Uma cavalariça de pedra e ferro, nova, no Campo de Santana: em fevereiro de 1901, noticiava O Século, tinha mais de uma dezena de burros, e o sangue desses animais dava o soro contra a peste, a difteria e o tétano.
Os burros eram do Instituto Bacteriológico. Fundara-o um madeirense de 29 anos, Luís da Câmara Pestana, a quem Robert Koch viria a responder por carta. Nascera de uma conta de viagens: a das crianças mordidas que o Estado mandava a Paris.

Em março de 1886, três crianças mordidas, com receio de raiva, partiram de Lisboa para Paris, por iniciativa da rainha D. Maria Pia, para serem tratadas no laboratório de Pasteur. Duas foram acompanhadas por familiares, um tio e um pai, e ficaram no hotel Gay-Lussac, ao pé do laboratório. Foi o começo de uma prática que o Estado manteve durante anos: só entre janeiro e setembro de 1892 receberam tratamento em Paris 73 doentes.

Um médico português tinha ido aprender o método. Câmara Pestana, cirurgião do Hospital de São José, passou quase todo o ano de 1891 em Paris, em missão oficial, e no Instituto Pasteur aprendeu a vacina contra a raiva.

O decreto de 29 de dezembro de 1892, que criou o Instituto Bacteriológico de Lisboa, fazia a conta em voz alta: a instalação e a manutenção sairiam da mesma verba que pagava as viagens, o sustento e o tratamento dos doentes enviados a Paris, e haveria «diminuição na despeza que se fazia com estes enfermos, e que tem crescido de anno para anno». O Instituto começou em duas salas de um pavilhão do Hospital de São José. Em janeiro de 1893 já recebia ali os mordidos: vacina todos os dias, durante pelo menos quinze dias.

Um ano e tal depois, o laboratório teve de dizer uma coisa difícil. Na primavera de 1894 houve em Lisboa uma epidemia febril benigna, quase sem mortes, e os clínicos discutiam se era cólera. O governo encarregou Pestana da análise bacteriológica. A 9 de maio, o Diário do Governo publicava a conclusão: o vibrião que ele encontrara, e que encontrara também nas águas de consumo da capital, não era o que Koch descrevera como causa da cólera asiática.

Pestana não ficou à espera. Mandou culturas e fotografias dos bacilos a Koch, na Alemanha, e a bacteriologistas de Berlim, Londres e Paris. Entre 9 de maio e 15 de junho recebeu oito cartas, que se leram na Sociedade das Ciências Médicas e saíram no jornal da sociedade. Segundo a historiadora da ciência Alexandra Marques, Koch respondeu que, pela descrição da cultura, lhe parecia «não ser cholera asiatico»; Pfeiffer, que recebeu uma cultura, também não viu nela um vibrião de cólera. O governo espanhol enviou a Lisboa um médico, Federico Montaldo, para acompanhar o estudo, e Montaldo levou fotografias do bacilo. Ricardo Jorge, o médico do Porto, chamou-lhe «vibrião lisbonense de Pestana».

Quando chegou, nesse outono, a notícia do soro contra a difteria, anunciado por Roux em Budapeste, a rainha D. Amélia deu ao Instituto os primeiros cavalos, vindos da Coudelaria Real de Alter do Chão. Mas era o burro que Pestana preferia. Podia comprar-se por menos, e a 8 de novembro de 1894 já havia um no parque do Instituto, para lhe tirarem sangue. O médico francês Émile Duhourcau, que visitou o Instituto em 1895, escreveu que Pestana recorria de bom grado ao burro para obter o soro da difteria, e que o Instituto tinha vários, de boa raça. Em 1895 o Instituto abriu o serviço de soros e passou a chamar-se «Real», em homenagem à rainha.

Em 1899, quando a peste chegou ao Porto, Ricardo Jorge pediu a Pestana ajuda para a confirmar no laboratório, e os dois trocaram amostras e cartas. Em setembro, Pestana entrou na comissão internacional de médicos formada para avaliar soros e vacinas contra a peste. Numa fotografia da comissão, atribuída ao portuense Aurélio Paz dos Reis, está sentado ao lado de Albert Calmette e de Ricardo Jorge. Pestana recebera, a 5 de setembro, autorização para preparar a vacina de Haffkine; a 23 de outubro estava pronta, de graça para os municípios e os pobres, e a 900 réis nas farmácias.

Pestana morreu a 15 de novembro de 1899, com 36 anos, da peste que fora estudar ao Porto; presumiu-se que a apanhara numa autópsia. Conta O Occidente que, já a morrer, ditou uma carta à rainha D. Amélia a pedir que continuasse a proteger o Instituto e a recomendar-lhe os companheiros de trabalho. A 30 de novembro, Aníbal Bettencourt, o assistente que ele escolhera em 1892, foi nomeado diretor.
Na primavera de 1900, o Instituto mudou-se para os edifícios novos do Campo de Santana, que Pestana planeara. No Campo de Santana, a cavalariça de pedra e ferro tinha os burros.
Foi com a vacina contra a raiva que o Instituto começou a receber doentes, em janeiro de 1893. Era o único serviço que ainda prestava quando fechou, em outubro de 2008, mais de um século depois, e a vacina continuou noutro hospital.
Fontes7 referências
- Alexandra Marques, O Instituto Bacteriológico Câmara Pestana: ciência médica e cuidados de saúde (1892-1930), tese de doutoramento, Universidade de Évora, 2019.
- Alexandra Marques, «Instituto Bacteriológico Câmara Pestana», Connecting Portuguese History, 2024.
- Maria Antónia Pires de Almeida, «Pestana, Luís da Câmara», Dicionário CIUHCT, 2023.
- Ana Pereira, «Anotação sobre a Colecção de Fotografia do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana», ALIX, Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, 2024.
- O Occidente, n.º 752, 20 de novembro de 1899, p. 1, «Chronica Occidental» (Hemeroteca Digital de Lisboa).
- Público/Lusa, «Instituto Bacteriológico Câmara Pestana fecha portas», 12 de outubro de 2008.
- Textos citados por Marques: relatório de Eduardo Burnay (1889); decreto de 29 de dezembro de 1892; O Século (1893, 1894, 1901); Émile Duhourcau, Revue des Pyrénées, 1896; Augusto Rocha, Coimbra Médica, 1899; ofício de João Ferraz de Macedo, 11 de novembro de 1899.
