Ainda era noite escura sobre a Ericeira quando, das ribas, um rapaz de vinte e três anos ouviu gritos a vir do mar.
Não se via nada. Só os gritos. Foi a única testemunha que a história viria a guardar.

Era o primeiro dia de maio de 1947. Segundo o testemunho que esse homem deixaria muitos anos depois, levantara-se de madrugada uma nortada que descreveria como «duma violência, duma coisa inaudita». Muitas embarcações da Ericeira e da vizinha Assenta, aldeia piscatória de frota própria, tinham saído a pescar para sul, e o vento apanhou-as ao largo. Antes de o dia terminar, seis homens estavam mortos e duas lanchas perdidas. Quase tudo o que se segue assenta na memória de um só homem.

A primeira perda veio com a própria tempestade. Conta o testemunho que foi a lancha Olinda, da Assenta, arrastada pela nortada até à entrada do porto da Ericeira. Mas a tripulação não tinha prática daquela barra, e tentou entrar de noite, às cegas. Morreram três homens. Não ficaram os nomes: o mar levou-os por inteiro, e a memória que chegou até nós não os guardou. Da Olinda só se voltaria a saber quando os destroços apareceram, mais tarde, ao largo, na direção do Cabo da Roca.

Veio o dia, e o dia trouxe a segunda. Das ribas, a vila viu uma lancha a navegar à bolina, contra o vento. Era a Nossa Senhora da Bonança. Das ribas, contou-se depois o que se tinha visto: a uma certa altura, a vela desapareceu de vista. Partiu-se a verga. O barco deixou de estar ali. Levou consigo três homens.

E é aqui, e só aqui, que os nomes existem, frágeis, suspensos de um único fio de memória. Segundo o testemunho, o arrais chamava-se António Apolinário, conhecido pela alcunha de «Cambaio da Marinha», companheiro de uma senhora a quem chamavam a «Emília da Franca», que alugava casas. Com ele iam o filho, de alcunha «Sabú», e um terceiro homem que ficou conhecido apenas como «Serafim da Coelha». O próprio homem que os recordava já não tinha a certeza de tudo: do arrais, dizia, «casado ou junto» com a tal Emília. São nomes que nos chegam assim, a tremer, sem papel que os confirme.

Houve, porém, um barco que viveu. Uma terceira lancha da Assenta soube da morte dos outros e teve o juízo de ficar fora, ao largo. «Se viessem cá para dentro, morriam», resumiria o testemunho. Quando rompeu o dia, o lanchão Januário Lucas, de regresso ao porto, viu o estado do mar, viu os assenteiros e meteu-os a bordo. O barco deles seguiu a reboque, «de refe», como diziam os pescadores, corruptela da palavra inglesa raft, jangada. Levaram-nos até Cascais. Quando tocaram a praia, o motor «deu o último suspiro de petróleo». Por um fio de combustível e de bom senso, esses voltaram para casa.
E aqui a história muda de natureza. Tudo o que leu até agora, os dois barcos, os seis mortos, os três nomes a tremer, não vem de um arquivo. Não há, que se saiba, registo paroquial, nem entrada no Diário do Governo, nem inquérito da capitania, nem uma linha de jornal da época. Tudo assenta numa entrevista dada em 2013 por um homem que, na madrugada do desastre, tinha vinte e três anos. Chamava-se José dos Santos Caré Júnior, nascera na Ericeira em 1924, e passaria a vida a ser o historiador da sua terra à beira-mar, guardando aquilo a que chamava um «calendário de destruições»: as datas de todos os naufrágios do porto. O testemunho foi recolhido pelo jornalista Francisco Esteves e publicado no Jornal de Mafra. A catástrofe não sobreviveu na pedra nem no papel. Sobreviveu numa pessoa.
Vale a pena deter-se nisto. Quase tudo o que aconteceu aos homens comuns, antes de haver quem o anotasse, perdeu-se exatamente assim: por ninguém ter perguntado a tempo. Os três da Olinda afundaram-se duas vezes, primeiro no mar, depois no esquecimento, porque ninguém que soubesse os seus nomes foi ouvido enquanto era tempo. Os três da Bonança escaparam a esse segundo naufrágio por uma única razão: um rapaz estava acordado.
Esse rapaz morreu em 2020. Levou consigo a voz, mas não levou os nomes: «Cambaio da Marinha», «Sabú», «Serafim da Coelha». É só por existirem nesta página que sobrevivem ao homem que os carregou. Naquela madrugada de maio, um rapaz de vinte e três anos levantou-se, foi às ribas e nunca mais deixou de recordar. O mar guardou os corpos; ele guardou os nomes; e a memória, também ela, é mortal. Esta é, talvez, a última vez que alguém segura o fio.