Um boticário português jogou xadrez com o imperador da China.
Quem contou isso ia na mesma embaixada. Chamava-se Cristóvão Vieira, havia de escrever de uma prisão em Cantão, e contou mais: Zhengde, o imperador, subiu a bordo dos navios em que os portugueses viajavam, mandou tirar as arcas para fora e levou as roupas que lhe pareceram bem.
E há um registo que não é português. Em janeiro de 1521, em Pequim, uma embaixada coreana visitou os portugueses no albergue dos estrangeiros e anotou o que viu no quarto. Ao meio havia uma única cadeira, coberta com um pano vermelho. Diziam-lhes que era ali que o imperador se dignara sentar-se.
O boticário chamava-se Tomé Pires e era morador na freguesia da Madalena. Tinha sido mandado à Índia em 1511 como «feitor e vedor das drogarias»: o ofício era comprar.
A que ele chefiava foi, escreve o historiador James Fujitani, a primeira embaixada europeia a ver o imperador Ming. E também a última. A recusa que se lhe seguiu fixou um precedente que a corte manteve até ao fim, e que se aplicou depois aos pedidos dos outros países europeus.

Falta explicar como é que um homem mandado comprar drogas foi parar diante do imperador da China. E o que ele já tinha escrito antes de lá chegar.
Em 1511 Afonso de Albuquerque tomou Malaca ao sultão que ali reinava, e que era vassalo dos Ming. Os oficiais chineses não viram nos recém-chegados um país desconhecido: os navios portugueses entraram no comércio das ilhas de Cantão como navios de Malaca, isto é, de um estado vassalo do império.
Foi para essa cidade acabada de tomar que Pires foi dar, e ficou lá dois anos e meio, num cais por onde passavam capitães, pilotos e mercadores de várias nações. O ofício que levava obrigava-o a perguntar a toda a gente. Foi ali, e depois na Índia, que escreveu entre 1512 e 1515 a «Suma Oriental»: um relatório a D. Manuel sobre o que havia para comprar e para vender, do Mar Vermelho ao Japão.
Do Japão escreveu o nome como lho disseram ao balcão: «Jampon». Sonia Favi, que estudou as fontes europeias sobre o arquipélago, nota que, tirando esta, não há menções ao Japão em relatos portugueses da primeira metade do século XVI.

Há também, na «Suma», um trecho sobre a costa de Cantão: as ilhas onde os juncos estrangeiros fundeavam, à volta do que hoje é Hong Kong, e o que ali acontecia a seguir.
Escreveu-o por volta de 1515. Nunca tinha estado na China.
Cumprida a missão e amealhado algum cabedal, pediu para voltar ao reino. Lopo Soares de Albergaria negou-lhe o regresso e mandou-o encabeçar a embaixada. A razão ficou escrita por João de Barros: era «curioso de inquirir, e saber as cousas».
Chegou a Cantão em outubro de 1517 e esperou dois anos e três meses por licença para subir à corte. Partiu em janeiro de 1520.

Encontrou o imperador em Nanquim e falou com ele cara a cara, coisa que as embaixadas tributárias em regra não conseguiam: Vieira escreveu que viram o rei em pessoa, contra o costume da terra, onde o rei nunca saía da residência. Segundo o resumo de uma carta de Pires que se perdeu, o imperador ficou tão satisfeito com ele, e com as notícias que lhe dava de D. Manuel, que não ia cavalgar sem ele.
Levou-o à caça muitas vezes e, três vezes, a banquetes com os grandes do reino. É no meio dessa enumeração, de passagem, que Vieira escreve que o boticário jogou xadrez com o imperador.
A 21 de abril de 1521 Zhengde morreu.
O testamento imperial, escrito pelo grão-secretário Yang Tinghe, mandou embora três embaixadas na mesma passagem: a de Hami, a de Turfan e a de Portugal. Às duas primeiras, dar a recompensa do costume e escoltá-las até casa. Aos portugueses, escoltá-los de volta a Cantão.

O intérprete da embaixada, Huozhe Yasan, foi preso e executado em Pequim, e Vieira deixou escrita a acusação: os intérpretes foram decapitados por terem saído do país e por terem trazido portugueses para dentro da China. O enviado de Hami foi preso nos mesmos dias.
E a corte mandou que os embaixadores ficassem retidos à guarda dos governadores de Cantão, enquanto se escrevia ao capitão português de Malaca, ao da Índia e ao rei, para que a cidade fosse devolvida ao sultão a quem tinha sido tomada.
Naquela costa, os portugueses tinham comprado crianças e vendido armas de fogo fora da lei. Quem o escreve é James Fujitani, que nota que praticavam em parte formas europeias de violência e em parte práticas asiáticas que assombravam aquele litoral muito antes de eles lá chegarem. Não é, escreve ele, uma desculpa.
Depois dessa ordem, o que aconteceu a Tomé Pires não se sabe.

Quatro autores do século XVI escreveram quatro desfechos incompatíveis. Vieira, que esteve preso com ele, escreveu que morreu de doença; João de Barros, que os chineses o mataram; Gaspar Correia, que o levaram para outra terra e nunca mais o deixaram voltar. Fernão Lopes de Castanheda escreveu que não conseguira apurar os pormenores.
Já aqui contámos a visita: em outubro de 1582 foram três jesuítas a Almada perguntar a Fernão Mendes Pinto o que se sabia da China, e um deles anotou que o que havia de cristandade por lá eram vestígios deixados por Tomé Pires. Foi por esse caminho que Armando Cortesão viria a concluir que Pires morreu muito depois de Vieira o ter dado por morto.
Yang Tinghe caiu em desgraça em 1524. Em 1529 o comércio das ilhas estava reposto e os mercadores portugueses voltavam a Guangdong. Uma daquelas ilhas viria a ser um porto permanente: Macau.
A Biblioteca Nacional de Portugal cataloga-o assim: «PIRES, Tomé, 1465?-1540?». Com ponto de interrogação nas duas datas.

O rasto do homem acaba ali. O do livro não.
Em Veneza, em 1550, Giovanni Battista Ramusio imprimiu uma versão italiana abreviada do texto. Não sabia de quem era. Escreveu que fora composto por «um gentil-homem português que navegou por todo o Oriente».
O texto completo estava dentro de um códice de cento e setenta e oito fólios, e os primeiros cento e dezasseis eram as cartas náuticas e os desenhos do piloto Francisco Rodrigues. Foi pelo nome do piloto que o volume ficou catalogado na biblioteca da Câmara dos Deputados, em Paris. A «Suma» não vinha mencionada.
Armando Cortesão perguntou pelo códice em 1933 e responderam-lhe que não se encontrava em parte nenhuma. Era dado por perdido. Em setembro de 1937 voltou a Paris, foi ao catálogo impresso e deu com ele.

Saiu em inglês, em Londres, em 1944. Em Portugal, só nos anos setenta.
Antes de alguma vez ter posto os pés na China, Tomé Pires tinha escrito, num cais de Malaca, o que se passava naquela costa: as ilhas onde os juncos fundeavam, os portos repartidos pelas nações, o aviso que dali seguia para Cantão, e os homens que vinham avaliar a mercadoria e cobrar o que era devido.
A gazeta da província, o «Guangdong Tongzhi», descreve o mesmo sistema pelo lado de dentro: examinam-se os documentos, cobram-se vinte por cento da mercadoria, e então deixa-se comerciar. Foi James Fujitani que pôs os dois textos um ao lado do outro, e escreve que batem certo.
A gazeta é de quem governava aquela costa. O boticário nunca lá tinha estado: escreveu-o num cais, a perguntar a mercadores.
Fontes8 referências
- FUJITANI, James Masaki, Strangers at the Heavenly Court: The 1517 Portuguese Embassy to China, Palgrave Studies in Comparative Global History, Palgrave Macmillan Singapore, 2026. Acesso aberto. Trabalha em paralelo as fontes chinesas (Wu zong shi lu, Shi zong shi lu, Guangdong Tongzhi), coreanas (Chungjong sillok) e portuguesas.
- CORTESÃO, Armando (ed.), The Suma Oriental of Tomé Pires… and the Book of Francisco Rodrigues, Hakluyt Society, 2.ª série n.º LXXXIX, Londres, 1944. Exemplar digitalizado pela McGill University Library no archive.org.
- PIRES, Tomé, A Suma Oriental de Tomé Pires e o livro de Francisco Rodrigues, leitura e notas de Armando Cortesão, Coimbra, por Ordem da Universidade. Cópia digital na Biblioteca Nacional Digital, purl.pt/37597.
- FAVI, Sonia, «The Circulation of Lay Sources on Japan in the Sixteenth Century», cap. 2 de Self Through the Other, Edizioni Ca' Foscari, Veneza, 2018. Acesso aberto, revisão por pares.
- BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, mostra «Suma Oriental, de Tomé Pires», maio de 2012, e o registo de autoridade da Biblioteca Nacional Digital.
- JIN Guo Ping e WU Zhiliang, «Uma embaixada com dois embaixadores: novos dados orientais sobre Tomé Pires e Hoja Yasan», in Revisitar os primórdios de Macau: para uma nova abordagem da História, Instituto Português do Oriente, Macau, 2007.
- VIEIRA, Cristóvão e CALVO, Vasco, Cartas dos cativos de Cantão, edição de Rui Manuel Loureiro, Instituto Cultural de Macau, 1992, citadas por Fujitani.
- BARROS, João de, Terceira Década da Ásia, Lisboa, 1583, citada por Fujitani e por Cortesão.
