Acima da Malveira ainda está um forte com quatro canhões. No outono de 1810, trezentos e cinquenta homens das milícias montavam guarda no vale das Baralhas, à espera de um exército que tinha derrotado meia Europa. O exército chegou. Olhou para aquelas encostas. E voltou para trás. As quatro peças de calibre 9, com alcance de pouco mais de dois quilómetros, quase não chegaram a disparar.
Se não foram os canhões, o que parou Napoleão?
O Forte da Feira, obra n.º 66, que primeiro se chamou Reduto de Valtijães, era apenas um nó numa muralha secreta. Entre o final de 1809 e setembro de 1810, a norte de Lisboa, ergueram-se cento e cinquenta e dois fortes, mais de seiscentas bocas de fogo, uma linha que precisava de 39 475 homens para se guarnecer por inteiro. Chamaram-lhe as Linhas de Torres Vedras, e a história recorda-as como a obra de engenharia que travou os franceses. Recorda-se menos de uma coisa: a maior parte daqueles fortes, como o da Malveira, nunca chegou a combater.

A ordem partira de Wellington, em outubro de 1809, e a obra ficou a cargo do coronel Richard Fletcher. Durante quase um ano, milhares de trabalhadores levantaram a muralha em segredo, cravando nas serras um sistema inteiro de redutos que Napoleão só soube que existia quando o teve à frente. A segunda linha, a principal, corria de Vialonga, por Montachique e Mafra, até ao mar. E havia um ponto onde as estradas de Mafra e de Torres Vedras se cruzavam a caminho da capital: a Malveira e a Venda do Pinheiro. Ali, naquele cruzamento, concentrou-se um dos maiores aglomerados de redutos de todas as Linhas.
A 11 de outubro de 1810, as vanguardas de Masséna avistaram a muralha. Três dias depois, o general chegou diante dela, junto a Sobral, subiu a um alto, viu as encostas fortificadas que lhe barravam o caminho e percebeu que não passaria. Ficou semanas diante das Linhas, à espera de reforços e de mantimentos que nunca chegaram. Houve escaramuças, todas sem consequência. Na noite de 14 para 15 de novembro, começou a retirar-se, e a retirada arrastou-se pelo ano seguinte. As Linhas tinham vencido sem quase darem um tiro. Venceram pela ameaça, não pela batalha.

Mas alguma coisa matou. Se não foi a artilharia, o que foi?
A resposta estava nos campos. A estratégia de Wellington incluía a terra queimada: a população foi mandada abandonar as quintas e destruir tudo o que pudesse alimentar o exército inimigo. O verdadeiro muro não era de pedra. Era um país esvaziado, sem pão, sem gado, sem nada de pé entre o invasor e aquilo de que ele precisava para viver. Os fortes eram a arma que se via. A arma que matava era a fome.

E a fome caiu sobre quem a tinha combatido a vida inteira. Aquelas eram terras saloias, da palavra árabe «çahrawi», que diz, mais ou menos, gente do campo: o povo do termo de Lisboa, de que a Malveira é tida como capital, os que enchiam a cidade de pão, hortaliça, leite, vinho e carvão. Durante séculos, foram eles que alimentaram Lisboa. Agora mandavam-nos queimar o que tinham, para que o invasor não comesse, e assim salvar a capital que sempre haviam sustentado. Quem dava de comer à cidade foi posto a passar fome por ela.
O preço não se mede só na Malveira, mas em toda a região das Linhas: dezenas de milhares de mortos de fome e de doença, num inverno em que ao desespero se seguiu o tifo. As estimativas vão de quarenta mil a mais de cem mil. Foi gente sem nome, de aldeias como esta.

A poucos quilómetros, o colossal palácio que outra destas histórias viu D. João V erguer com o ouro do Brasil tinha-se tornado máquina de guerra. A corte abandonara-o em 1807, ao fugir para o Brasil diante dos franceses, e ficara um palácio vazio de reis e cheio de soldados: foi primeiro quartel-general de Junot e, depois de os ingleses o expulsarem, aquartelamento das tropas luso-britânicas, com um hospital de sangue que terá sido instalado na igreja de Santa Maria. A defesa de Mafra apoiava-se na Tapada, o parque real, onde ainda hoje se escondem fortes entre as árvores.
O Forte da Feira foi recuperado e, a 7 de julho de 2011, reabriu ao público. A pedra resistiu. A arma que quase nunca disparou é hoje uma sentinela calada, virada para uma estrada por onde o perigo, afinal, nunca chegou a subir.
E todas as quintas-feiras, como desde que a rainha D. Maria I a autorizou em 1782, a feira da Malveira volta a juntar-se e volta a levar comida a Lisboa. O forte tem nome, data e visita marcada. Os saloios que morreram de fome não têm monumento nenhum. Têm a feira, que ainda alimenta Lisboa.