Chamaram ao seu próprio porto «o pior de todos na nossa costa». E, na mesma frase, sem darem por isso, chamaram-lhe o quarto mais movimentado do Reino, logo a seguir a Lisboa, Porto e Setúbal.
Os homens que escreveram aquilo não tinham motivo para mentir sobre a sua própria terra. Em maio de 1844, reunidos em vereação extraordinária, os vereadores da Câmara da Ericeira sentaram-se a pedir socorro à Rainha, e, para o pedir, descreveram o seu porto com uma franqueza que ninguém usa para elogiar o que é seu. O porto mais perigoso do reino era, ao mesmo tempo, um dos mais cheios de comércio.
Hoje, a Ericeira é uma vila de surf e de verão, conhecida pelas ondas e pelos restaurantes de peixe. Custa imaginar que aquela enseada foi, em tempos, a quarta alfândega do Reino, com jurisdição que se estendia de Cascais à Figueira da Foz. E custa ainda mais aceitar o que lhe aconteceu: este porto não havia de morrer pelo mar que tanto temia, mas pelo abandono.

Houve um tempo em que valia a pena temê-lo, porque havia muito a perder. Em 1834, segundo um estudo do ICEA apresentado em 2011, com base no Arquivo Histórico Municipal de Mafra, fundearam na Ericeira 175 embarcações de comércio: rascas, caíques, iates, com os porões cheios de cereal, sobretudo milho, descarregado ali para abastecer o interior. A Ericeira não era uma terra de pescadores que de vez em quando comerciava: era, antes de tudo, um porto de carga.
O mesmo estudo cita o investigador António Bento Franco, a escrever em 1949: «nos tempos áureos do porto da Ericeira, até cerca de 1880, a importância comercial e industrial da Vila resultava do movimento do seu porto, como porto de cabotagem». Este é, já agora, o mesmo porto que outrora chegou a ver proclamar-se um falso rei: sempre foi uma vila virada para a água.

Mas a água ali nunca foi mansa. Em 1855, um segundo-tenente da Armada, Carlos Testa, enviado pelo Arsenal a inspeccionar o porto, descreveu-o sem rodeios: «uma pequena angra ou enseada, de forma quase semicircular, formada na costa desabrigada exposta aos ventos de Sudoeste e Noroeste», de fundo esparcelado, traída pela grande rebentação do mar. Um porto aberto, sem abrigo, onde o vento errado bastava para desfazer um barco contra a pedra.
Foi o que aconteceu. Em 1844, num só ano, deram-se ali três naufrágios. A Câmara não aguentou mais. Na petição que mandou a D. Maria II, os vereadores apontavam o dedo à falta que mais doía: a de «uma autoridade que possua conhecimentos de navegação e que regule o movimento das embarcações». Pediam pouco e pediam claro, alguém que soubesse do mar, que dissesse aos barcos quando entrar e quando sair, «uma pessoa idónea e inteligente para regular o movimento do porto». Pediam, em suma, um Capitão do Porto. E ficaram à espera da resposta da Coroa.

A resposta chegou a 10 de maio de 1845. A Rainha atendeu o pedido e nomeou o primeiro Capitão do Porto da Ericeira, Francisco José da Silva Ericeira, negociante da vila. A vila pedira meios, e recebeu um título sem soldo: a nomeação trazia inscrita uma condição, a de que o homem tomasse conta daquele porto perigoso «sem que por esta forma pudesse perceber vencimento algum do Estado». Autoridade, sim; salário, nenhum.
Daí em diante, o abandono foi-se somando a si próprio. A 24 de outubro de 1855, a Ericeira perdeu a sede de concelho, na mesma reforma administrativa liberal que, por esses anos, apagou do mapa dezenas de vilas antigas: dois lugares mortos pela mesma caneta. Depois veio o golpe que o estudo do ICEA considera o mais determinante de todos: em 1888, a Linha do Oeste chegou à costa. O comboio fazia, em horas e com segurança, o que a cabotagem fazia em dias e com risco. De um momento para o outro, o porto deixou de ter razão de existir.

Os números medem a velocidade da queda. Em 1860, entraram e saíram da Ericeira 192 embarcações de comércio. Em 1893, foram duas. O último navio que ali se construiu, o caíque S. José, foi lançado ao mar a 26 de agosto de 1875; doze anos depois, em maio de 1887, o Delegado Marítimo escrevia, por ofício, que «não existem no porto da Ericeira navios mercantes de vela ou vapor».
E os homens desapareceram com os barcos. Segundo o mesmo estudo, dos 253 pescadores activos em 1879 restavam, em 1891, apenas 53: em doze anos, quatro em cada cinco já lá não estavam.

Por essa altura, longe dali, nascia finalmente uma resposta ao problema que a Ericeira denunciara meio século antes. Em 1892, por Carta de Lei de 21 de abril, sob o patrocínio da Rainha D. Amélia, criava-se o Real Instituto de Socorros a Náufragos, fruto da indignação pública com as vidas que o mar levava sem que ninguém as fosse buscar. Era a tal autoridade do mar que os vereadores de 1844 tinham implorado.
Chegava com quase meio século de atraso. E chegava a um porto que, nesse mesmo ano, tinha ao todo dois barcos de comércio. O pior porto da nossa costa teve, enfim, quem o socorresse, quando já quase não havia nada para salvar.