Descobrimentos · episódio 13
A malagueta que se come em Portugal é uma pimenta americana. O nome não é. Já se escrevia em Itália no princípio do século XIII, para uma semente africana a que os italianos, conta João de Barros, chamavam grão do paraíso, porque não sabiam onde nascia.
A palavra atravessou três continentes. Pelo meio, as caravelas portuguesas foram dar à costa de onde a semente vinha, o paraíso ganhou morada, e foi com esse grão africano que Colombo, nas Antilhas, mediu a especiaria que lá encontrou.

Em 1214 houve uma festa em Treviso. Fez-se um castelo fingido, defendido por damas, e os cavaleiros assaltaram-no armados de flores, águas de cheiro e especiarias. Entre as especiarias, o cronista que descreveu a festa enumera, em latim, «melegetis». Nem o conde de Ficalho nem o inglês Hanbury, os dois estudiosos que no século XIX lhe seguiram o rasto, conheciam menção mais antiga da palavra.
Por volta de 1300, um herbário ilustrado italiano, da tradição da escola de Salerno, desenhou a planta e escreveu-lhe a legenda: «Nux sciarca, sive Meleghetta». A noz que tem grãos por dentro. A malagueta é a semente de uma planta africana da família do gengibre: pequena, escura, aromática e muito ardente. O grão servia de remédio e de tempero, e entrava, com o gengibre e a canela, no hipocraz, o vinho especiado da época.

Chegava pelo deserto. Escreve Barros que a malagueta que havia em Itália vinha pela mão de mercadores muçulmanos, que atravessavam a região de Mandinga e o Saara até um porto na costa de Trípoli, a que chamavam Mundi Barca. Ali a embarcavam os italianos. O veneziano Cadamosto, que navegou ao serviço do Infante, também o deixou escrito: os mercadores do deserto levavam cobre e prata a Tombuctu e às terras dos negros, «donde trazem ouro e malagueta».
Os italianos compravam-na, mas não sabiam de onde vinha. Por isso, diz Barros, e por ser especiaria tão preciosa, chamaram-lhe «Grána paradisi».

Sobre a origem da própria palavra, as obras de referência não estão de acordo. Para uns é italiana, diminutivo de um nome do sorgo; Ficalho julgava mais provável um nome africano trazido com a semente; Hanbury pensava no reino de Melle, o Mali. O Priberam escreve, simplesmente, «etimologia duvidosa».
As caravelas portuguesas, costa abaixo, foram dar com o grão pelo mar. Um dos capitães do Infante, Diogo Gomes, conta que estava parado com as suas caravelas para lá do rio Grande, por causa das correntes, quando a gente da terra veio em almadias trazer panos de algodão, dentes de elefante e «uma quarta de malagueta em grão e nas suas cascas tal qual cresce, com o que muito me alegrei».

No início da década de 1460, as caravelas de Pêro de Sintra chegaram à Mata de Santa Maria, perto do cabo Mesurado. É aí, escreve Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo, que começa o resgate da malagueta, «que em latim se chama grany paradisy», e esse comércio dura quarenta léguas ao longo da costa.
Mais adiante há um rio que deve o nome a esse comércio. A gente daquela terra vinha resgatar a malagueta aos navios, e ali havia-a muito boa e em boa quantidade. Trazia-a em cestos, coisa que em todo o resto da costa não se costumava fazer. Os portugueses chamaram-lhe rio dos Cestos.

O paraíso dos italianos tinha, afinal, uma praia, um rio e uma maneira de carregar.
O preço não ficou parado. Antes, escreve Duarte Pacheco, comprava-se um alqueire de malagueta por uma manilha de latão de meio arrátel; no seu tempo, custava cinco e seis manilhas. No mesmo passo, Duarte Pacheco regista que naquela costa se resgatavam também escravos.

No fim da década de 1460, D. Afonso V arrendou o comércio da Guiné a um mercador de Lisboa, Fernão Gomes, que, segundo a Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, terá obtido também, por mais cem mil réis por ano, o exclusivo da malagueta, normalmente monopólio da Coroa.
A costa tomou o nome do grão: costa da Malagueta. Os navegadores de outras nações que lá chegaram depois adotaram a designação portuguesa da costa ou os seus equivalentes, Côte des grains, Grain Coast, e numa carta holandesa de 1716 lê-se «De Greyn Kust». É a costa da atual Libéria. O rio Cestos ainda lá corre, com o nome que os portugueses lhe deram. O cabo Mesurado e o cabo Palmas também lá estão, com os nomes do Esmeraldo.

Entre os que andaram por aquela costa com os portugueses estava um genovês que casara com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, o capitão de Porto Santo: Cristóvão Colombo.
Em janeiro de 1493, nas ilhas do outro lado do oceano, o diário da sua primeira viagem, tal como Las Casas o copiou, volta duas vezes à malagueta. A 1 de janeiro, a especiaria daquela terra é muita e «vale mais do que pimenta e manegueta». A 9, o Almirante diz que viu três «sereias», menos formosas do que as pintam, e que já vira outras na Guiné, «en la costa de la Manegueta». A 15, a pimenta da terra já tem nome: há muito «ají, que é a sua pimenta», que vale mais do que a pimenta, e toda a gente a come.

A medida a que Colombo recorreu, numa ilha das Antilhas, foi o grão da costa de África.
As pimentas americanas atravessaram depressa o oceano. Em 1564 e 1565, o botânico flamengo Clusius viu várias espécies cultivadas em Lisboa e nos arredores, por hortelãos e donas de casa; chamavam-lhes então, segundo Ficalho, «pimenta do Brasil». Para os geneticistas que estudaram mais de dez mil amostras de sementes, as rotas portuguesas foram provavelmente parte do caminho da pimenta americana pelo mundo; outros estudos dão esse papel a portugueses e espanhóis juntos.

Em 1813, o dicionário de Morais regista a palavra nos dois sentidos ao mesmo tempo. «Malagueta» é a droga aromática «conhecida nas officinas», as boticas, pelo nome latino de grão do paraíso; mas na entrada «pimenta» a malagueta já está entre os «frutosinhos do Brasil, que queimão». Em 1878, Ficalho escrevia que a malagueta antiga estava rara no comércio, que o nome passara para o fruto pequeno e muito ardente da pimenta americana, e que era «geralmente ignorado, que durante seculos designou uma planta totalmente diversa». Como e quando se deu a troca, não se sabe ao certo.
O frasco de malagueta que está na mesa é de uma planta americana. O nome é de outra: uma semente africana que os italianos diziam do paraíso, porque não sabiam onde nascia, e que junto de um rio da atual Libéria a gente da terra trazia aos navios portugueses em cestos.
Fontes25 referências
- Conde de Ficalho, Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas. I. Memoria sobre a Malagueta, Lisboa, Typographia da Academia, 1878 (Project Gutenberg).
- João de Barros, Da Ásia, Década I, liv. II, cap. II (archive.org).
- Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, ed. Raphael Eduardo de Azevedo Basto, Lisboa, Imprensa Nacional (Biblioteca Nacional Digital, domínio público); ed. Damião Peres, Academia Portuguesa da História (archive.org).
- Diogo Gomes, As relações do descobrimento da Guiné…, versão do latim de Gabriel Pereira (archive.org).
- Alvise Cadamosto, Navegações, em Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, Academia Real das Sciencias (archive.org).
- Martín Fernández de Navarrete, Colección de los viages y descubrimientos, t. I (archive.org); Diario de a bordo del primer viaje de Cristóbal Colón (Wikisource).
- Flückiger e Hanbury, Pharmacographia, 2.ª ed., Londres (archive.org).
- Fr. Luís de Sousa, Annaes de elrei Dom João Terceiro, ed. Alexandre Herculano (archive.org).
- António de Morais Silva, Diccionario da lingua portugueza, 2.ª ed., t. II, Lisboa, 1813 (archive.org).
- Gabriel Soares de Sousa, Tratado descriptivo do Brazil em 1587 (archive.org).
- Tractatus de herbis, British Library, ms. Egerton 747, f. 68r (Wikimedia Commons, domínio público).
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- Leonhart Fuchs, New Kreuterbuch, Basileia, 1543 (Wikimedia Commons, domínio público).
- Gerard van Keulen, carta da Greynkust, Amesterdão, 1716 (Atlas of Mutual Heritage, Wikimedia Commons, domínio público).
- Planisfério dito «de Cantino», 1502, Biblioteca Estense, Módena (Wikimedia Commons, domínio público).
- História Geral de Cabo Verde. Corpo documental, vol. I (archive.org).
- Andreas Massing, «Mapping the Malagueta Coast», History in Africa 36, 2009.
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- C. F. M. dos Santos, F. Bracht e G. C. da Conceição, «Das virtudes da ardência», Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas 8:1, 2013.
- W. H. Eshbaugh, «The genus Capsicum in Africa», Bothalia 14, 1983.
- Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH, «Fernão Gomes».
- Encyclopaedia Britannica, «Grain Coast», «Christopher Columbus».
- Wikipedia em português, «Fernão Gomes da Mina».
- Dicionário Priberam, «malagueta», «piripíri»; Infopédia, «malagueta», «Costa da Malagueta»; Trésor de la langue française informatisé (CNRTL), «maniguette»; Real Academia Española, Diccionario de la lengua española, «malagueta».
