A aldeia do Freixo, no Marco de Canaveses, foi feita, em grande parte, com as pedras de uma cidade romana: as casas, os currais, os muros dos campos. Durante séculos, a aldeia chamou àquelas ruínas outra coisa. Uma mesquita. Uma capela dos mouros.

Em 1979, foi essa capela dos mouros que travou uma fábrica.

Pintura de uma secretária de câmara municipal em 1979, com um pedido dobrado por abrir.
FIG. 02Pintura de uma secretária de câmara municipal em 1979, com um pedido dobrado por abrir.

O presidente da Câmara, Amadeu Marramaque Encarnação, tinha em cima da mesa um pedido para construir uma fábrica têxtil no Freixo, num terreno onde se dizia estar enterrada uma «capela dos mouros». Não a quis licenciar sem ter a certeza de que não se destruía memória. Quem o conta é o arqueólogo Lino Tavares Dias, que foi chamado a ver o sítio e que o escavaria durante mais de trinta anos.

Pintura de um muro do Freixo feito de grandes pedras esquadriadas, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).
FIG. 03Pintura de um muro do Freixo feito de grandes pedras esquadriadas, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).

A cidade chamava-se Tongobriga. Foi erguida entre o fim do século I e o início do século II, sobre um castro mais antigo, no vale do Tâmega, perto do Douro e rio abaixo de Chaves, de cuja ponte romana já aqui falámos. O Freixo deu-lhe o nome errado durante séculos, mas nunca se esqueceu de onde ela estava.

Pintura de um pároco de aldeia a escrever, em 1758 (figura genérica, não retrato).
FIG. 04Pintura de um pároco de aldeia a escrever, em 1758 (figura genérica, não retrato).

O nome errado tem data. Em 1758, o pároco de Santa Maria do Freixo escreveu que a terra tinha sido «cidade de mouros», da qual ainda se viam «alicerses de muros» e «parte de huma mesquita, que mostra haver sido caza de seos falsos deuzes». O edifício tinha abóbadas, construídas pelos romanos, que se aguentaram em parte até ao século XIII. No século XVI era conhecido como Ermida de Nossa Senhora a Velha; depois foi a Mesquita, e por fim a Capela dos Mouros.

Pintura de umas mãos a voltar para a luz de um candeeiro uma pequena ara de granito gasta.
FIG. 05Pintura de umas mãos a voltar para a luz de um candeeiro uma pequena ara de granito gasta.

O nome verdadeiro voltou numa pedra pequena. Em 1882, uma ara de granito do Freixo, dedicada ao génio protetor do lugar, chegou às mãos de Francisco Martins Sarmento, o arqueólogo de Guimarães. Numa carta a um amigo do Marco, o médico José de Barros, contou que, «depois de a estudar e mirar, e tornar a mirar», julgava ler ali o antigo nome do Freixo, que seria «ONCOBRICA». Mandou uma fotografia a Berlim, a Emil Hübner, o professor alemão que publicava as inscrições latinas da Hispânia: «veremos se elle concorda com esta leitura».

Cerâmica romana encontrada no Freixo, desenhada do natural por João de Almeida para O Minho Pittoresco (1886). Domínio público.
FIG. 06Cerâmica romana encontrada no Freixo, desenhada do natural por João de Almeida para O Minho Pittoresco (1886). Domínio público.

Sarmento duvidava que antes do O houvesse outra letra. Havia, mas estava gasta: Hübner leu ali um L, e a dúvida durou décadas. Hoje lê-se T: Tongobriga. No século VI, uma paróquia sueva ainda se chamava «Tongobria»; foi a última vez, que se saiba, que o nome ficou escrito.

Pintura de restos de muros romanos num campo do Freixo, no século XIX, com uma camponesa e um rapaz a passar.
FIG. 07Pintura de restos de muros romanos num campo do Freixo, no século XIX, com uma camponesa e um rapaz a passar.

Em abril de 1882, Sarmento escreveu ao mesmo médico sobre as lendas do concelho. A mania do povo de que tudo o que fora dos mouros estava cheio de ouro era, dizia, providencial: por causa dela, nenhum sinal antigo, nem sequer num penedo perdido no ermo, era desconhecido dos vizinhos. «Portanto, devaneie o povo á sua vontade, mas vá-nos dizendo onde estão as cousas.»

Pintura de uma feira da Quaresma no Freixo, no século XIX, com barracas de colmo sobre pilares de granito.
FIG. 08Pintura de uma feira da Quaresma no Freixo, no século XIX, com barracas de colmo sobre pilares de granito.

Noventa e sete anos depois dessa carta, a capela dos mouros disse a um presidente da Câmara onde estavam as cousas.

Pintura das escavações no Freixo em 1980 (figuras genéricas).
FIG. 09Pintura das escavações no Freixo em 1980 (figuras genéricas).

As sondagens começaram em janeiro de 1980. A 20 de agosto, a escavação começou precisamente no sítio a que a aldeia chamava capela dos mouros. Eram as termas públicas de Tongobriga.

Pintura das ruínas romanas de Tongobriga, no Freixo, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).
FIG. 10Pintura das ruínas romanas de Tongobriga, no Freixo, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).

Tinham uma piscina ao ar livre, salas quentes e frias e fornalhas, e ocupavam o lugar de um balneário mais antigo, do tempo do castro. Por baixo da igreja paroquial de Santa Maria do Freixo apareceu outra surpresa: um grande edifício do fim do Império, com um mosaico de cores, que os arqueólogos leem como uma basílica dos primeiros cristãos. O sítio foi classificado como monumento nacional em 1986.

Pintura da igreja de Santa Maria do Freixo, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).
FIG. 11Pintura da igreja de Santa Maria do Freixo, a partir de uma fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal (CC BY 2.0).

Ao lado das termas apareceu o forum: um recinto fechado por um muro, com uma só entrada, de perto de dez mil metros quadrados e 68,5 metros de largura. Os arqueólogos interpretam-no como um grande mercado, onde ficaram vestígios de armazéns de madeira.

E o Freixo tinha uma feira. Em 1886, José Augusto Vieira, que percorria o Minho para o livro O Minho Pittoresco, viu as barracas, de telhado de colmo, armadas o ano inteiro sobre pilares de granito, para uma feira da Quaresma que durava dois dias. A feira documenta-se desde 1518, quando as freiras que a administravam já não sabiam há quanto tempo se fazia: havia, diziam, «dez trinta quarenta cinquenta sessenta oitenta cento duzentos anos até agora».

Segundo a equipa da Área Arqueológica do Freixo, até ao século XVII essa feira montava-se junto da velha ermida, dentro do recinto que hoje se conhece como o forum. Se a leitura está certa, o mercado dos romanos e a feira da aldeia ocuparam o mesmo chão. Desde quando, a equipa não o afirma: «Não sabemos. Mas suspeitamos.»

No século XVIII, conta a mesma equipa, a feira ainda trazia mercadores da Galiza e de Castela. Depois de fechar o convento que a administrava e de os terrenos onde se fazia irem a leilão, em 1905 foi transferida para a sede do concelho, e acabou.

Desde 2024, o 20 de agosto, o dia em que se começou a escavar, chama-se Dia de Tongobriga.

Em agosto de 2025, estavam marcados concertos para as nove da noite dentro do forum: o recinto com uma só entrada.

Fontes16 referências
  • Francisco Martins Sarmento, cartas ao Dr. José de Barros da Silva Carneiro, em J. Leite de Vasconcellos (ed.), Cartas de Francisco Martins Sarmento, publicadas e annotadas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1901 (separata de O Archeologo Português, VI), pp. 5-6 e 23. Exemplar digitalizado no Internet Archive.
  • José Augusto Vieira, O Minho Pittoresco, t. II, Lisboa, 1886, pp. 496-497, com a gravura «Ceramica romana encontrada em Freixo», desenho de João de Almeida. Exemplar digitalizado no Internet Archive.
  • José d'Encarnação, Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal, entrada «Genius Toncobricensium», pp. 195-196.
  • José d'Encarnação, «Tongobriga. Breves Reflexões», Biblos, n.s., III (2005), pp. 331-335.
  • Lino Tavares Dias, «Tongobriga. Do século de Augusto ao obscurantismo…», Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património, XIII (2014), pp. 171-181.
  • Fernanda Magalhães, «The Roman houses of Tongobriga: architecture and cultural change», Arqueología de la Arquitectura, 19 (2022), e125. Licença CC BY 4.0.
  • José María Vallejo Ruiz e M. Dolores Rodríguez, «De dioses y hombres: teónimos, grupos humanos y topónimos en el occidente hispano romano», Palaeohispanica, 25 (2025), pp. 581-600.
  • Sociedade Martins Sarmento, «Tesouros sarmentinos (154): Ara ao Genivs Tongobrigensis», blogue Pedra Formosa, 1 de julho de 2006.
  • H. F. James et al., «Strontium isotope and concentration data for cremated human bones at Tongobriga, Portugal», IsoArcH, 7 de julho de 2026.
  • Área Arqueológica do Freixo / Património Cultural, I.P., tongobriga.gov.pt: «Conhecer», «O Nome», «O Forum», «As termas públicas», «O fim das termas», «Um edifício singular», «A aldeia do Freixo», «A Feira da Quaresma», «A privatização».
  • Património Cultural, I.P., ficha da Área Arqueológica do Freixo/Tongobriga (bilheteira).
  • Brown University, Joukowsky Institute, «Tongobriga: History of excavations».
  • Município do Marco de Canaveses, «Feira da Quaresma», 3 e 4 de março de 2023.
  • Maria José Oliveira, «Tongobriga, cidade descoberta», Público, 7 de março de 1999.
  • «Escola Profissional de Arqueologia suspensa por falta de alunos», TÂMEGA.TV, 21 de julho de 2023; «Escola de Arqueologia no Marco fecha de vez», Novum Canal, 18 de julho de 2023.
  • «Marco de Canaveses celebra hoje o "Dia de Tongobriga"», TÂMEGA.TV, 20 de agosto de 2025; «Dia de Tongobriga assinala segunda edição a 20 de agosto de 2025», Vale do Sousa TV, 19 de agosto de 2025; «"Dia de Tongobriga" evoca primeiras escavações arqueológicas», Marcoense FM, 11 de agosto de 2025.