Houve um tempo em que se ia em romaria ao Castelo de São Jorge para ver um chão.
Era uma calçada de pequenas pedras brancas e pretas, em ziguezague. Tinham-na assentado os presos do castelo, que trabalhavam acorrentados.
Contou-o em 1883 o engenheiro Miguel Paes, num folhetim do Diário de Notícias: «Era uma novidade, fez sensação. Estabeleceu-se romaria ao castelo de S. Jorge, para ver a calçada-mosaico».

No início dos anos quarenta do século XIX, o governador do Castelo de São Jorge era Eusébio Furtado, oficial de engenharia do Exército. Mandou calcetar a entrada do castelo, as valetas e, por último, a parada do quartel onde estava o Batalhão de Caçadores n.º 5. A bibliografia sobre a calçada dá esta obra como a primeira grande calçada ornamental de pedras brancas e pretas num espaço público de Lisboa, e atribui a ideia a Furtado.
Os presos do castelo cumpriam pena de trabalhos públicos. Chamavam-lhes grilhetas, por causa da corrente atada ao tornozelo.

Poucos anos depois, a ideia chegou ao Rossio. Com os prédios à volta da praça já prontos, a Câmara Municipal de Lisboa fechou o centro à passagem de cavalgaduras e fretes, em novembro de 1845, e desenhou-lhe um terrapleno orlado de ruas. Em abril de 1848, decidiu que os calceteiros passariam a empedrá-lo, logo que acabassem de calcetar a entrada do Passeio Público.
Furtado propôs então à Câmara «um risco original e vistoso, que podia ser executado pelos grilhetas do castelo de S. Jorge». Em julho de 1848, a vereação aprovou o projeto e pediu-lhe que mandasse fazer as formas de madeira e requisitasse ao cofre municipal os meios necessários.

O desenho eram «aquelas ondas pretas e brancas, que tão bom efeito produzem», escreveu Júlio de Castilho em «Lisboa Antiga».
A obra começou a 17 de agosto de 1848 e terminou a 31 de dezembro de 1849. Paes fez as contas. Eram 502 dias, ou dezasseis meses e meio. Descontou 90 dias santos e de gala, e ainda os dias de chuva em que não se podia trabalhar. Pelos cálculos dele, ficaram 323 dias de trabalho. Dividiu por eles os 8712 metros quadrados de calçada.

Em média, 27 metros quadrados por dia.
Na primeira metade de 1849, a obra continuava, já com menos grilhetas. No fim, foi concluída com os calceteiros do Município. A Câmara dava a cada grilheta uma gratificação de 40 réis por dia. Paes escreveu que, ao todo, a Câmara gastou pouco mais de trezentos mil réis, e acrescentou: «segundo me consta, mas não garanto». A partir desse número, calculou que cada metro quadrado saíra a 37 réis de mão de obra.

O chão não ficou intacto. Todos os anos era desmanchado em muitos sítios, para plantar árvores, assentar canalizações, armar tribunas, pôr iluminações. Mesmo assim, escrevia Paes em 1883, o mosaico do Rossio «conserva-se perfeitamente, e dá à praça um bonito aspeto, tornando-se por ele muito notada dos estrangeiros».
Durou até 1919. Nesse ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou arrancar as ondas do centro da praça, para facilitar a circulação dos veículos, apesar de protestos. Ficaram restos junto à estátua de D. Pedro IV.

Em 1938, no boletim «Olisipo», o engenheiro e olisipógrafo Augusto Vieira da Silva escreveu que as ondas tinham sido «uma das mais típicas curiosidades da cidade».
Nas fontes de 1848 a 1883, o desenho não tem outro nome: são ondas pretas e brancas. O nome «mar largo» aparece entre aspas na Revista Municipal de 1939, como aquele por que o desenho era conhecido, vinte anos depois da demolição.
Em 1999, a Câmara e o Metropolitano de Lisboa assinaram um protocolo para requalificar o Rossio, com o Metropolitano a pagar a maior parte do custo, correspondente à reposição dos pavimentos danificados pelas obras do metro. O projeto previa o regresso da calçada portuguesa à placa central, com o padrão «mar largo». Em 2000, o Expresso escrevia que ainda havia vestígios das ondas antigas junto à estátua.
As obras no Rossio começaram em agosto de 2000. Em novembro de 2001, a praça foi inaugurada «com estátuas limpas e novas calçadas portuguesas». A calçada era nova.
Mais de oitenta anos depois de arrancadas as pedras, o desenho das ondas voltou ao chão do Rossio.
Fontes17 referências
- Júlio de Castilho, «Lisboa Antiga. Bairros Orientais», 2.ª edição, anotada por Augusto Vieira da Silva, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, vol. IV (1936), pp. 90-93, e vol. X (1937), pp. 110-112, na Biblioteca Nacional Digital. O governo de Furtado no Castelo, a lápide e os seus versos, as deliberações da Câmara sobre o Rossio e o texto de Miguel Paes transcrito. purl.pt
- Augusto Vieira da Silva, «Cousas passadas», Olisipo, boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», ano I, n.º 1, janeiro de 1938, na Hemeroteca Digital de Lisboa. A demolição de 1919. hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
- «Os passeios de Lisboa», Revista Municipal, Câmara Municipal de Lisboa, n.º 2, 1939, pp. 79-85, na Hemeroteca Digital de Lisboa. A carta régia de 1498, o nome «mar largo», o Barracão dos Moldes, a assinatura dos calceteiros e a lista dos que foram trabalhar fora do país. hemerotecadigital.cm-lisboa.pt hemerotecadigital.cm-lisboa.pt hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
- Miguel Carlos Correia Paes, «Empedramento das praças», folhetim do Diário de Notícias, n.º 6267, 9 de julho de 1883, também em «Melhoramentos de Lisboa e seu porto», vol. 1, 1882. Transcrição no blogue Roc2c. roc2c.blogspot.com
- Denise Santos, «A calçada portuguesa: desenhos em arquivo», Cadernos do Arquivo Municipal, 2.ª série, n.º 17, 2022, pp. 156-206. cadernosarquivo.cm-lisboa.pt
- Antoni Remesar e Dánae Esparza, «El diseño del suelo y la imagen de la ciudad: la calçada portuguesa», On the w@terfront, 32, 2014. revistes.ub.edu
- Dicionário Biográfico de Cientistas, Engenheiros e Médicos, «Pais, Miguel Carlos Correia». dicionario.ciuhct.org
- Associação da Calçada Portuguesa, «História» e «Ponto de situação», 2025. A sessão de 1979 e a candidatura à UNESCO. calcadaportuguesa.org calcadaportuguesa.org
- Diário da República, 2.ª série, n.º 141, 22 de julho de 2021, Anúncio n.º 172/2021. files.dre.pt
- AECOPS, «Rossio retoma traça original em Lisboa», 7 de outubro de 1999, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
- Expresso, «Rossio volta ao passado», 2000, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
- Clix/Lusa, «Inauguração: Lisboetas podem voltar hoje ao Rossio e à Praça da Figueira», novembro de 2001, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
- Associação de Turismo de Lisboa, «Um novo Rossio», 2002, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
- Diário de Notícias, «Presos 'bordaram' o chão de Lisboa», 25 de março de 2007, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
- Público, «General, prisioneiros e artistas fazem calçadas há 170 anos», 25 de março de 2012. publico.pt
- Observador, 19 de março de 2025. A entrega da candidatura à UNESCO. observador.pt
- Observador, com a Lusa, 2 de agosto de 2026. Os moldes do armazém de Alvalade. observador.pt