O dinossauro mais completo alguma vez descrito em Portugal passou mais de sessenta anos numa arrecadação, dentro de caixas que tinham escrito por fora o nome de outro animal. Não tinha número de coleção. Não tinha notas de campo. Estava por limpar, com os ossos ainda presos à pedra de onde saíram, e parte deles andava misturada com os de um segundo esqueleto. Quem passasse pela prateleira lia «Dracopelta», lia «Ribamar» e, nas melhores caixas, lia apenas o nome de uma terra: «Atouguia da Baleia». Está agora de pé, montado osso a osso, numa sala em Lisboa. Chegou lá em maio deste ano.
Contamos isto agora por causa de uma arriba. Há mais de um ano que uma equipa do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia, da Sociedade de História Natural, trabalha na foz do rio Sizandro, em Torres Vedras, num esqueleto que poderá vir a ser o dinossauro mais completo alguma vez encontrado no país. Ou seja: poderá tirar o título precisamente àquele que esteve guardado na caixa com o nome errado.

Começou com um osso. Em junho de 2025, durante trabalhos de inventário, Luís Domingos reparou num fémur a sobressair da rocha, numa arriba junto à foz. Estava em risco de queda e foi recolhido logo. A forma do osso bastou para perceber que não era um animal comum. Numa segunda ida ao local, nesse mesmo verão, a equipa recolheu cerca de quarenta e cinco osteodermes, as placas ósseas que serviam de armadura, e ficou a saber com que grupo estava a lidar: anquilossauros, dinossauros encouraçados, herbívoros, de quatro patas.

Depois veio o inverno, e o inverno na costa portuguesa foi duro. A equipa protegeu o sítio e esperou. O esqueleto aguentou. Quando as escavações recomeçaram, o que a arriba tinha lá dentro apanhou a própria equipa de surpresa: um animal articulado desde partes do crânio até à ponta da cauda, com cerca de dois metros e meio, deitado de barriga para baixo. É uma posição invulgar, porque quase todos os dinossauros aparecem tombados de lado. Está cerca de 85% completo, diz a equipa, e poderá chegar perto dos 95% se os membros da frente estiverem, como se suspeita, escondidos debaixo da própria armadura. Vai sair da arriba num só bloco.

Convém dizer o que ainda não se sabe. Nada disto está descrito na literatura científica. São números de escavação, não de artigo publicado: os próprios investigadores falam sempre no condicional, e o animal ainda nem chegou ao laboratório. Pela camada em que apareceu, do Kimmeridgiano, poderá ser o mais antigo conhecido da Europa continental, diz Bruno Camilo, diretor da equipa. O qualificador não é um detalhe: em Inglaterra há material mais antigo destes animais, só que muito fragmentário. Não é a idade que torna isto raro, é estar articulado.

E isso liga-o à outra história.

Até agora, Portugal tinha descrito um único anquilossauro. Apareceu quando se abria uma estrada do Barril para a Praia da Assenta, no concelho de Mafra. Um arqueólogo de Torres Vedras, Leonel Trindade, foi ver, fotografou os ossos ainda no corte da estrada e avisou os Serviços Geológicos, em Lisboa. Vieram dois homens buscá-lo. Um deles era Georges Zbyszewski.

Zbyszewski nasceu em Gatchina, na Rússia, visitou Portugal pela primeira vez em 1935 e ficou. Passou mais de quarenta anos nos Serviços Geológicos, assinou mais de duzentas publicações e ajudou a levantar a carta geológica do país. Quase todo o material de dinossauros hoje guardado no laboratório nacional foi recolhido por ele. Tinha coassinado o livro de referência sobre os dinossauros portugueses. Era, portanto, o homem indicado para estudar aquele esqueleto. Não o estudou: continuou no levantamento geológico do país, e o anquilossauro ficou à espera até que um paleontólogo britânico, Peter Galton, o viu numa visita ao Museu Geológico de Lisboa. Descreveu-o em 1980 e deu à espécie o nome do homem que a tinha recolhido: Dracopelta zbyszewskii.

Foi também Zbyszewski quem recolheu, no final da década de 1950, em Atouguia da Baleia, o esqueleto da caixa errada.
É aqui que as duas histórias se tocam. Os ossos de Atouguia da Baleia estavam misturados com os do Dracopelta, na mesma arrecadação do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, em Alfragide, e nalguns casos nas mesmas caixas. Durante décadas, dois dos mais importantes dinossauros portugueses estiveram em cima um do outro, e por isso nenhum dos dois podia ser estudado. Em 2009, Bruno Pereira deu com o material por preparar enquanto atualizava o registo de fósseis do laboratório e avisou Octávio Mateus. A preparação começou em 2015. Separar um esqueleto do outro foi o que destrancou os dois: a investigação sobre o Dracopelta, parada havia décadas, arrancou a seguir. E convém dizer o resto: as mesmas caixas que o esconderam foram as que o conservaram. Enquanto ali esteve, ninguém lhe mexeu, ninguém o partiu e ninguém o deitou fora. Sem aquela arrecadação não haveria nada para descrever.
O que saiu da pedra não era sequer um anquilossauro: era um Miragaia longicollum, o estegossauro de pescoço comprido que só se conhece em Portugal. E era, nas palavras de Francisco Costa e Octávio Mateus, que o descreveram em 2019, o dinossauro mais completo descrito em Portugal e o estegossauro mais completo descrito na Europa.
Não ficou na arrecadação. Desde maio deste ano que está de pé, montado osso a osso, no Museu Geológico, em Lisboa, e aberto a quem lá quiser entrar. É, segundo o próprio laboratório, o primeiro dinossauro fóssil alguma vez montado por inteiro e em posição de vida em Portugal.
Reparem na conta dos meses. Em maio deste ano, o esqueleto de Atouguia da Baleia saiu da arrecadação e foi posto de pé numa sala de exposições em Lisboa. Em junho, na arriba do Sizandro, recomeçava a escavação do animal que talvez lhe venha a tirar o título.
Ao dinossauro de Atouguia da Baleia nunca lhe faltou estar completo. Faltava-lhe que abrissem a caixa.
Fontes16 referências
A escavação da Foz do Sizandro
- Câmara Municipal de Torres Vedras, «Descoberta paleontológica inédita no concelho de Torres Vedras», comunicado de 23 de julho de 2026. É a fonte primária de todo o noticiário que se seguiu, e é de lá que vêm todas as citações de Bruno Camilo.
- RTP Notícias, peça de 23 de julho de 2026.
- ZAP, «O mar deu, o mar quase levou», 2 de agosto de 2026.
- Notícias ao Minuto, 4 de agosto de 2026.
- Agência Portuguesa do Ambiente, «Síntese das ocorrências na faixa costeira de Portugal continental», relatório técnico apresentado a 11 de março de 2026.
O Miragaia de Atouguia da Baleia
- Francisco COSTA e Octávio MATEUS, «Dacentrurine stegosaurs (Dinosauria): A new specimen of Miragaia longicollum from the Late Jurassic of Portugal resolves taxonomical validity and shows the occurrence of the clade in North America», PLoS ONE, 2019. O estudo que descreveu o esqueleto; é dele que vêm o estado do material em arrecadação, a atribuição da recolha e o superlativo.
- Octávio MATEUS, Susannah MAIDMENT e Nicolai CHRISTIANSEN, «A new long-necked "sauropod-mimic" stegosaur and the evolution of the plated dinosaurs», Proceedings of the Royal Society B, 2009. A descrição original da espécie.
- Francisco COSTA PINTO, Susannah MAIDMENT, Cristina SEQUERO e outros, «Miragaia longicollum MG 4863: New fossil and historical evidence from the most complete stegosaur from Europe», 2025.
- LNEG, textos da exposição «Miragaia: o Estegossauro de Portugal e do Mundo» e notícia da inauguração, Museu Geológico, Lisboa, maio de 2026.
O Dracopelta e Zbyszewski
- João RUSSO e Octávio MATEUS, «História da descoberta do anquilossauro Dracopelta zbyszewskii (Jurássico Superior), com novos dados sobre o espécime tipo e a sua localidade», Comunicações Geológicas, tomo 108, fascículo 1, 2021, pp. 27-34. O estudo dedicado à descoberta: reconstitui-a a partir do recorte do Badaladas, das fotografias de Leonel Trindade e de um caderno de campo, e é a fonte de tudo o que aqui se conta sobre Trindade, Zbyszewski e Galton.
- Peter M. GALTON, «Partial skeleton of Dracopelta zbyszewskii n. gen. and n. sp., an ankylosaurian dinosaur from the Upper Jurassic of Portugal», Geobios, 1980. A descrição original.
- Xabier PEREDA-SUBERBIOLA, Pedro DANTAS, Peter M. GALTON e outros, «Autopodium of the holotype of Dracopelta zbyszewskii and its type horizon and locality», Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie, 2005.
- Badaladas, n.º 472, 9 de janeiro de 1965. Citado aqui a partir da tradução inglesa publicada no estudo acima.
Contexto
- Jordan BESTWICK e outros, «A new ankylosaurian osteoderm from the Middle Jurassic Oxford Clay Formation, United Kingdom», Proceedings of the Yorkshire Geological Society, 2024. É a fonte da comparação com o material britânico.
- Miguel Telles ANTUNES e Octávio MATEUS, «Dinosaurs of Portugal», Comptes Rendus Palevol, 2003.
- Sociedade de História Natural, Torres Vedras, apresentação institucional.