Houve um tempo em que se ia em romaria ao Castelo de São Jorge para ver um chão.

Era uma calçada de pequenas pedras brancas e pretas, em ziguezague. Tinham-na assentado os presos do castelo, que trabalhavam acorrentados.

Contou-o em 1883 o engenheiro Miguel Paes, num folhetim do Diário de Notícias: «Era uma novidade, fez sensação. Estabeleceu-se romaria ao castelo de S. Jorge, para ver a calçada-mosaico».

«Projecto da Calçada a Musaico para a Praça de D. Pedro», o Rossio: planta assinada pelo general Eusébio Furtado, com as medições, as datas da obra, de 17 de agosto de 1848 a 31 de dezembro de 1849, e o desenho da forma de madeira. Arquivo Municipal do Porto (domínio público).
FIG. 02«Projecto da Calçada a Musaico para a Praça de D. Pedro», o Rossio: planta assinada pelo general Eusébio Furtado, com as medições, as datas da obra, de 17 de agosto de 1848 a 31 de dezembro de 1849, e o desenho da forma de madeira. Arquivo Municipal do Porto (domínio público).

No início dos anos quarenta do século XIX, o governador do Castelo de São Jorge era Eusébio Furtado, oficial de engenharia do Exército. Mandou calcetar a entrada do castelo, as valetas e, por último, a parada do quartel onde estava o Batalhão de Caçadores n.º 5. A bibliografia sobre a calçada dá esta obra como a primeira grande calçada ornamental de pedras brancas e pretas num espaço público de Lisboa, e atribui a ideia a Furtado.

Os presos do castelo cumpriam pena de trabalhos públicos. Chamavam-lhes grilhetas, por causa da corrente atada ao tornozelo.

Pintura de um preso e de um calceteiro a calcetar o Rossio junto a uma forma de madeira, em 1849. Nesse ano, a obra continuava, já com menos grilhetas, e acabou por ser concluída com os calceteiros do Município. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 03Pintura de um preso e de um calceteiro a calcetar o Rossio junto a uma forma de madeira, em 1849. Nesse ano, a obra continuava, já com menos grilhetas, e acabou por ser concluída com os calceteiros do Município. Figuras genéricas, não retratos.

Poucos anos depois, a ideia chegou ao Rossio. Com os prédios à volta da praça já prontos, a Câmara Municipal de Lisboa fechou o centro à passagem de cavalgaduras e fretes, em novembro de 1845, e desenhou-lhe um terrapleno orlado de ruas. Em abril de 1848, decidiu que os calceteiros passariam a empedrá-lo, logo que acabassem de calcetar a entrada do Passeio Público.

Furtado propôs então à Câmara «um risco original e vistoso, que podia ser executado pelos grilhetas do castelo de S. Jorge». Em julho de 1848, a vereação aprovou o projeto e pediu-lhe que mandasse fazer as formas de madeira e requisitasse ao cofre municipal os meios necessários.

Pintura do Rossio nos primeiros anos da nova calçada, com o empedrado de ondas pretas e brancas já assente. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 04Pintura do Rossio nos primeiros anos da nova calçada, com o empedrado de ondas pretas e brancas já assente. Figuras genéricas, não retratos.

O desenho eram «aquelas ondas pretas e brancas, que tão bom efeito produzem», escreveu Júlio de Castilho em «Lisboa Antiga».

A obra começou a 17 de agosto de 1848 e terminou a 31 de dezembro de 1849. Paes fez as contas. Eram 502 dias, ou dezasseis meses e meio. Descontou 90 dias santos e de gala, e ainda os dias de chuva em que não se podia trabalhar. Pelos cálculos dele, ficaram 323 dias de trabalho. Dividiu por eles os 8712 metros quadrados de calçada.

O Rossio, então Praça de D. Pedro, com o empedrado de ondas pretas e brancas na placa, numa fotografia que a família von Hallwyl trouxe de Lisboa em 1895 (Hallwylska museet, Estocolmo, domínio público).
FIG. 05O Rossio, então Praça de D. Pedro, com o empedrado de ondas pretas e brancas na placa, numa fotografia que a família von Hallwyl trouxe de Lisboa em 1895 (Hallwylska museet, Estocolmo, domínio público).

Em média, 27 metros quadrados por dia.

Na primeira metade de 1849, a obra continuava, já com menos grilhetas. No fim, foi concluída com os calceteiros do Município. A Câmara dava a cada grilheta uma gratificação de 40 réis por dia. Paes escreveu que, ao todo, a Câmara gastou pouco mais de trezentos mil réis, e acrescentou: «segundo me consta, mas não garanto». A partir desse número, calculou que cada metro quadrado saíra a 37 réis de mão de obra.

Pintura de trabalhadores a arrancar o empedrado de ondas do centro do Rossio, em 1919, por ordem da Câmara Municipal de Lisboa, para facilitar a circulação dos veículos. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 06Pintura de trabalhadores a arrancar o empedrado de ondas do centro do Rossio, em 1919, por ordem da Câmara Municipal de Lisboa, para facilitar a circulação dos veículos. Figuras genéricas, não retratos.

O chão não ficou intacto. Todos os anos era desmanchado em muitos sítios, para plantar árvores, assentar canalizações, armar tribunas, pôr iluminações. Mesmo assim, escrevia Paes em 1883, o mosaico do Rossio «conserva-se perfeitamente, e dá à praça um bonito aspeto, tornando-se por ele muito notada dos estrangeiros».

Durou até 1919. Nesse ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou arrancar as ondas do centro da praça, para facilitar a circulação dos veículos, apesar de protestos. Ficaram restos junto à estátua de D. Pedro IV.

Pintura da calçada do Rossio nos nossos dias, a partir de uma fotografia real de Roede, de 2012 (CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons). O desenho das ondas voltou à praça na obra inaugurada em novembro de 2001, com calçada nova.
FIG. 07Pintura da calçada do Rossio nos nossos dias, a partir de uma fotografia real de Roede, de 2012 (CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons). O desenho das ondas voltou à praça na obra inaugurada em novembro de 2001, com calçada nova.

Em 1938, no boletim «Olisipo», o engenheiro e olisipógrafo Augusto Vieira da Silva escreveu que as ondas tinham sido «uma das mais típicas curiosidades da cidade».

Nas fontes de 1848 a 1883, o desenho não tem outro nome: são ondas pretas e brancas. O nome «mar largo» aparece entre aspas na Revista Municipal de 1939, como aquele por que o desenho era conhecido, vinte anos depois da demolição.

Em 1999, a Câmara e o Metropolitano de Lisboa assinaram um protocolo para requalificar o Rossio, com o Metropolitano a pagar a maior parte do custo, correspondente à reposição dos pavimentos danificados pelas obras do metro. O projeto previa o regresso da calçada portuguesa à placa central, com o padrão «mar largo». Em 2000, o Expresso escrevia que ainda havia vestígios das ondas antigas junto à estátua.

As obras no Rossio começaram em agosto de 2000. Em novembro de 2001, a praça foi inaugurada «com estátuas limpas e novas calçadas portuguesas». A calçada era nova.

Mais de oitenta anos depois de arrancadas as pedras, o desenho das ondas voltou ao chão do Rossio.

Fontes17 referências
  • Júlio de Castilho, «Lisboa Antiga. Bairros Orientais», 2.ª edição, anotada por Augusto Vieira da Silva, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, vol. IV (1936), pp. 90-93, e vol. X (1937), pp. 110-112, na Biblioteca Nacional Digital. O governo de Furtado no Castelo, a lápide e os seus versos, as deliberações da Câmara sobre o Rossio e o texto de Miguel Paes transcrito. purl.pt
  • Augusto Vieira da Silva, «Cousas passadas», Olisipo, boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», ano I, n.º 1, janeiro de 1938, na Hemeroteca Digital de Lisboa. A demolição de 1919. hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
  • «Os passeios de Lisboa», Revista Municipal, Câmara Municipal de Lisboa, n.º 2, 1939, pp. 79-85, na Hemeroteca Digital de Lisboa. A carta régia de 1498, o nome «mar largo», o Barracão dos Moldes, a assinatura dos calceteiros e a lista dos que foram trabalhar fora do país. hemerotecadigital.cm-lisboa.pt hemerotecadigital.cm-lisboa.pt hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
  • Miguel Carlos Correia Paes, «Empedramento das praças», folhetim do Diário de Notícias, n.º 6267, 9 de julho de 1883, também em «Melhoramentos de Lisboa e seu porto», vol. 1, 1882. Transcrição no blogue Roc2c. roc2c.blogspot.com
  • Denise Santos, «A calçada portuguesa: desenhos em arquivo», Cadernos do Arquivo Municipal, 2.ª série, n.º 17, 2022, pp. 156-206. cadernosarquivo.cm-lisboa.pt
  • Antoni Remesar e Dánae Esparza, «El diseño del suelo y la imagen de la ciudad: la calçada portuguesa», On the w@terfront, 32, 2014. revistes.ub.edu
  • Dicionário Biográfico de Cientistas, Engenheiros e Médicos, «Pais, Miguel Carlos Correia». dicionario.ciuhct.org
  • Associação da Calçada Portuguesa, «História» e «Ponto de situação», 2025. A sessão de 1979 e a candidatura à UNESCO. calcadaportuguesa.org calcadaportuguesa.org
  • Diário da República, 2.ª série, n.º 141, 22 de julho de 2021, Anúncio n.º 172/2021. files.dre.pt
  • AECOPS, «Rossio retoma traça original em Lisboa», 7 de outubro de 1999, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Expresso, «Rossio volta ao passado», 2000, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Clix/Lusa, «Inauguração: Lisboetas podem voltar hoje ao Rossio e à Praça da Figueira», novembro de 2001, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Associação de Turismo de Lisboa, «Um novo Rossio», 2002, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Diário de Notícias, «Presos 'bordaram' o chão de Lisboa», 25 de março de 2007, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Público, «General, prisioneiros e artistas fazem calçadas há 170 anos», 25 de março de 2012. publico.pt
  • Observador, 19 de março de 2025. A entrega da candidatura à UNESCO. observador.pt
  • Observador, com a Lusa, 2 de agosto de 2026. Os moldes do armazém de Alvalade. observador.pt