havia de afogar os seus pescadores, por muitos anos. Mas já não os vendia.