No castelo de Almourol, numa ilha do Tejo, vivia, conta um romance português, um gigante que guardava uma dama tão bela que os cavaleiros se batiam por ela. O romance é o Palmeirim de Inglaterra, de Francisco de Moraes, impresso por volta de 1544; uns sessenta anos depois, no Quixote, o padre que queima os livros do fidalgo pega nele e manda guardá-lo. E ainda antes disso, no fim do século XVI, Gaspar Frutuoso deitou o mesmo gigante no Atlântico: morto, levado por uma cheia do Tejo até ao mar, fez-se, escreve ele, a ilha de São Miguel.

O castelo é verdadeiro. Ergue-se num ilhéu escarpado do Tejo, perto de Tancos, no concelho de Vila Nova da Barquinha, e foi dos templários. O gigante e a dama, esses, têm autor e capítulo. Saíram de um livro, e com ele viajaram para longe.

O rosto da primeira edição do Quixote, saída em Madrid em 1605: é no capítulo 6 que o padre manda guardar o Palmeirim de Inglaterra (Wikimedia Commons, domínio público).
FIG. 02O rosto da primeira edição do Quixote, saída em Madrid em 1605: é no capítulo 6 que o padre manda guardar o Palmeirim de Inglaterra (Wikimedia Commons, domínio público).

A cena está no capítulo LIII. O cavaleiro Florendos, desviado por uma tempestade para a costa da Lusitânia, desembarca na «cidade d'Alta Rocha, que depois chamarom Lixboa». Num dia de abril, sobe o Tejo e vê, num pequeno ilhéu no meio da água, um «castelo roqueiro tam bem assentado e guerreiro que era muito pera ver». À porta está um escudo de mármore com a imagem de uma mulher e umas letras brancas: Miraguarda.

Evocação pintada do capítulo LIII do romance: o cavaleiro Florendos, à porta do castelo, diante do escudo de mármore com a imagem de Miraguarda que o gigante Almourol ali mandara pôr (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 03Evocação pintada do capítulo LIII do romance: o cavaleiro Florendos, à porta do castelo, diante do escudo de mármore com a imagem de Miraguarda que o gigante Almourol ali mandara pôr (figuras genéricas, não retratos).

Florendos acha que o nome diz verdade, porque a senhora era «muito pera ver e muito mais pera se guardarem dela». O narrador corrige-o. As letras tinham sido postas pelo «gigante Almourol, senhor daquele castelo de quem depois tomou o nome», e queriam dizer outra coisa: a imagem era para se mirar, e o gigante para se guardarem dele. Mira, guarda.

Evocação pintada de uma cena do Quixote: entre os livros do fidalgo que vão para o fogo, o padre manda que o Palmeirim de Inglaterra «se guarde y se conserve como a cosa única» (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 04Evocação pintada de uma cena do Quixote: entre os livros do fidalgo que vão para o fogo, o padre manda que o Palmeirim de Inglaterra «se guarde y se conserve como a cosa única» (figuras genéricas, não retratos).

A dama, conta o romance, é filha de um conde da corte de Espanha. Eram tantos os cavaleiros que a disputavam que o pai a mandou para Almourol, à guarda do gigante, até ser tempo de a casar. Florendos vence o gigante e, a pedido dela, poupa-lhe a vida. Depois fica ali muito tempo, a guardar o escudo com a imagem de Miraguarda e a bater-se com todos os cavaleiros que chegam.

Evocação pintada de Miraguarda, a dama do Palmeirim de Inglaterra, à janela do castelo de Almourol enquanto os cavaleiros se batem lá em baixo, junto ao rio, como conta o romance de Francisco de Moraes (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Evocação pintada de Miraguarda, a dama do Palmeirim de Inglaterra, à janela do castelo de Almourol enquanto os cavaleiros se batem lá em baixo, junto ao rio, como conta o romance de Francisco de Moraes (figuras genéricas, não retratos).

O gigante foi depois aos Açores. Gaspar Frutuoso, para descrever a ilha de São Miguel nas Saudades da Terra, desenhou-a como o gigante Almourol deitado no mar. Conta que, morto, o enterraram ao longo do Tejo, junto do castelo, porque dentro não cabia. Uma cheia levou-lhe o corpo rio abaixo, por diante de Lisboa e de Belém, até ao mar, e encalhou junto às Formigas e fez-se ilha. A cabeça é o morro do Nordeste; a barba, a Achada Grande; o pé esquerdo, escreve, era «um sítio que agora chamam as Sete-Cidades». A mulher do gigante, a giganta Cardiga, viera antes, noutra cheia, e fizera-se a ilha de Santa Maria.

Evocação pintada das obras de 1171 em Almourol: a pedra posta sobre a porta data-as da era de 1209 e já dá nome ao castelo, quase quatro séculos antes do romance (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Evocação pintada das obras de 1171 em Almourol: a pedra posta sobre a porta data-as da era de 1209 e já dá nome ao castelo, quase quatro séculos antes do romance (figuras genéricas, não retratos).

Frutuoso tinha uma razão para a figura: Gonçalo Velho, que ele dá como comendador de Almourol, fora o primeiro capitão das duas ilhas. E Frutuoso não engana ninguém: a história é o que «alguns mais antigos escreveram, ou, por melhor dizer, fingiram».

Pintura de Miraguarda, a dama que, no romance, o pai mandou guardar no castelo de Almourol para acabar com os duelos que a sua beleza causava na corte (figura genérica, não retrato).
FIG. 07Pintura de Miraguarda, a dama que, no romance, o pai mandou guardar no castelo de Almourol para acabar com os duelos que a sua beleza causava na corte (figura genérica, não retrato).

O livro, entretanto, correu mundo. A primeira edição com data saiu em Toledo, em 1547 e 1548, numa tradução castelhana sem o nome do autor português, e daí passou ao francês, ao italiano e, em 1596, ao inglês. Por a edição castelhana ser mais antiga do que a portuguesa então conhecida, o bibliófilo Vicente Salvá chegou a dá-lo, em 1826, a outro autor. A resposta mais firme veio de Inglaterra, em 1904: William Edward Purser concluiu que o texto castelhano era uma tradução pouco fiel do português. O livro é de Moraes.

As ruínas do castelo de Almourol numa litografia do século XIX, copiada do natural pelo Conde de Mello e litografada por Franco, quando o castelo ainda não tinha as ameias regulares que hoje se lhe veem (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 08As ruínas do castelo de Almourol numa litografia do século XIX, copiada do natural pelo Conde de Mello e litografada por Franco, quando o castelo ainda não tinha as ameias regulares que hoje se lhe veem (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

No capítulo 6 do Quixote, publicado em 1605, o padre e o barbeiro escolhem na biblioteca do fidalgo os livros para a fogueira. O Palmerín de Oliva vai para o fogo. O de Inglaterra fica. O padre dá duas razões: o livro «por sí es muy bueno», e «es fama que le compuso un discreto rey de Portugal». Era o que se dizia; desde muito cedo correu que o autor seria D. João III, ou D. João II. E acrescenta que «todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonísimas y de grande artificio». É um dos poucos livros que o padre salva do fogo, ao lado do Amadís de Gaula.

Pintura do castelo de Almourol como hoje se vê do Tejo, com o coroamento de ameias do restauro do século XIX, a partir de uma fotografia real de Jules Verne Times Two (CC BY-SA 4.0).
FIG. 09Pintura do castelo de Almourol como hoje se vê do Tejo, com o coroamento de ameias do restauro do século XIX, a partir de uma fotografia real de Jules Verne Times Two (CC BY-SA 4.0).

Falta o nome. O romance diz que o castelo tomou o nome do gigante. Frutuoso já hesitava: o castelo «que tomou o nome dele, ou ele o do castelo». A resposta está numa pedra. Sobre a porta do castelo, uma inscrição data as obras da era de 1209, o nosso 1171, e nomeia o mestre templário Gualdim Pais, o mesmo que mandara erguer o castelo de Tomar. E lá está o nome, com a grafia do tempo: Almourel, ou Almoirel, segundo a leitura de David Lopes. Quase quatro séculos antes do romance, o castelo já se chamava assim. Foi Moraes quem deu ao gigante o nome do castelo.

Do romance, a história passou a lenda. Em 1873, no Portugal antigo e moderno, Pinho Leal contou o enredo do Palmeirim entre as «tradições cavalheirescas» do castelo, e mandou quem quisesse conhecer as «lendas» de Almourol ler a crónica de Palmeirim. A história ainda corre. A página da câmara de Vila Nova da Barquinha sobre o castelo publicou-a como «Lenda de assalto ao Castelo», quase palavra por palavra como Pinho Leal a resumira, e algures entre 1873 e hoje, Palmeirim, o herói que dá nome ao livro, passou a gigante: lia-se lá «o gigante Palmeirim de Inglaterra».

No Quixote, o padre manda que aquele livro «se guarde y se conserve como a cosa única». Da primeira edição portuguesa conhece-se hoje um único exemplar, que só nos anos 2000 foi identificado como tal. Está guardado em Toledo, na Biblioteca del Cigarral del Carmen.

Fontes18 referências
  • Francisco de Moraes, Palmeirim de Inglaterra, edição crítica em Margarida Alpalhão, O amor nos livros de cavalarias. O Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes: edição e estudo, tese de doutoramento, FCSH, Universidade Nova de Lisboa (RUN).
  • Aurelio Vargas Díaz-Toledo, «Introducción» a Palmerín de Ingalaterra. Libro I, Centro de Estudios Cervantinos (Internet Archive, Wayback Machine).
  • Federica Zoppi, recensão a Palmerín de Inglaterra (Libro II), ed. Aurelio Vargas Díaz-Toledo, Historias Fingidas, n.º 8.
  • Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, I, cap. 6, edição de Francisco Rico, Centro Virtual Cervantes, Instituto Cervantes; texto também em Project Gutenberg.
  • Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro IV, cap. XXXVII, edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada (Universidade dos Açores); transcrição em Almanaque Açoriano.
  • Augusto Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. 1, s.v. «Almourol» (archive.org).
  • David Lopes, «Toponímia árabe de Portugal», Revista Lusitana, vol. 24 (archive.org).
  • A Tradição, Serpa, vols. 3 e 4 (archive.org).
  • Património Cultural, ficha «Castelo de Almourol».
  • Diário do Governo, n.º 136, 23 de junho de 1910 (Diário da República).
  • «Ruinas do castello d'Almorôl, sobre o Tejo», litografia de Franco segundo o Conde de Mello (Biblioteca Nacional Digital, domínio público).
  • Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, página «Castelo de Almourol», secção «Lendas» (Arquivo.pt).
  • Fernando Freire, «Lendas de Almourol», Médio Tejo.
  • Causa Real, «Lenda de Almourol e Cardiga» (Arquivo.pt).
  • Universo de Almourol, Universitat de València, ficha «Palmeirim de Inglaterra I-II».
  • Índice geral das Rimas de Camões de 1598, CIEP, Genebra.
  • Inscrição de Almourol, fotografia de Paulo Juntas, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
  • Wikipedia, «Castelo de Almourol», «Palmeirim de Inglaterra», «Saudades da Terra», «Gonçalo Velho Cabral», «Don Quixote».