À vista da Ericeira, depois de meses de mar desde Goa, os homens da nau julgaram-se enfim salvos: a terra erguia-se pela proa, quase ao alcance da voz, o vento amainara, e os corsários que os perseguiam tinham-se afastado por momentos.

Da vila largou então uma embarcação ao seu encontro. E o que ela trazia não era socorro.

Vinte e dois canhões contra dezassete navios e perto de cinco mil homens. O primeiro dia de combate durou cerca de onze horas, à vista da costa.
FIG. 02Vinte e dois canhões contra dezassete navios e perto de cinco mil homens. O primeiro dia de combate durou cerca de onze horas, à vista da costa.

A nau chamava-se «Nossa Senhora da Conceição». Partira de Goa em março de 1621, na carreira da Índia, com destino a Lisboa, e levava a bordo, segundo o relato de um dos que sobreviveram, entre seiscentas e oitocentas almas: marinheiros, soldados e passageiros, entre eles mulheres e crianças, que voltavam ao reino depois de uma vida inteira no Oriente. Perto já da costa portuguesa, foi cercada por dezassete navios corsários de Argel. A escolta que lhe fora prometida nunca apareceu.

Da vila saiu uma embarcação com ordens para que a nau se afastasse: o ancoradouro não dava abrigo naquela época. D. Luís pediu que ao menos levassem para terra as mulheres e as crianças. Recusaram.
FIG. 03Da vila saiu uma embarcação com ordens para que a nau se afastasse: o ancoradouro não dava abrigo naquela época. D. Luís pediu que ao menos levassem para terra as mulheres e as crianças. Recusaram.

Era um perigo novo. Desde 1606, quando o pirata holandês Simon Danser ensinou os argelinos a construir navios de alto-mar, as frotas da Barbária tinham deixado de ser uma ameaça apenas mediterrânica: com naus e patachos, alcançavam agora o Atlântico. Contra isso, Portugal mandara as naus da Índia tocar o continente à latitude dos trinta e nove graus, sensivelmente onde fica a Ericeira, a mesma vila que, trinta e seis anos antes, vira coroar-se nas suas ruas um falso rei. Ali, a norte das águas que os piratas costumavam vigiar, devia esperá-las a Armada da Costa para as conduzir a salvo até Lisboa. Não esperou ninguém.

Gravemente ferido numa perna, D. Luís de Sousa dirigiu a defesa apoiado sobre um caixote. Morreu três dias depois, em resultado dos ferimentos.
FIG. 04Gravemente ferido numa perna, D. Luís de Sousa dirigiu a defesa apoiado sobre um caixote. Morreu três dias depois, em resultado dos ferimentos.

Pouco depois da meia-noite de 8 de outubro, os vigias da «Conceição» começaram a distinguir vultos no escuro do mar. Na manhã seguinte rompeu o combate, e durou cerca de onze horas sem tréguas. De um lado, vinte e dois canhões. Do outro, dezassete navios e, segundo as fontes da época, perto de cinco mil homens, sob o comando de um almirante argelino a quem chamavam Tábaco-Arrais.

A 11 de outubro, o último navio corsário lançou-lhe artifícios de fogo. A «Conceição» ardeu até à linha de água e afundou-se com toda a riqueza que trazia da Índia.
FIG. 05A 11 de outubro, o último navio corsário lançou-lhe artifícios de fogo. A «Conceição» ardeu até à linha de água e afundou-se com toda a riqueza que trazia da Índia.

O capitão da nau era D. Luís de Sousa, que assumira o comando na ilha de Santa Helena, a meio da viagem, depois de o capitão original, Jerónimo Correia, ter adoecido e morrido. Gravemente ferido numa perna, D. Luís mandou que o deitassem sobre um caixote e dali, sem se poder levantar, continuou a dirigir a defesa. Vinte e dois canhões aguentaram onze horas.

Um soldado, João Carvalho Mascarenhas, sobreviveu a quatro anos de cativeiro em Argel. Em 1627 escreveu a única narrativa de testemunha ocular — a «Memorável Relação da Perda da Nau Conceição».
FIG. 06Um soldado, João Carvalho Mascarenhas, sobreviveu a quatro anos de cativeiro em Argel. Em 1627 escreveu a única narrativa de testemunha ocular — a «Memorável Relação da Perda da Nau Conceição».

Foi na manhã de 10 de outubro que a terra apareceu inteira pela proa. O fogo afrouxara, a Ericeira estava ali, e D. Luís tentou ancorar. Da vila saiu a tal embarcação. Trazia ordens categóricas: que a nau se afastasse para o largo, pois naquela época do ano o ancoradouro não dava abrigo. D. Luís pediu então que ao menos levassem para terra as mulheres, as crianças e as pedras preciosas. Os homens recusaram. Tinham ordem para não atracar à nau, e não atracaram. As razões exatas perderam-se. O que ficou foi o facto: o mar não vencera aquela gente; venceu-a a costa que tinham à vista. A terra recusou-os.

No dia 11, o combate recomeçou. O último navio da formação argelina passou a rasar a «Conceição» e lançou-lhe para dentro vários artifícios de fogo. As chamas alastraram, e a nau que resistira a dezassete navios ardeu até à linha de água e afundou-se com toda a riqueza que trazia da Índia. D. Luís de Sousa morreria três dias depois, a bordo da nau capitânia inimiga, dos ferimentos do combate. Os que ficaram vivos foram repartidos pelos navios corsários e levados para Argel, para serem vendidos como escravos.

A armada de D. António de Ataíde, que devia tê-los encontrado e escoltado ao largo das Berlengas, nunca chegou a aparecer. Só três anos mais tarde conseguiu Ataíde provar que fora o tempo a impedi-lo de acorrer, e assim limpar o seu nome. Quanto aos que foram levados, a maioria jamais foi resgatada. Segundo o próprio sobrevivente que deixou o relato, ao fim de cinco anos menos de quinze tinham voltado a casa. Os outros ficaram em Argel.

Esse sobrevivente chamava-se João Carvalho Mascarenhas. Soldado a bordo, passou cerca de quatro anos cativo e, resgatado por volta de 1626, pôs tudo por escrito: a «Memorável Relação da Perda da Nau Conceição», impressa em 1627. É a única voz de testemunha que nos resta. A relação sobreviveu. Os nomes dos que morreram em Argel, à vista de uma costa que os mandou para o largo, não.