Uma peça de aço da Ponte 25 de Abril desceu a rampa da praia de Algés e foi lançada ao Tejo como um navio, com a bênção do Cardeal Patriarca e o Presidente da República a assistir. Pesava cerca de setecentas toneladas, flutuava, e tinha sido feita para ir ao fundo.
Foi a 10 de janeiro de 1963. O Presidente era Américo Tomás; o Cardeal, D. Manuel Gonçalves Cerejeira.

A peça seguia para o sítio da torre norte, e não era a que havia de descer mais. Ao lado, no estaleiro, quase pronta, esperava outra, com cerca de mil toneladas, destinada à torre sul: a fundação dessa torre assenta no basalto a cerca de oitenta metros abaixo da água. Nesse dia, o diretor da obra, o engenheiro José do Canto Moniz, chamou-lhe «a fundação mais profunda jamais projectada». Dois anos depois, uma revista técnica britânica escrevia que a ponte teria «the world's deepest pier», o pilar mais profundo do mundo.

No lançamento, quem melhor disse o que ali se fazia foi um americano. Charles K. McCracken, vice-presidente da United States Steel Export, a empresa que tinha a empreitada, lembrou que durante séculos os portugueses se tinham juntado nas praias daquele rio para ver lançar à água barcos que iam navegar até aos pontos mais longínquos da Terra. A peça benzida, disse, viajaria apenas alguns quilómetros e desapareceria ao mergulhar lentamente nas águas do Tejo, «onde ficará submersa para sempre».

A viagem destas peças fazia-se para baixo, e a mais comprida era a da torre sul. Nas contas que Canto Moniz apresentou nesse dia, essa torre havia de medir 272 metros desde a rocha firme até ao topo: cerca de 190 à vista, acima da água, e cerca de oitenta por baixo dela.

A torre sul fica em pleno rio. Para chegar à rocha era preciso atravessar primeiro a água, depois uma camada de lodo, depois areias e pedras soltas. Na torre norte, o problema era outro: o fundo era de basalto duro, irregular e inclinado, e a corrente do rio era forte.

Faziam-se grandes moldes de aço, os caixões de fundação, cujas primeiras secções flutuavam. Construídas em terra, eram lançadas à água, rebocadas até ao lugar do pilar e amarradas a âncoras muito pesadas, já postas no leito; a de Algés partiria na maré cheia da madrugada seguinte. Depois, iam-se acrescentando por cima secções de seis metros de altura, e o molde enchia-se de betão para ir descendo aos poucos, até a parte de baixo tocar os lodos.

Por dentro, cada caixão era como um favo: poços circulares com quatro metros e meio de diâmetro, por onde se escavavam o lodo e a areia para a peça continuar a descer. E, para que se aguentasse a flutuar já bem mergulhada, tapava-se o topo dos poços com cúpulas e metia-se-lhes ar sob pressão. O betão afundava-a; o ar segurava-a.

O projeto era de um gabinete de engenharia de Nova Iorque, e a montagem coube a uma associada americana da empreiteira, a Morrison Knudsen. Os elementos do caixão de Algés vieram das aciarias americanas, trazidos em grande parte por navios portugueses; os tubos e as cúpulas dos caixões fizeram-se na Sorefame, na Amadora. Do lado português, dirigia os trabalhos o Gabinete da Ponte sobre o Tejo, e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil estudou a ponte em modelos reduzidos, um deles sobre a estabilidade do pilar sul num sismo.
Das catorze empresas que trabalharam diretamente na obra, onze eram portuguesas, com cerca de três mil operários por dia. Houve mortos, e as contas não coincidem: o registo oficial dá quatro; o investigador Luís F. Rodrigues contou onze. Em 1963, Canto Moniz dissera que o operário português se mostrara hábil e competente, o que permitira reduzir ao mínimo o pessoal estrangeiro, que não se podia dispensar de todo por causa da especialização de muitas tarefas.
A ponte ficou pronta cerca de seis meses antes do prazo. Abriu a 6 de agosto de 1966, com o nome de Ponte Salazar, e depois do 25 de Abril de 1974 passou a chamar-se Ponte 25 de Abril. O vão central, de 1013 metros, era então o maior vão suspenso da Europa. Fora desenhada desde o início para levar também o comboio, e quando o comboio chegou, em 1999, foi preciso acrescentar cabos novos por cima dos antigos, mas as torres não tiveram de ser reforçadas. Passam por ela mais de 300 mil pessoas por dia. A 6 de agosto de 2026, fez sessenta anos.
Os engenheiros que trabalharam na reparação da ponte escreveram que aquelas fundações tinham sido, quando se afundaram, um recorde mundial. Lá em baixo, de tempos a tempos, há mergulhadores a inspecionar os maciços de betão dos pilares: chegam a quarenta metros, ficam cerca de quarenta e cinco minutos de cada vez e só trabalham nas horas em que a maré abranda a corrente. «Somos os olhos e o instrumento do inspetor e do engenheiro», diz um deles. À volta, um sonar mede o leito que o rio vai alterando, e quem gere a ponte não vê nisso risco para a estrutura: as fundações vão muito abaixo dele.
O recorde anunciado em 1963 é hoje o que deixa o rio mexer à vontade.
Fontes13 referências
- Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.º 1802, 16 de janeiro de 1963, pp. 479-482, «A ponte sobre o Tejo» (discursos de José do Canto Moniz, Charles K. McCracken e Eduardo de Arantes e Oliveira no lançamento de Algés); n.º 1888, 16 de agosto de 1966, p. 215.
- Diário de Lisboa, Magazine, 6 de agosto de 1966.
- Hemeroteca Digital de Lisboa, «Efemérides: Inauguração da Ponte sobre o Tejo na Imprensa», texto de Jorge Mangorrinha, agosto de 2016 (com citações do Diário de Notícias, de 7 de agosto de 1966, e da revista Arquitectura, n.º 93, maio-junho de 1966).
- Building with Steel, 1965, «Bridge over the River Tagus», reproduzido por New Steel Construction.
- J. Marécos, M. Castanheta e J. Teixeira Trigo, «Field Observation of Tagus River Suspension Bridge», Journal of the Structural Division (ASCE), vol. 95, n.º 4, 1969.
- José Paulo Costa, António Couceiro e Santinho Horta, «Repair and conservation works on Tagus suspension bridge», conferência Durable Structures: from construction to rehabilitation (ICDS12), Lisboa.
- Direção-Geral do Património Cultural, registo da Ponte 25 de Abril (nota histórico-artística de Elisabete Serol, 2016).
- Laboratório Nacional de Engenharia Civil, museu virtual, «Observação de Pontes».
- Público, infografia «Ponte 25 de Abril: sobre o Tejo há 50 anos» e «A ponte que uniu as duas margens do Tejo e mudou o país», 6 de agosto de 2016.
- RTP, «Construção da Ponte 25 de Abril», 2016 (com citações de Luís F. Rodrigues, A Ponte Inevitável); RTP, «Ponte 25 de Abril celebra seis décadas», 6 de agosto de 2026.
- Infraestruturas de Portugal, «A Ponte 25 de Abril está de parabéns: 60 anos a ligar destinos», 6 de agosto de 2026, e «A segurança da Ponte 25 de Abril nas águas do Tejo», 6 de outubro de 2026.
- Observador/Lusa, «Com 60 anos, Ponte 25 de Abril é preferida e revolucionária», 6 de agosto de 2026.
- Ordem dos Engenheiros, «Ponte 25 de Abril liga destinos há 55 anos», 6 de agosto de 2021.
