O único papa português mandou acrescentar uns aposentos ao palácio de Viterbo para poder estudar sossegado.
Foi ali que o teto desabou sobre ele.
Retiraram-no vivo dos escombros. Morreu poucos dias depois, a 20 de maio de 1277.
Chamava-se Pedro Julião. Nasceu em Lisboa, no princípio do século XIII, e é o único português que alguma vez se sentou na cadeira de São Pedro. Governou pouco mais de oito meses, com o nome de João XXI. Mas a fama que atravessou a Europa não lhe veio do papado: veio dos livros que corriam com outro nome, Pedro Hispano, e que se liam em todas as universidades do continente.
Se é que era ele.
Deixou também, na lista dos papas, um lugar vazio que lá continua até hoje.
Quem foi Pedro Julião, o único papa português
A parte documentada da vida é sólida e ninguém a discute. Foi deão da Sé de Lisboa. Foi eleito arcebispo de Braga, cargo que nunca chegou a ocupar. Foi cardeal-bispo de Túsculo. Em setembro de 1276, um conclave reunido em Viterbo elegeu-o papa.

Depois há o médico. As fontes dão-no como médico de formação e como médico particular do papa Gregório X, na corte pontifícia. Estudou em Paris, embora alguns historiadores defendam que a formação se fez em Montpellier.
As «Summulae Logicales», o manual de lógica da Europa
Agora os livros. As Summulae Logicales foram o manual de lógica das universidades europeias durante séculos: era por ali que se aprendia a construir um argumento, a separar uma inferência válida de uma falsa, a desarmar uma armadilha de linguagem. João Buridano, um dos maiores lógicos do seu tempo, pegou numa versão do Tractatus e fez dela o texto de base dos seus comentários.
E não era só lógica. O Thesaurus Pauperum, o Tesouro dos Pobres, reunia remédios ao alcance de quem não tinha meios para pagar um médico. O De oculo tratava da vista.
Conservam-se hoje cerca de quatrocentos e cinquenta manuscritos, com pelo menos trinta e sete obras diferentes atribuídas a Petrus Hispanus (a forma latina do nome): lógica e filosofia, teologia, zoologia, medicina, alquimia. Outras seis obras perderam-se pelo caminho. E, entre os textos desaparecidos, matemática, física, embriogénese, cosmologia.
Os oito meses de pontificado de João XXI
Do pontificado ficaram poucos atos documentados. Foi em boa parte dominado pelo cardeal Giovanni Gaetano Orsini, que viria a ser o papa Nicolau III, e a quem João XXI entregou os assuntos correntes da Sé Apostólica: as fontes descrevem um papa mais dado ao estudo do que ao expediente.
Um ato, ainda assim, ficou. O Concílio de Lião aprovara pouco antes uma regra para as eleições papais: os cardeais ficavam fechados, isolados, até haver papa, e se a decisão demorasse iam-lhes cortando progressivamente a comida e o vinho. Coube a João XXI desfazê-la. As fontes discutem se a revogou ou se apenas confirmou a anulação já feita pelo antecessor; em todo o caso, foi no seu pontificado que a regra caiu.

Como morreu o Papa João XXI em Viterbo
Um homem mais interessado em estudar do que em governar mandou acrescentar ao palácio um sítio onde pudesse trabalhar sem ser interrompido. Era para isso que os aposentos existiam.
Do que se seguiu há hoje uma leitura clínica. Um artigo publicado em 2021 no Journal of Religion and Health lê a sua morte como um caso precoce de síndrome de esmagamento: aquilo que mata um corpo alguns dias depois de libertado do peso que o prendia.
Na época leu-se de outra maneira, e não de uma só. A morte súbita marcou o imaginário medieval, e os cronistas dividiram-se: uns viram nela um castigo pela conduta do papa, outros lamentaram o prejuízo que adveio para a cristandade com a interrupção de um pontificado promissor.
Foi sepultado na catedral de Viterbo, onde o túmulo mudou de sítio mais de uma vez; a sepultura mais recente foi inaugurada em junho de 2025, numa capela junto ao altar-mor.
E é aqui que a história muda de rumo.
Pedro Hispano e o Papa João XXI eram o mesmo homem?
A Stanford Encyclopedia of Philosophy, uma das obras de referência da filosofia académica, abre a entrada sobre Pedro Hispano com três palavras: identidade exata desconhecida. E regista que a investigação atual retomou a hipótese de o autor da lógica ter sido um frade dominicano, e não o papa João XXI.

José Meirinhos, medievalista da Universidade do Porto, é ainda mais claro: nenhum documento da época estabelece, de modo inquestionável, a ligação entre o Pedro Hispano que escreveu a lógica, o Pedro Hispano que exerceu medicina em Siena e o mestre Pedro Julião, deão da Sé de Lisboa. O que parece incontestável, escreve, é que o deão de Lisboa foi o papa João XXI. A associação do papa com o lógico ou com o médico de Siena é plausível mas indocumentada.
A proposta dele é que sejam três pessoas diferentes, e que só a última, o deão de Lisboa, tenha sido papa.
Dos séculos XII e XIII conhecem-se outros sete ou oito indivíduos, espanhóis e portugueses, com o mesmo nome: Petrus Hispanus.
E é por causa desta identificação, só dela, que se diz que ele teria sido o único papa da história a ser médico.
Já aqui falámos de Pedro Nunes, cujo nome ficou colado ao que inventou. A escala graduada de uma craveira ainda hoje se chama nónio. Com Pedro Hispano deu-se o contrário: a obra é imensa, e o nome pode não ser de um homem só.
Dante inscreveu-lhe o nome no Paraíso. No Céu do Sol, entre os grandes sábios, pela boca de São Boaventura: e Pietro Mangiadore e Pietro Spano, / lo qual giù luce in dodici libelli. Pedro Hispano, o que lá em baixo brilha em doze livrinhos.

Não o nomeia como papa. Nomeia-o pelos livros.
Falta contar o lugar vazio.
Porque não existe nenhum Papa João XX
Não há, nem nunca houve, um papa João XX.
O último João antes de Pedro Julião chamou-se João XIX, e o seguinte devia ter sido o vinte. Mas Pedro Julião achava a lista errada, e por uma razão de leitor. No século XI, alguém tinha lido a dobrar uma entrada do Liber Pontificalis e feito dois papas de um só: onde houvera um João XIV, passaram a constar dois. Pedro Julião deu esse segundo por bom. E se esse João tinha existido, então cada João que veio depois tinha um número a menos do que lhe competia.
Corrigiu a conta. Saltou o vinte, e chamou-se João XXI.
Um erro de leitura, emendado por um homem que passara a vida a ler.
No século XIX percebeu-se que o segundo João XIV nunca existira, e os papas voltaram a figurar com os números que usaram em vida. O vinte ficou onde estava: vazio. Na lista dos papas, entre João XIX e João XXI, não está ninguém.
Um homem cujo nome talvez esconda três pessoas deixou, na contagem dos papas, um lugar para um homem que nunca existiu.