No castelo de Almourol, numa ilha do Tejo, vivia, conta um romance português, um gigante que guardava uma dama tão bela que os cavaleiros se batiam por ela. O romance é o Palmeirim de Inglaterra, de Francisco de Moraes, impresso por volta de 1544; uns sessenta anos depois, no Quixote, o padre que queima os livros do fidalgo pega nele e manda guardá-lo. E ainda antes disso, no fim do século XVI, Gaspar Frutuoso deitou o mesmo gigante no Atlântico: morto, levado por uma cheia do Tejo até ao mar, fez-se, escreve ele, a ilha de São Miguel.
O castelo é verdadeiro. Ergue-se num ilhéu escarpado do Tejo, perto de Tancos, no concelho de Vila Nova da Barquinha, e foi dos templários. O gigante e a dama, esses, têm autor e capítulo. Saíram de um livro, e com ele viajaram para longe.

A cena está no capítulo LIII. O cavaleiro Florendos, desviado por uma tempestade para a costa da Lusitânia, desembarca na «cidade d'Alta Rocha, que depois chamarom Lixboa». Num dia de abril, sobe o Tejo e vê, num pequeno ilhéu no meio da água, um «castelo roqueiro tam bem assentado e guerreiro que era muito pera ver». À porta está um escudo de mármore com a imagem de uma mulher e umas letras brancas: Miraguarda.

Florendos acha que o nome diz verdade, porque a senhora era «muito pera ver e muito mais pera se guardarem dela». O narrador corrige-o. As letras tinham sido postas pelo «gigante Almourol, senhor daquele castelo de quem depois tomou o nome», e queriam dizer outra coisa: a imagem era para se mirar, e o gigante para se guardarem dele. Mira, guarda.

A dama, conta o romance, é filha de um conde da corte de Espanha. Eram tantos os cavaleiros que a disputavam que o pai a mandou para Almourol, à guarda do gigante, até ser tempo de a casar. Florendos vence o gigante e, a pedido dela, poupa-lhe a vida. Depois fica ali muito tempo, a guardar o escudo com a imagem de Miraguarda e a bater-se com todos os cavaleiros que chegam.

O gigante foi depois aos Açores. Gaspar Frutuoso, para descrever a ilha de São Miguel nas Saudades da Terra, desenhou-a como o gigante Almourol deitado no mar. Conta que, morto, o enterraram ao longo do Tejo, junto do castelo, porque dentro não cabia. Uma cheia levou-lhe o corpo rio abaixo, por diante de Lisboa e de Belém, até ao mar, e encalhou junto às Formigas e fez-se ilha. A cabeça é o morro do Nordeste; a barba, a Achada Grande; o pé esquerdo, escreve, era «um sítio que agora chamam as Sete-Cidades». A mulher do gigante, a giganta Cardiga, viera antes, noutra cheia, e fizera-se a ilha de Santa Maria.

Frutuoso tinha uma razão para a figura: Gonçalo Velho, que ele dá como comendador de Almourol, fora o primeiro capitão das duas ilhas. E Frutuoso não engana ninguém: a história é o que «alguns mais antigos escreveram, ou, por melhor dizer, fingiram».

O livro, entretanto, correu mundo. A primeira edição com data saiu em Toledo, em 1547 e 1548, numa tradução castelhana sem o nome do autor português, e daí passou ao francês, ao italiano e, em 1596, ao inglês. Por a edição castelhana ser mais antiga do que a portuguesa então conhecida, o bibliófilo Vicente Salvá chegou a dá-lo, em 1826, a outro autor. A resposta mais firme veio de Inglaterra, em 1904: William Edward Purser concluiu que o texto castelhano era uma tradução pouco fiel do português. O livro é de Moraes.

No capítulo 6 do Quixote, publicado em 1605, o padre e o barbeiro escolhem na biblioteca do fidalgo os livros para a fogueira. O Palmerín de Oliva vai para o fogo. O de Inglaterra fica. O padre dá duas razões: o livro «por sí es muy bueno», e «es fama que le compuso un discreto rey de Portugal». Era o que se dizia; desde muito cedo correu que o autor seria D. João III, ou D. João II. E acrescenta que «todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonísimas y de grande artificio». É um dos poucos livros que o padre salva do fogo, ao lado do Amadís de Gaula.

Falta o nome. O romance diz que o castelo tomou o nome do gigante. Frutuoso já hesitava: o castelo «que tomou o nome dele, ou ele o do castelo». A resposta está numa pedra. Sobre a porta do castelo, uma inscrição data as obras da era de 1209, o nosso 1171, e nomeia o mestre templário Gualdim Pais, o mesmo que mandara erguer o castelo de Tomar. E lá está o nome, com a grafia do tempo: Almourel, ou Almoirel, segundo a leitura de David Lopes. Quase quatro séculos antes do romance, o castelo já se chamava assim. Foi Moraes quem deu ao gigante o nome do castelo.
Do romance, a história passou a lenda. Em 1873, no Portugal antigo e moderno, Pinho Leal contou o enredo do Palmeirim entre as «tradições cavalheirescas» do castelo, e mandou quem quisesse conhecer as «lendas» de Almourol ler a crónica de Palmeirim. A história ainda corre. A página da câmara de Vila Nova da Barquinha sobre o castelo publicou-a como «Lenda de assalto ao Castelo», quase palavra por palavra como Pinho Leal a resumira, e algures entre 1873 e hoje, Palmeirim, o herói que dá nome ao livro, passou a gigante: lia-se lá «o gigante Palmeirim de Inglaterra».
No Quixote, o padre manda que aquele livro «se guarde y se conserve como a cosa única». Da primeira edição portuguesa conhece-se hoje um único exemplar, que só nos anos 2000 foi identificado como tal. Está guardado em Toledo, na Biblioteca del Cigarral del Carmen.
Fontes18 referências
- Francisco de Moraes, Palmeirim de Inglaterra, edição crítica em Margarida Alpalhão, O amor nos livros de cavalarias. O Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes: edição e estudo, tese de doutoramento, FCSH, Universidade Nova de Lisboa (RUN).
- Aurelio Vargas Díaz-Toledo, «Introducción» a Palmerín de Ingalaterra. Libro I, Centro de Estudios Cervantinos (Internet Archive, Wayback Machine).
- Federica Zoppi, recensão a Palmerín de Inglaterra (Libro II), ed. Aurelio Vargas Díaz-Toledo, Historias Fingidas, n.º 8.
- Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, I, cap. 6, edição de Francisco Rico, Centro Virtual Cervantes, Instituto Cervantes; texto também em Project Gutenberg.
- Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro IV, cap. XXXVII, edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada (Universidade dos Açores); transcrição em Almanaque Açoriano.
- Augusto Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. 1, s.v. «Almourol» (archive.org).
- David Lopes, «Toponímia árabe de Portugal», Revista Lusitana, vol. 24 (archive.org).
- A Tradição, Serpa, vols. 3 e 4 (archive.org).
- Património Cultural, ficha «Castelo de Almourol».
- Diário do Governo, n.º 136, 23 de junho de 1910 (Diário da República).
- «Ruinas do castello d'Almorôl, sobre o Tejo», litografia de Franco segundo o Conde de Mello (Biblioteca Nacional Digital, domínio público).
- Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, página «Castelo de Almourol», secção «Lendas» (Arquivo.pt).
- Fernando Freire, «Lendas de Almourol», Médio Tejo.
- Causa Real, «Lenda de Almourol e Cardiga» (Arquivo.pt).
- Universo de Almourol, Universitat de València, ficha «Palmeirim de Inglaterra I-II».
- Índice geral das Rimas de Camões de 1598, CIEP, Genebra.
- Inscrição de Almourol, fotografia de Paulo Juntas, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
- Wikipedia, «Castelo de Almourol», «Palmeirim de Inglaterra», «Saudades da Terra», «Gonçalo Velho Cabral», «Don Quixote».
