De noite, à entrada da Ponte do Diabo, uma ponte de um só arco no Barroso, uma mulher grávida que já perdera um filho esperava em silêncio pelo primeiro que passasse. Quem passasse não se atrevia a recusar: descia à beira do rio, trazia um pouco de água e deixava-a cair sobre o ventre dela, a batizar a criança que ainda não tinha nascido. As palavras eram estas, e o nome não se escolhia: «Se fores rapaz há-de ser Gervásio, / Se fores rapariga há-de ser Senhorinha».

Assim o escreveu Maria Lamas em As Mulheres do Meu País, publicado em fascículos entre 1948 e 1950. A mulher chegava a andar léguas até à ponte. Passava ali a noite com quem a acompanhava, e nenhum dos dois podia dizer uma palavra, ou tudo seria inútil. De madrugada começavam a passar trabalhadores e negociantes, e ela pedia ao primeiro que fosse padrinho. Se não passasse ninguém, voltaria outra vez. E em 2024 a Visão escrevia que a ponte continua a ser visitada por mulheres grávidas que perderam filhos.

Pintura da Ponte da Misarela, de um só arco sobre o Rabagão, entre os concelhos de Montalegre e Vieira do Minho, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0) (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 02Pintura da Ponte da Misarela, de um só arco sobre o Rabagão, entre os concelhos de Montalegre e Vieira do Minho, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0) (figuras genéricas, não retratos).

O nome no mapa é Ponte da Misarela. Tem um só arco, de cerca de treze metros, lançado entre dois grandes penedos numa garganta estreita, sobre o rio Rabagão, pouco antes de ele desaguar no Cávado. Por baixo, escreveu Pinho Leal, as águas despenham-se de catadupa em catadupa e fazem uma caldeira funda. De um lado fica Sidrós, no concelho de Montalegre; do outro, Frades, no de Vieira do Minho. É de origem medieval, refeita no princípio do século XIX.

Evocação pintada da lenda do Diabo da Misarela como a contavam um roteiro de viagem de 1865 e Pinho Leal em 1875: conta-se que um padre disfarçado aspergiu a ponte com um ramo de alecrim molhado em água benta, e o demónio sumiu-se, deixando no ar um vapor acre e um cheiro sufocante de enxofre, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0) (figura genérica, não retrato).
FIG. 03Evocação pintada da lenda do Diabo da Misarela como a contavam um roteiro de viagem de 1865 e Pinho Leal em 1875: conta-se que um padre disfarçado aspergiu a ponte com um ramo de alecrim molhado em água benta, e o demónio sumiu-se, deixando no ar um vapor acre e um cheiro sufocante de enxofre, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0) (figura genérica, não retrato).

O nome do Diabo tem a sua lenda. Conta-se que um malfeitor de além-Douro, perseguido pela justiça, chegou àquele abismo e ofereceu a alma a Satanás para o passar. O Diabo lançou-lhe uma ponte, e mal o homem chegou ao outro lado a ponte desapareceu. À hora da morte, o malfeitor confessou-o a um padre. O padre disfarçou-se de salteador, foi ao mesmo sítio e fez ao Diabo a mesma proposta. Passou, tirou um ramo de alecrim, molhou-o em água benta e aspergiu a ponte. O Diabo fugiu.

A lenda no Portugal antigo e moderno de Pinho Leal, em 1875: «Os povos circumvisinhos d'esta ponte, dizem que ella foi construida pelo diabo» (vol. V, p. 339; Internet Archive, domínio público).
FIG. 04A lenda no Portugal antigo e moderno de Pinho Leal, em 1875: «Os povos circumvisinhos d'esta ponte, dizem que ella foi construida pelo diabo» (vol. V, p. 339; Internet Archive, domínio público).

Já em 1865 um roteiro de viagem, o de João António Peres Abreu, contava a lenda assim, e rematava-a com uma frase seca: «A ponte ficou alli desde então». Em 1875, Pinho Leal, no Portugal Antigo e Moderno, escrevia que os povos vizinhos tinham a ponte por obra do Diabo, e deixava-o sumir-se num cheiro de pez, de resina e de enxofre, «e ficando de pé a ponte». Em 1882, Leite de Vasconcelos registava como «crença popular que o Diabo construiu muitas pontes»: a Misarela não era a única.

Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal, 1882: no Minho, quem passasse na ponte «não póde eximir-se de ser padrinho ou madrinha da futura creança»; e, mais abaixo, a ponte de Misarella entre as que o Diabo construiu (p. 80; Internet Archive, domínio público).
FIG. 05Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal, 1882: no Minho, quem passasse na ponte «não póde eximir-se de ser padrinho ou madrinha da futura creança»; e, mais abaixo, a ponte de Misarella entre as que o Diabo construiu (p. 80; Internet Archive, domínio público).

Nem o roteiro de 1865 nem Pinho Leal falam do batismo. Leite de Vasconcelos, no mesmo livro de 1882, descreve-o como costume do Minho, sem dizer de que ponte: a mulher grávida ia à meia-noite para a ponte, e quem ali passasse não podia escusar-se a ser padrinho ou madrinha da criança.

Evocação pintada da espera: a mulher passa a noite à entrada da ponte, em silêncio, com quem a acompanha, à espera do primeiro que passe (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Evocação pintada da espera: a mulher passa a noite à entrada da ponte, em silêncio, com quem a acompanha, à espera do primeiro que passe (figuras genéricas, não retratos).

Com o nome da Misarela, o rito aparece em 1916, na Revista Lusitana. Fernando Braga Barreiros escreve que a mulher que tivera uma criança morta, para que isso não se repetisse, devia ir à ponte com um púcaro, para a criança ainda no ventre ser batizada pela primeira pessoa que ali passasse, «nem que seja um pobre do fôrno», à meia-noite. O pobre do forno, explicava numa nota Leite de Vasconcelos, era o que chegava a pedir esmola quando se cozia o pão, e a quem não se podia negar um pedaço. Na mesma página vem outra versão do Diabo: fizera a ponte numa só noite, por uma aposta que perdera, e ainda lá se via uma pedra por pôr no seu lugar; e foi um padre que ia dizer missa quem o pôs em fuga, atirando-lhe uma laranja pela ponte adiante.

A ponte vista pela guerra: em 1829, W. F. P. Napier descreve-a como «uma ponte de um só arco alto», tão estreita que só passavam três pessoas lado a lado, e escreve que não estava cortada, mas defendida por algumas centenas de camponeses nos rochedos da outra margem (History of the War in the Peninsula, vol. II, p. 298; Internet Archive, domínio público).
FIG. 07A ponte vista pela guerra: em 1829, W. F. P. Napier descreve-a como «uma ponte de um só arco alto», tão estreita que só passavam três pessoas lado a lado, e escreve que não estava cortada, mas defendida por algumas centenas de camponeses nos rochedos da outra margem (History of the War in the Peninsula, vol. II, p. 298; Internet Archive, domínio público).

A hora muda de versão para versão: meia-noite em 1916, a noite inteira até à madrugada em Maria Lamas, o anoitecer noutras. Os nomes ficaram. Maria Lamas escreveu que a crença «explica a existência de numerosos Gervásios e Senhorinhas nos povoados daquelas redondezas».

Evocação pintada de maio de 1809: os camponeses não quiseram cortar a ponte; segundo Taveira, limitaram-se a destruir-lhe os parapeitos e a obstruí-la com grandes troncos e pedregulhos (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 08Evocação pintada de maio de 1809: os camponeses não quiseram cortar a ponte; segundo Taveira, limitaram-se a destruir-lhe os parapeitos e a obstruí-la com grandes troncos e pedregulhos (figuras genéricas, não retratos).

A ponte tem também um dia que ficou nos livros de guerra. A 16 de maio de 1809, o exército do marechal Soult, o mesmo que entrara no Porto a 29 de março, retirava de Portugal pelas serras. Chegou a uma torrente, a Misarela, que rasgava uma ravina funda. A ponte era tão estreita, escreveu W. F. P. Napier na sua história da Guerra Peninsular, que só passavam três pessoas a par. Não estava cortada. Algumas centenas de camponeses portugueses tinham-na entrincheirado e defendiam-na dos rochedos da outra margem, e só ao terceiro assalto o major Dulong a tomou.

O porquê, em português: «os paizanos tiveram repugnancia em destruir a ponte da Mizarella, porque era a chave das suas communicações entre o Minho e Traz-os-Montes, porque sabiam que depois lh'a fariam reconstruir sem lhes pagar» (A. P. Taveira, Estudo historico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal, 1898, p. 176) (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 09O porquê, em português: «os paizanos tiveram repugnancia em destruir a ponte da Mizarella, porque era a chave das suas communicações entre o Minho e Traz-os-Montes, porque sabiam que depois lh'a fariam reconstruir sem lhes pagar» (A. P. Taveira, Estudo historico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal, 1898, p. 176) (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Para Napier, não a cortaram porque, contentes por se verem livres dos franceses, os camponeses não quiseram travar-lhes a retirada, e menos ainda destruir a ponte: era a chave de todas as comunicações e de todos os grandes mercados de Entre Douro e Minho. Teria de ser refeita, e eles sabiam bem, escreve ele, que o trabalho e o tempo lhes seriam pedidos sem paga. Limitaram-se, acrescentou em 1898 o historiador A. P. Taveira, a destruir as guardas e a atulhá-la com troncos e penedos.

Evocação pintada: um púcaro de barro negro na guarda da ponte, ao amanhecer. A Câmara de Montalegre dá o rito por quase extinto; ainda há quem lá vá.
FIG. 10Evocação pintada: um púcaro de barro negro na guarda da ponte, ao amanhecer. A Câmara de Montalegre dá o rito por quase extinto; ainda há quem lá vá.

A ponte que, diz a lenda, um padre tirou ao Diabo ficou de pé nesse dia porque quem dependia dela não a deixou cortar. Era a estrada dos mercados. Por ela passavam, de madrugada, os trabalhadores e negociantes a quem as mulheres pediam que fossem padrinhos.

E o batismo? A Câmara de Montalegre fala de «um ritual, hoje praticamente extinto». Quase extinto, portanto, mas, segundo a Visão, ainda há quem lá vá. E há anos que, no princípio de julho, a Junta de Freguesia de Ferral organiza em Sidrós uma festa com as lendas encenadas à noite, junto à ponte.

Em dezembro de 1993, o padre António Fontes, de Cambezes do Rio, neto de uma Senhorinha, correu as aldeias à volta à procura de Senhorinhas e Gervásios batizados na ponte, para os juntar num encontro. «Compareceram perto de trinta», contou ele.

Fontes12 referências
  • Maria Lamas, As Mulheres do Meu País, publicado em fascículos de 1948 a 1950 (edição fac-similada, Biblioteca Nacional Digital).
  • João António Peres Abreu, Roteiro do viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865, verbete «Montalegre» (Biblioteca Nacional Digital).
  • Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. V, Lisboa, 1875, verbetes «MISARÉLLA» e «MISARELLA ou REGAVÃO» (archive.org).
  • J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, 1882 (archive.org).
  • Fernando Braga Barreiros, «Tradições populares de Barroso (Concelho de Montalegre)», Revista Lusitana, vol. XIX, 1916 (archive.org).
  • W. F. P. Napier, History of the War in the Peninsula, vol. II, Londres (archive.org).
  • A. P. Taveira, Estudo historico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal, 1898 (Biblioteca Nacional Digital).
  • Património Cultural, SIPA, ficha «Ponte de Mizarela / Ponte dos Frades».
  • Alexandre da Silva Marques, Lugares de memória: a Ponte da Misarela, dissertação de mestrado, Universidade do Minho, 2014.
  • Expresso, «A ponte da fertilidade... e do diabo», 2016.
  • Visão, série «Os lugares desta história», sobre a Ponte da Mizarela, 2024.
  • Câmara Municipal de Montalegre, folheto «Ponte da Misarela» e notícia da festa de 2025; Diário do Minho, 2025.