Um doente de vinte anos ficou com as artérias do próprio cérebro desenhadas numa chapa de raios X. Estava vivo. Foi em Lisboa, em 1927, e era a primeira vez que alguém o tinha conseguido.
Foi à nona tentativa.
Antes dela tinham falhado oito, e um dos doentes morreu poucas horas depois.
Quem fez aquela chapa esteve, décadas depois, numa nota de dez mil escudos do Banco de Portugal.

Até 1927, quem precisasse de saber o que se passava dentro de um crânio tinha duas coisas: a radiografia simples e a pneumoencefalografia de Walter Dandy, que substituía por ar uma parte do líquido à volta do cérebro e fotografava a sombra. Nenhuma delas mostrava artérias. Procurava-se um tumor por indícios, à volta do sítio onde ele devia estar.
A ideia era fácil de dizer. Tornar as artérias opacas aos raios X, fixar o desenho que elas fazem numa cabeça normal, e depois ler o tumor pela deformação desse desenho. «Julgámos possível fazer o diagnóstico de localização da maior parte dos tumores pela alteração do desenho arterial normal do cérebro», escreveu o homem que a teve, num texto que o Centro de Estudos Egas Moniz transcreve.
Chamava-se António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz e tinha cinquenta e dois anos.

Não era um investigador de carreira. Tinha passado quase vinte anos na política, e foi ministro dos Negócios Estrangeiros e embaixador em Madrid antes de ser conhecido por outra coisa qualquer. Era professor catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina de Lisboa desde 1911, com serviço no Hospital de Santa Marta. Em 1919, desiludido com a política, voltou à faculdade e decidiu fazer uma descoberta.
Tinha as mãos estragadas pela gota desde novo, e não era ele quem pegava nos instrumentos.
Quem pegava era Pedro Almeida Lima, na altura um médico novo, que viria a ser neurocirurgião. A pinça que segurava a carótida, a artéria do pescoço que leva o sangue à cabeça, foi desenhada por António Martins. A mesa que tirava as radiografias em série, uma chapa por segundo enquanto o contraste passava, foi concebida pelo radiologista José Pereira Caldas, e chamaram-lhe o carrossel radiológico.

O trabalho começou em cadáveres, humanos e de cães, e em animais. Era preciso encontrar uma substância que aparecesse aos raios X e não matasse quem a levasse na cabeça. Testaram brometo de lítio, brometo de estrôncio, iodeto de sódio. Estabeleceram o desenho normal das artérias do cérebro, para haver com que comparar. Mediram a quantidade de contraste que era precisa, quatro a cinco centímetros cúbicos, e Egas Moniz chamou-lhe o quantum.
Depois vieram os doentes, e durante meses não houve imagem nenhuma. As chapas saíam limpas: a agulha tinha saído da artéria, ou o contraste tinha escoado antes de a radiografia ser feita.
À sexta tentativa apareceram, desfocados, alguns vasos. Foi a primeira vez que se viu alguma coisa, e foi esse o doente que morreu poucas horas depois. As fontes não coincidem na causa.

A 28 de junho de 1927 saiu a nona chapa, e nela estavam as artérias, e estavam deslocadas, exatamente como tinham previsto. O doente tinha vinte anos e um tumor grande da hipófise, a glândula que assenta na base do crânio.
Nove dias depois aquilo estava apresentado em Paris, na Sociedade de Neurologia, e publicado no mesmo ano na Revue Neurologique.
Em 1928 já se fazia no Brasil. Nos primeiros anos trinta saíram em Paris, pela Masson, dois volumes sobre o método. E em Portugal a ideia não ficou na cabeça: nos vinte e dois anos seguintes, seis médicos portugueses pegaram no mesmo princípio e fotografaram as artérias do coração, a aorta, os membros, os pulmões, os linfáticos e as veias. Em 1947, os neurocirurgiões britânicos escolheram Lisboa para o seu encontro internacional, e quem o dirigiu, Geoffrey Jefferson, disse que vinha «em peregrinação» ao sítio onde a angiografia cerebral tinha nascido.

Foi proposto para o Nobel pela angiografia, mais do que uma vez. As propostas foram avaliadas por Hans Christian Jacobaeus, professor no Instituto Karolinska e membro do comité do Nobel.
Em 1935 Almeida Lima abriu dois furos no crânio de uma mulher de sessenta e três anos, internada com o diagnóstico de melancolia involutiva, ansiosa e paranoide. Nos documentos de Egas Moniz é M.C. Tinha sido enviada por Sobral Cid, do Manicómio Miguel Bombarda para o Hospital de Santa Marta, com outra mulher e dois homens. Por aqueles furos passou um tubo com uma lâmina retrátil, e cortaram-se ligações entre os lobos frontais e o resto do cérebro. Chamaram-lhe leucotomia pré-frontal. Dois meses depois, o relatório da equipa deu-a como curada. O relatório não a segue mais longe.
Em 1936 a equipa publicou os primeiros vinte casos, e o balanço que ela própria fez dava trinta e cinco por cento dos doentes como curados, trinta e cinco como tendo beneficiado e trinta como não tendo melhorado.

A operação espalhou-se pelo mundo. Em 1948 a Faculdade de Medicina de Lisboa recebeu a primeira conferência internacional de psicocirurgia, presidida por Egas Moniz, com gente de vinte e sete países.
A 27 de outubro de 1949 chegou o Nobel da Medicina, repartido com o suíço Walter Rudolf Hess. É o único que um português alguma vez recebeu em medicina. A citação está escrita e não muda: «pela descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses».
Nos anos cinquenta a operação foi caindo, à medida que apareceram os primeiros psicofármacos. A Fundação Nobel escreve, na sua própria página, que se tornou evidente que a intervenção podia produzir alterações graves de personalidade. Já neste século, familiares de doentes operados pediram que o prémio fosse retirado. A Fundação respondeu que um Nobel não se retira.
A angiografia cerebral continuou. Em 1931 o iodo foi substituído pelo torotraste, que dava a mesma opacificação; nos anos cinquenta descobriu-se que o torotraste provocava cancro. Foi o método de referência para ver dentro de um crânio até a tomografia computorizada entrar na prática clínica, nos anos setenta, e continua a fazer-se todos os dias. É por ali que hoje se fecha um aneurisma por dentro, e é por ali que se vai buscar um coágulo a uma artéria do cérebro enquanto o AVC está a acontecer.
Nos anos oitenta, na nota de dez mil escudos, o cérebro com a árvore de artérias a vermelho ficou impresso ao lado do rosto dele. Era a maior figura da frente, e o Banco de Portugal escreve que as duas descobertas estão ali evocadas, nos ornatos do centro. A nota prescreveu a 1 de janeiro de 2018.
No verso estava a medalha do Nobel.
Fontes13 referências
- NobelPrize.org, «Egas Moniz: Facts» e a secção «Work», Nobel Prize Outreach. Motivação do prémio, quota, afiliação, datas, e o texto da própria Fundação sobre o declínio da leucotomia.
- DUARTE, G. & GOULÃO, A., «Egas Moniz, the Pioneer of Cerebral Angiography», Interventional Neuroradiology 3 (1997), pp. 107-111.
- ARTICO, M., SPOLETINI, M., FUMAGALLI, L. et al., «Egas Moniz: 90 Years (1927-2017) from Cerebral Angiography», Frontiers in Neuroanatomy 11:81 (2017).
- CORREIA GUEDES, L., PEREIRA, I., PINHO E MELO, T. & PAVÃO MARTINS, I., «Egas Moniz: Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia», editorial, Sinapse 25(1) (2025), Sociedade Portuguesa de Neurologia / Centro de Estudos Egas Moniz, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
- «The Legacy of Egas Moniz: Triumphs and Controversies» (2024), PubMed Central, PMC11578627.
- «A history of the path towards imaging of the brain: from skull radiography through cerebral angiography» (2023), PubMed 38011427.
- LIGON, B. Lee, «The Mystery of Angiography and the "Unawarded" Nobel Prize: Egas Moniz and Hans Christian Jacobaeus», Neurosurgery 43(3) (1998), pp. 602-611.
- MONIZ, Egas, Tentatives opératoires dans le traitement de certaines psychoses, Masson, Paris, 1936; L'angiographie cérébrale. Ses applications et résultats en anatomie, physiologie et clinique, Masson, Paris; e «Arterial encephalography, its importance in the localization of cerebral tumors», Revue Neurologique, 1927, citados a partir das obras acima.
- Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, páginas do Museu Egas Moniz e «Professor Egas Moniz: The Portuguese Nobel Prize in Medicine and Physiology».
- Banco de Portugal, Boletim Notas e Moedas, outubro de 2017.
- Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, ficha do Hospital de Egas Moniz.
- Observador, «António Egas Moniz. Setenta anos depois, quem foi este Nobel da Medicina que hoje não teria sido entregue» (2019), que reconstitui o dia da primeira leucotomia e os episódios do consultório a partir das Confidências de um Investigador Científico do próprio Egas Moniz, da biografia por João Lobo Antunes e de Egas Moniz, Legado da Sua Vida e Obra, de Victor Oliveira.
- NPR e History News Network (2005), sobre a campanha para a revogação do prémio e a resposta da Fundação Nobel.
