Em salões de Londres, brindava-se a um vinho branco e fresco a que chamavam «hock português». Ninguém perguntava de que vale tinha vindo. Nem o que tinha acontecido a quem o fez.
Esse vinho vinha de Bucelas, um vale de vinha a norte de Lisboa, hoje uma freguesia do concelho de Loures. A vinha ali é mais velha do que a guerra: remonta, ao que se crê, ao tempo dos romanos, e já na Inglaterra isabelina se bebia o branco daquela região. Há até quem veja nele o «Charneco» que Shakespeare menciona em Henrique VI, pelo nome de uma povoação do próprio vale. Mas, para perceber o que estava dentro daquele cálice, é preciso recuar ao outono de 1810, quando uma linha de fortes se ergueu sobre estes montes e a ordem que a acompanhou esvaziou as quintas em redor. Já contámos o que as Linhas de Torres custaram à Malveira, do lado de Mafra; Bucelas é o outro lado da mesma linha.
A 20 de outubro de 1809, Wellington mandou erguer as Linhas de Torres Vedras, sob a direção do coronel Richard Fletcher: do mar ao Tejo, mais de cento e cinquenta fortificações fecharam o caminho de Lisboa. Só quatro estradas deixavam passar um exército, e as Linhas foram concebidas para as barrar todas. Uma delas subia de Sobral a Bucelas. Bucelas não era um lugar de passagem na retaguarda. Era uma das quatro portas.

E era mais do que uma porta. Bucelas era o pivô da segunda linha de defesa, a mais temível das duas, e, quando Wellington organizou o terreno em distritos militares, o quartel-general do Distrito n.º 4 ficava ali, na aldeia do vinho. Fortes guardavam-lhe o desfiladeiro. Uma terra de vinha tinha-se tornado uma dobradiça de pedra e de canhão.
Mas a parte mais dura da estratégia não estava nos fortes. Estava nos campos. A norte das Linhas, a gente das quintas recebeu a ordem mais cruel de todas: abandonar tudo e destruir, com as próprias mãos, aquilo que a tinha alimentado. O pão, as colheitas, tudo o que não pudesse carregar às costas, tudo o que pudesse dar de comer ao exército francês. Era um lavrador a deitar fora o grão que era seu; era uma família a fechar a porta de uma casa a que talvez não voltasse. Chamaram a isto «terra queimada». Era uma arma simples e fria: deixar ao inimigo um país vazio, sem pão, sem forragem, sem nada.

A 13 e 14 de outubro de 1810, as tropas francesas do marechal Masséna sondaram exatamente este eixo, no Combate do Sobral. As colunas de Junot chegaram a tomar um posto avançado e foram de imediato repelidas pelas divisões anglo-lusas de Spencer e Cole. As Linhas resistiram. E, à frente delas, estendia-se a terra que tinham mandado esvaziar.
Masséna não conseguiu forçar a muralha, e o território a norte não lhe dava de comer. Na noite de 14 para 15 de novembro de 1810, começou a retirar. A retirada total para Espanha só se concluiu em abril de 1811, depois de o exército francês perder ainda mais vinte e um mil homens, sobretudo de fome e de doença. A estratégia tinha resultado.

E é aqui que o horror muda de rosto. A mesma fome que matou o exército invasor matou também atrás das Linhas. Amontoada num espaço pequeno, sem alimento para tanta gente, a população da região foi varrida, ao longo daquele inverno, por uma crise de fome e de doença que se prolongou até fevereiro de 1811. Estima-se que dois por cento da população portuguesa, entre quarenta e cinquenta mil pessoas, tenha perdido a vida. A arma era o celeiro vazio, e cortava dos dois lados.
Foi durante essa campanha em Portugal que o duque de Wellington descobriu o vinho de Bucelas. Gostou. Mandou vir grandes quantidades para a propriedade que tinha no Reino Unido. Não sabemos o ano exato, e seria desonesto fingir que provou o primeiro copo na mesma semana em que se davam as ordens de terra queimada. Mas foi a mesma guerra, a mesma campanha, o mesmo punhado de vales. Com o favor de Wellington, o branco de Bucelas tornou-se moda no mercado de Londres, onde lhe chamavam «Portuguese Hock», pela semelhança com os Rieslings alemães do Reno.

E a moda não morreu com a fome. O gosto inglês por «Bucellas» reacendeu-se na era vitoriana, décadas depois da Guerra Peninsular, muito depois de o inverno da fome estar esquecido. Em Londres, continuava a brindar-se. Chegaram a imaginar que a casta era prima do Riesling alemão; só no século XX os ampelógrafos desfizeram o engano: era Arinto, uvas daquele vale e de mais lado nenhum.
O vinho continua a fazer-se. Sobreviveu a quem o fez. O vale que foi mandado esvaziar acabou por encher os cálices de Londres, e em todos aqueles brindes ninguém ergueu um copo pelos mortos.