O engenheiro que dirigia o ataque a uma praça do Alentejo tinha desenhado projetos para ela. Morreu ali, em junho de 1648.
Chamava-se João Pascásio Cosmander. Era flamengo, padre da Companhia de Jesus, e servira o rei de Portugal.
Em 1647 tinha sido capturado.
Saíra de Estremoz para Elvas sem avisar da saída e sem escolta, e uma partida castelhana levou-o. Ficou preso em Badajoz. As autoridades portuguesas tentaram trocá-lo por outros prisioneiros e não conseguiram, precisamente por causa daquilo que ele sabia: conhecia perfeitamente as fortificações da fronteira. De Badajoz foi levado para Madrid, e foi ali que entrou ao serviço do rei de Espanha, que lhe prometeu a entrega da praça de Olivença. Voltou com o exército castelhano, e foi nesse ataque que morreu.

Mudar de exército não era coisa só de estrangeiros. Fazia-se nos dois sentidos e era recompensado: um oficial português que passasse para o lado espanhol costumava receber uma promoção, o que consolidava lealdades e levava outros a imitá-lo. E o motivo mais registado, quando um estrangeiro ao serviço do reino mudava de lado, era a demora no pagamento do soldo.
Portugal aclamara D. João IV em 1640, e a guerra com Espanha que se lhe seguiu durou até 1668. A fronteira de terra não estava preparada. No período filipino a defesa apostara na costa, e muitas praças da raia tinham ainda castelos medievais, que a artilharia tornara indefensáveis. A arquitetura militar mudara: muros baixos e espessos, com baluartes, sem torreões nem torre de menagem. Chamou-se-lhe fortificação abaluartada, de origem italiana.
O reino não tinha um corpo de técnicos para acompanhar aquelas obras. A solução veio de fora, por via diplomática: contrataram-se franceses, holandeses e flamengos. E a falta não começara em 1640. Desde meados do século XVI que chegavam a Portugal engenheiros militares estrangeiros, boa parte deles italianos, por não haver cá um escol formado para esse trabalho.

Nicolau de Langres era engenheiro ordinário ao serviço do rei de França. A 31 de março de 1644 assinou um contrato para servir em Portugal por três anos, a cinquenta cruzados por mês. Foi o embaixador de Portugal em França quem lhe arranjou a vinda. Subiu a superintendente dos engenheiros. E, por volta de 1660, passou ao serviço de Castela.
Deixou um caderno com cinquenta e sete desenhos, que está hoje na Biblioteca Nacional. O título é este: Desenhos e plantas de todas as praças do Reyno de Portugal.
A participação de Langres foi decisiva nos ataques castelhanos a Arronches, Juromenha, Ouguela, Évora e Vila Viçosa, praças em que ele próprio trabalhara e para as quais apresentara projetos. Todas foram conquistadas, menos a última.

Em 1647 abriu em Lisboa, na Ribeira das Naus, a Aula de Fortificação e Arquitetura Militar, e a regência foi entregue a Luís Serrão Pimentel. O curso podia durar até cinco anos. O lugar de oficial engenheiro só se obtinha depois de um exame, perante um júri composto pelo engenheiro-mor do Reino e por outros engenheiros. O objetivo declarado era formar engenheiros portugueses.
A sala começou por traduzir. O ensino do traço renovou-se a partir da Architecture Militaire, de 1645, do padre Fournier, da Academia de Fortificacion de Plazas, de 1651, de Henrique Villegas, e do manual de Simon Stevin.
Do conteúdo das lições dadas naquela sala pouco se sabe.

Serrão Pimentel escrevera um método para desenhar fortificações e queria imprimi-lo. A 13 de abril de 1666 o Conselho de Guerra respondeu à sua petição. O primeiro parecer, pedido ao governador das armas da Corte, foi contra.
Não era fundamental, dizia, um tratado teórico sobre fortificação: até ali muitos tinham feito desenhos para fortalezas sem recurso a teoria escrita, e os problemas vinham das vicissitudes do terreno, onde «não pode hauer regra». E a ciência ficava abaixo da experiência: «não ser tão útil nos engenheiros a sciencia como a experiencia». O que cabia a Serrão Pimentel era ensinar: devia ir a Estremoz, onde havia «muitos soldados mui coriosos da fortificação». Havia objeções de fundo, e uma delas era esta: um livro não faz um engenheiro.
O Conselho ouviu mais conselheiros e o conjunto dos pareceres foi favorável. A resolução de 23 de setembro de 1666 indicava ao rei a intenção de mandar imprimir. Uma nota à margem, de 3 de novembro, obrigava-o a dar primeiro aquela lição em Estremoz.

Aprovaram o livro e mandaram-no dar aulas. O livro não saiu nos catorze anos seguintes.
A paz chegou em 1668. Os cabos e oficiais de guerra «que se deuião aplicar a este nouo invento» dispersaram-se, e a lição nunca se deu.
A 21 de agosto de 1677 Serrão Pimentel voltou a pedir, e o Conselho de Guerra mandou imprimir. A razão já não era a fronteira com Espanha: o método servia para formar engenheiros que iam despachados para a Índia e para o Brasil, «por hauer la poucos, principalmente no estado da India».

As duas censuras de impressão estão datadas de 1678. Serrão Pimentel morreu em 1679. O livro saiu em Lisboa em 1680, dedicado ao príncipe D. Pedro, na impressão de António Craesbeeck de Mello, com seiscentas e sessenta e seis páginas e trinta e seis folhas desdobráveis de gravuras. Foi o primeiro tratado do género escrito em português e por um português, e era devedor das escolas francesa e holandesa: Manuel de Azevedo Fortes viria a acusá-lo, em O Engenheiro Portuguez, de as seguir à risca, e Rui Bebiano considera que o tratado ficou aquém por não incluir Vauban.
No fim de Seiscentos e no princípio de Setecentos abriram academias militares lecionadas por quadros formados na sequência daquela sala: Bahia em 1696, Rio de Janeiro em 1698, Peniche em 1719, Elvas em 1732. A aula de artilharia que Serrão Pimentel abrira em Lisboa em 1641 seguira os passos de outra, instituída antes na Bahia.
Diogo da Silveira Veloso estudou na Aula de Fortificação de Lisboa, onde foi aluno de Francisco Pimentel, filho de Luís Serrão Pimentel. Partiu para o Brasil em 1702. Na travessia para Pernambuco naufragou na enseada do rio Vaza-Barris e perdeu tudo.
Chegado ao Recife, pediu uma ajuda de custo, entre outras razões «para que se lhe compre alguns livros para estudo da arquitectura militar» e instrumentos. Disse que eram para estabelecer uma aula e ensinar fortificação. A 27 de janeiro de 1707 o Conselho Ultramarino levou o requerimento ao rei.
Na mesma lista iam um livro de senos, tangentes e secantes, um tomo de Zepeda, as obras de Medrano e um tomo de artilharia de Firrufino, todos em castelhano, e, em francês, as obras de Ozanam; e instrumentos: um compasso, uma régua, um pantómetro, um semicírculo repartido em cento e oitenta graus. Dizia que eram feitos em Paris e que se compravam baratos em Inglaterra e na Holanda.
O requerimento de 1707 prova o que foi encomendado. Não prova que chegou.
Em 1666, o primeiro parecer sobre aquele livro respondera que naquilo «não pode hauer regra». Em 1680 a regra saiu impressa em Lisboa, com seiscentas e sessenta e seis páginas. Em 1707, um homem que tinha perdido tudo no mar pediu uma dúzia de exemplares para mandar à Bahia, a Pernambuco e a Angola.
Fontes10 referências
- FERREIRA, Nuno Alexandre Martins, Luís Serrão Pimentel (1613-1679): Cosmógrafo Mor e Engenheiro Mor de Portugal, dissertação de mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2009. Reconstitui o processo de impressão do Methodo Lusitanico a partir das consultas do Conselho de Guerra de 1666 e 1677, que publica em apêndice documental. É daqui que vêm todas as citações seiscentistas dos pareceres. Exemplar no Repositório da Universidade de Lisboa.
- SOUSA, Pedro Marquês de, Biografia de Luís Serrão Pimentel (1613-1679). Patrono do curso de entrada na Academia Militar no ano lectivo 2014/2015, Academia Militar, 2014. O autor é professor de História da Academia Militar. Dá a inscrição tumular, a lista de academias do império e as campanhas da Restauração.
- BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, texto da mostra Restauração e a fortificação moderna. Nicolau de Langres e as praças no Alentejo, 2 de agosto a 1 de outubro de 2022, com comissariado de Margarida Valla (ARTIS-IHA/FLUL).
- CENTRO INTERUNIVERSITÁRIO DE HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS E DA TECNOLOGIA / BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, texto da exposição Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII, 2014, com organização de Henrique Leitão. Cópia do Arquivo.pt de 7 de dezembro de 2017.
- JUCÁ NETO, Clovis Ramiro, «Diogo da Silveira Veloso», eViterbo, CHAM, Centro de Humanidades, FCSH/Universidade NOVA de Lisboa, 2022, DOI 10.34619/juju-lwit. Produzido no projeto TechNetEMPIRE (Redes técnico-científicas na formação do ambiente construído no Império português, 1647-1871), financiado pela FCT. Assenta em documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, em consultas do Conselho Ultramarino, nas chancelarias régias na Torre do Tombo e nos manuscritos de Veloso na Biblioteca da Ajuda. É daqui que vem o requerimento de 1707. Conteúdo disponibilizado nos termos da licença CC BY-SA 4.0.
- eViterbo, verbetes «João Paschasio Cosmander» e «Nicolau de Langres», CHAM/FCSH-NOVA, assentes no Diccionario Histórico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portugueses de Francisco de Sousa Viterbo (1899-1922). Licença CC BY-SA 4.0.
- GARCÍA BLANCO, Julián, El Atlas de Nicolás de Langres. Nuevas aportaciones, Asociación Histórico-Militar Alfonso IX, Badajoz, 2022. Toma como guia a monografia de Gastão de Mello de Mattos, Nicolau de Langres e a sua obra em Portugal (1941), e corrige-a com documentação do Archivo General de Simancas, do Arquivo Histórico Militar e das Cartas dos governadores da província do Alentejo a El-Rey D. João IV. Dá a captura de Cosmander, a promessa que lhe foi feita e as divergências de data sobre a passagem de Langres.
- BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL: Methodo Lusitanico de desenhar as fortificaçoens das praças regulares, & irregulares, Lisboa, António Craesbeeck de Mello, 1680, cota SA-1138-A; a versão manuscrita anterior a 1680, cota cod-11005; e Desenhos e plantas de todas as praças do Reyno de Portugal, de Nicolau de Langres, cota COD-7445.
- Wikipédia em português, verbete «Nicolau de Langres», para o ataque de 1662 a Juromenha.
- DIRECTORY OF OPEN ACCESS BOOKS, registo de VELLOZO, Diogo da Sylveyra, Arquitetura militar ou fortificação moderna, EDUFBA, Salvador, 2005, edição de Mário Mendonça de Oliveira.
