O amargo da água tónica vem da quinina. Antes de a encontrarem, em 1820, dois químicos de Paris foram procurar um erro num ensaio escrito em Lisboa.
Encontraram o erro, e encontraram a quinina. E escreveram que o autor desse ensaio, um médico da Armada portuguesa, tinha sido o primeiro a obter a cinchonina.

Chamava-se Bernardino António Gomes. Nasceu em Paredes de Coura, em 1768, formou-se em Medicina em Coimbra e foi médico da Armada; esteve no Brasil, a estudar plantas que curavam. Em 1810 apresentou à Academia Real das Ciências de Lisboa o estudo de uns cristais brancos, finos como fios, tirados da casca da quina. A historiadora da farmácia Maria Guilherme Semedo e os seus colegas da Universidade de Coimbra chamam hoje a essa substância o primeiro alcaloide da quina.

A história começou num hospital. Gomes servia nos hospitais militar e da Marinha quando recebeu ordens das secretarias de Estado para experimentar nas febres umas cascas vindas do Brasil com o nome de quina. As árvores da quina verdadeira cresciam nos Andes, em terras da coroa espanhola, e a casca comprava-se cara; havia toda a vantagem em encontrar outra. Algumas das cascas brasileiras curavam bem as febres intermitentes. Mas duas espécies verdadeiras de quina, que se tinham achado no Rio de Janeiro, quase nada curavam. Notou-o, escreveu, «com pezar e admiração».

Pensou que a química havia de explicar a diferença. Se todas as cascas que curavam tinham alguma coisa em comum, essa coisa devia faltar às que não curavam.

Não partiu do zero. Em Edimburgo, o médico escocês Andrew Duncan tinha anunciado na quina um princípio novo e dera-lhe um nome, «cinchonin», mas, segundo Gomes, nunca o conseguira separar dos outros. Gomes ficou com o nome, em português, «cinchonino», e deixou escrito a quem o devia. Confessava, «em honra e gloria do Doutor Duncan», que a prova dada pelo escocês, um precipitado que o álcool voltava a dissolver, lhe tinha servido «de bussola».

Com essa bússola trabalhou a casca: água, potassa, álcool, e outra vez água. No fundo ficaram, nas palavras dele, «finissimos, e mui pequenos cristaes brancos filiformes».

Descreveu-os como quem os tinha na mão. Esfregados entre os dedos, desfaziam-se num pó branco finíssimo, como pó de colofónia. Não tinham sabor nem cheiro. Postos à chama, derretiam e ardiam «com chama clara e branca». Da quina chamada de Huánuco saíam em abundância, e de cor prateada.

O líquido que sobrava também o surpreendeu. Deixado a evaporar ao ar, ao fim de dias ficava amargo e cheirava a água de flor de laranjeira e de canela. Gomes pôs um ponto de exclamação na frase e deixou a pergunta impressa: «Donde provirá o agradavel cheiro de flor de larangeira e de canella…?»

Concluiu que os cristais eram um princípio vegetal diferente de todos os conhecidos, e que nele estava a virtude da boa quina contra as febres. Numa coisa enganou-se. Julgou que a substância não era ácida nem alcalina, e atribuiu o pouco de alcalino que lhe via a restos da potassa. No tempo dele, ainda não se sabia que as plantas tinham bases.

O ensaio saiu primeiro em inglês, em Edimburgo, em 1811. Em Lisboa só foi impresso em 1812, nas Memórias da Academia, porque a guerra tinha atrasado o tomo. Em Paris, chegou aos químicos pela mão do célebre Vauquelin, e Thénard resumiu o processo no seu Tratado de Química.

Foi aí que o leram Joseph Pelletier e Joseph Caventou, dois farmacêuticos de Paris. Em 1820, os dois já sabiam que as bases vegetais, a que hoje chamamos alcaloides, costumavam ser a parte ativa das plantas. Se a substância de Gomes curava as febres e não era alcalina, perguntaram-se se não haveria um erro no fim da preparação. O primeiro objetivo, escreveram, era examinar «la matière cristallisable indiquée par M. Gomès dans le quinquina gris». Para a obter, seguiram o processo de Gomes.

Era uma base. E ao lado dela, na mesma casca, havia outra, mais preciosa, a que chamaram quinina. O trabalho foi lido na Academia das Ciências de Paris em 1820.

Ficava uma questão de nome. As bases já conhecidas acabavam em «ine», e os dois propuseram mudar «cinchonin» para «cinchonine». Contaram que, «par respect pour les droits de M. Gomès», por respeito pelos direitos dele, não tinham feito a mudança quando leram o trabalho à Academia. Foram os comissários da Academia que passaram por cima dessa delicadeza. Em português, o cinchonino passou a cinchonina.

Nas últimas páginas, Pelletier e Caventou escreveram: «Enfin M. le Dr Gomès, qui, le premier, a obtenu la cinchonine, quoiqu'il n'ait pas connu sa nature alcaline…»

A quinina passou a tratar as febres intermitentes e, quando se conheceu a causa da malária, tornou-se o tratamento preferido contra ela, até chegarem os antimaláricos sintéticos. A cinchonina também combate a malária, mas com menos eficácia. Pelletier escreveu em 1823 que ele e Caventou nunca tinham reivindicado a descoberta da cinchonina, e que tinham citado Gomes, que não conheciam, com todo o empenho.

Em Edimburgo, Duncan quis fazer valer a sua parte e escreveu a Pelletier. Admitia que não tinha isolado o princípio, só provado que existia e dado-lhe o nome. E copiou do ensaio de Lisboa, palavra por palavra, a frase portuguesa da bússola.

Bernardino António Gomes morreu em Lisboa a 13 de janeiro de 1823. A carta de Duncan está datada de 16 de janeiro, e diz do médico português que lhe tinha concedido tudo «avec une candeur extrême».



Fontes9 referências
- Bernardino António Gomes, «Ensaio sobre o Cinchonino, e sobre sua influencia na virtude da quina, e d'outras cascas», Memorias de Mathematica e Phisica da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tomo III, parte 1, Lisboa, 1812 (Biodiversity Heritage Library / Internet Archive: archive.org).
- P.-J. Pelletier e J.-B. Caventou, «Recherches chimiques sur les quinquinas», Annales de chimie et de physique, tomo 15, 1820 (Wellcome Collection / Internet Archive: archive.org).
- J. Pelletier, «Note sur la découverte de la cinchonine», com a carta de Andrew Duncan, Journal de pharmacie et des sciences accessoires, tomo 9, 1823 (archive.org).
- [Bernardino António Gomes, filho], Noticia da vida e trabalhos scientificos do medico Bernardino Antonio Gomes, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1857 (Wellcome Collection / Internet Archive: archive.org).
- Maria Guilherme Semedo, Bernardino António Gomes (1768-1823): a quina e o isolamento da cinchonina, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020 (doi.org).
- Maria Guilherme Semedo, João Rui Pita e Ana Leonor Pereira, «Investigação científica em rede de Portugal para a Europa: o caso da descoberta da cinchonina (1810)», História da Ciência e Ensino: construindo interfaces, volume especial, 2023 (revistas.pucsp.br).
- Maria Guilherme Semedo e João Rui Pita, «L'isolement de la cinchonine par Bernardino António Gomes (1768-1823) et l'importance de la science française dans la diffusion de sa découverte», Revue d'histoire de la pharmacie, 2020 (persee.fr).
- Revista da Armada, 1972, sobre o monumento do Largo Doutor Bernardino António Gomes (Pai) (marinha.pt).
- Code of Federal Regulations (EUA), título 21, secção 172.575, «Quinine» (ecfr.gov).
