A poucos quilómetros a sul da Ericeira, numa gruta junto a São Julião, na freguesia da Carvoeira, vivia um homem magro, de barba clara, filho de um pedreiro dos Açores. No verão de 1585, uma vila de pescadores ajoelhou-se diante dele e beijou-lhe a mão, chamando-lhe rei de Portugal.

Para se perceber como tal foi possível, é preciso recuar sete anos, até uma ferida que o reino inteiro se recusava a fechar. O homem da gruta não inventou a fé que se ergueu à sua volta. Limitou-se a dar-lhe um rosto.

A 4 de agosto de 1578, o jovem rei D. Sebastião desapareceu nas areias de Alcácer-Quibir, em África, à frente de um exército desfeito. Nunca lhe encontraram o corpo. Sucedeu-lhe o tio-avô, o Cardeal-Rei D. Henrique, já velho e sem descendência; quando este morreu, em janeiro de 1580, o trono ficou sem herdeiro claro. Filipe II de Espanha fez valer o seu direito e, em 1581, foi coroado Filipe I de Portugal. Em pouco mais de três anos, o país perdera o rei, perdera o sucessor e perdera a própria coroa; o reino passou a governar-se a partir de Madrid.

4 de agosto de 1578: o rei desaparece em Alcácer-Quibir. Nunca lhe encontraram o corpo.
FIG. 024 de agosto de 1578: o rei desaparece em Alcácer-Quibir. Nunca lhe encontraram o corpo.

De uma dor tão funda nasceu uma crença. Um rei sem corpo não tem campa onde se chore, e o que não se enterra não se perde de todo. Dizia a tradição que D. Sebastião não morrera: havia de regressar um dia, num dia de nevoeiro, para devolver a Portugal o que Portugal perdera. Chamaram-lhe sebastianismo. Era menos uma ideia do que uma esperança, e a esperança não pede provas, apenas um sinal.

O sinal chegou pela mão de Mateus Álvares. Nascera na Praia da Vitória, na ilha Terceira, filho de um pedreiro, sem uma gota de sangue nobre. Passara pela vida religiosa, de onde fugira, e acabara ermita numa gruta perto da Ericeira, conhecido apenas como «o Eremita». Era magro, de barba clara, e tinha mais ou menos a idade que o rei desaparecido teria, caso vivesse. O próprio corpo parecia conspirar com o desejo de toda a gente. As pessoas viam nele o que precisavam de ver. E um dia disse, em voz alta, aquilo que meia região ansiava por ouvir: que era ele o rei que voltara.

Magro, de barba clara, vivia como ermita. As pessoas viam nele o que precisavam de ver.
FIG. 03Magro, de barba clara, vivia como ermita. As pessoas viam nele o que precisavam de ver.

Acreditaram. Primeiro a vila, depois a região. E não se contentaram com um rei: deram-lhe um reino. O eremita montou uma corte, distribuiu cargos e títulos, mandou lavrar éditos régios, estendeu a mão para que lha beijassem. Casou com Ana Susana, filha de um lavrador local, e coroou-a rainha com uma coroa furtada à imagem de Nossa Senhora do Porto da Carvoeira, hoje Nossa Senhora do Ó. Num casario de pescadores ergueu-se assim um reino inteiro, feito de fé e de objetos roubados ao sagrado, governado por um homem que nascera para assentar pedra.

Durou semanas. A coroa filipina não podia tolerar um rei a mais, e menos ainda um rei saído do povo. Mateus terá reunido um pequeno exército, mal armado e desordenado, e conta-se que venceu algumas escaramuças antes de ser esmagado pelas tropas filipinas vindas de Lisboa, num recontro que a tradição situa junto à igreja de Nossa Senhora do Ó. Foi preso em Colares, a 12 de junho de 1585. Sob tortura, confessou ter-se servido da parecença com o morto.

Coroou rainha a filha de um lavrador, com uma coroa furtada a uma imagem religiosa.
FIG. 04Coroou rainha a filha de um lavrador, com uma coroa furtada a uma imagem religiosa.

No dia seguinte, 13 de junho de 1585, executaram-no. Cortaram-lhe a mão direita, a mesma que assinara os éditos do reino imaginário. Foi enforcado e esquartejado, e expuseram-lhe os restos como aviso a quem sonhasse repetir o gesto. O corpo do falso rei desfez-se em poucas horas. Com ele caíram os homens da sua maior confiança, e o sogro entre eles, enforcados no Alto da Forca, lugar que a Ericeira ainda hoje assim chama.

A crença, não. Mateus Álvares foi o segundo de vários falsos D. Sebastião que aquele tempo havia de conhecer: no ano anterior, em 1584, surgira já o «Rei de Penamacor»; depois dele viriam outros, como Gabriel de Espinosa, o «pasteleiro de Madrigal», e Marco Túlio Cattizzone, o «Sebastião de Veneza». E a Carvoeira não deixou morrer a memória dos seus. Diz-se que o «Caminho das Almas», uma Via Sacra traçada em 1779 na Carvoeira, que ainda hoje liga a ermida de São Julião ao cemitério de Nossa Senhora do Ó, foi aberto para encomendar as almas dos que tinham caído nas lutas em redor do falso rei. Ainda hoje se pode caminhar.

13 de junho de 1585: o falso rei é executado e exposto como aviso. A crença, essa, não morreu.
FIG. 0513 de junho de 1585: o falso rei é executado e exposto como aviso. A crença, essa, não morreu.

Três séculos e um quarto mais tarde, a mesma vila veria partir o seu último rei verdadeiro: foi da Ericeira que, a 5 de outubro de 1910, D. Manuel II embarcou para o exílio. Um homem que se fingiu rei e quis um trono; um rei a sério que o perdeu, na mesma terra à beira-mar.

E, ainda assim, a história recusou-se a terminar. Entre 1901 e 1902, um escritor ericeirense, Patrocínio Ribeiro (1882-1923), publicava num jornal de Mafra, em folhetim, um romance a que chamou O Rei da Ericeira, sobre a tragédia de Mateus Álvares. Deixou-o inacabado.

O dia de nevoeiro nunca chegou. Mas a vila à beira-mar continuou a contar a história do rei que tanto quis que, uma vez, chegou mesmo a inventar um. Trezentos anos depois, ainda o escrevia. E ainda não conseguia pôr-lhe fim.