Uma agulha com mais de dez centímetros, espetada nas costas de um doente vivo, ao lado da coluna, até à aorta, a principal artéria do corpo: foi isso que Reynaldo dos Santos e dois colegas de Lisboa apresentaram em Paris, em 1929. Pela agulha injetavam iodeto de sódio, um contraste que os raios X não atravessam, e a chapa mostrava a aorta e os ramos que levam o sangue ao rim, ao fígado e ao baço.
O exame chama-se aortografia. Nos anos cinquenta, as revistas americanas de radiologia, como a Radiology, haviam de escrever que tinham sido eles os primeiros a descrevê-la. Em 1956, numa tese da Universidade de Glasgow, o cirurgião W. Barr Stirling escreveu que a punção, tal como fora descrita, continuava a ser a base de todas as técnicas que dela tinham saído, e que era devida homenagem a Reynaldo dos Santos não só pela originalidade, mas também «pela coragem e visão», perante uma oposição considerável. Para o diagnóstico, a agulha acabou por dar lugar ao cateter. Mas a agulha pelas costas ainda se usa, com outro fim: quando se põe uma prótese por dentro da aorta e o sangue continua a passar para o aneurisma, há quem lá chegue assim para tapar a fuga.

Nos primeiros tempos, porém, o método foi recebido com muita desconfiança, por ser tido como difícil e perigoso; assim o lembraram em 1952 na Sociedade de Cirurgia do Uruguai. E o homem da agulha tinha outra vida. Em 1921, segundo o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, fora a Pisa à procura de um pintor de Évora que, contou o próprio, lá ninguém conhecia.

Em Pisa, guiava-o uma nota de um historiador italiano do século XIX, Gaetano Milanesi, que descrevera uma tábua de altar na igreja de Santa Croce, nos arredores da cidade, e lhe copiara a assinatura. As primeiras pesquisas, contou Reynaldo, foram desanimadoras: de Álvaro Pires ninguém conhecia nem quadro nem nome, e Santa Croce parecia desconhecida dos pisanos. Insistiu, e acabaram por lha indicar fora das muralhas: uma pequena igreja meio arruinada. Bateu à porta. O franciscano que lhe abriu o portão, ao ouvir que o visitante era português, perguntou-lhe sorrindo: «Vem então para ver o Álvaro?»

Na tábua está escrito, em português: «Álvaro Pirez d'Évora pintou». Reynaldo publicou um livro sobre o pintor em 1922. No mesmo ano saiu A Torre de Belém, livro em que atribuiu o desenho da torre a Francisco de Arruda, com base num documento da Torre do Tombo.

Na medicina, entretanto, algumas artérias já se tinham deixado ver em vida. Em 1923, Berberich e Hirsch obtiveram as primeiras imagens de vasos periféricos num doente vivo; em 1924, Brooks publicou a primeira arteriografia da perna feita em vida, com iodeto de sódio; e em 1927 Egas Moniz fez a primeira arteriografia do cérebro, trabalho de que Reynaldo se apresentaria como continuador. Os vasos profundos do corpo continuavam por mostrar.

Reynaldo dos Santos, nascido em 1880 em Vila Franca de Xira, tinha montado no Hospital de Arroios, em Lisboa, um centro de investigação experimental, e desde 1925 dirigia ali o serviço de cirurgia geral. Trabalhava com o cirurgião Augusto Lamas e o radiologista Pereira Caldas.

Começaram em 1928, conta o próprio, pelas artérias dos membros, e passaram depois à aorta e aos vasos do abdómen. A agulha entrava pelas costas e furava a parede da aorta; o iodeto de sódio, muito concentrado, era injetado sob pressão, com a ajuda de um aparelho. O fígado, o rim, o baço e o útero, escreveu ele mais tarde, mostraram cada um a sua circulação, e o método serviu sobretudo para as doenças do rim e para os aneurismas e as obstruções da própria aorta. Reynaldo afirmou ter feito trezentas aortografias sem um único acidente e, mais tarde, deu conta de uma só hemorragia em mil e quinhentas. Nos Estados Unidos houve quem achasse esses números otimistas demais.

Espetar às cegas uma agulha na aorta despertava, escreveu Stirling, uma desconfiança natural e compreensível: o medo de uma hemorragia imediata e, mais tarde, de um aneurisma ou de uma embolia. O iodeto concentrado provocava reações graves. Em junho de 1933, Reynaldo levou o método a Londres, ao congresso da Sociedade Internacional de Urologia, e a comunicação, segundo Stirling, foi ignorada na Grã-Bretanha. Em 1936, nos Estados Unidos, Henline e Moore experimentaram a punção em cães, com iodeto a cem por cento, e vários morreram de hemorragia ou intoxicados. O resultado atrasou durante anos a aceitação do método. Reynaldo respondeu que a anatomia do cão e a do homem não eram comparáveis.
Durante vários anos, nas palavras de Stirling, a aorta inspirou um respeito quase reverencial. Durou até 1941.
Nesse ano, Fariñas também chegou à aorta, mas, para não ter de a furar, por um tubo fino, um cateter, metido pela artéria femoral, na virilha. No ano seguinte, nos Estados Unidos, dois médicos, Nelson e Doss, publicaram os poucos casos que tinham feito.
Trabalhavam cada um por si, e ambos tinham voltado à punção de Arroios.
Fontes20 referências
- Reynaldo dos Santos, «Indicaciones actuales de la arteriografía», Anales de Medicina y Cirugía, Barcelona, vol. XXIV, n.º 37.
- Reynaldo dos Santos, Alvaro Pires d'Evora, pintor quatrocentista em Italia, Lisboa, 1922.
- Reynaldo dos Santos, A. C. Lamas e J. P. Caldas, Artériographie des membres et de l'aorte abdominale, prefácio de Leriche, Paris, Masson, 1931; recensões no Journal of the American Medical Association (3 de setembro de 1932) e no American Journal of Surgery (novembro de 1932).
- Garrison-Morton-Norman, History of Medicine, entrada n.º 2859.
- W. Barr Stirling, Aortography in Diagnosis, tese de Master of Surgery, Universidade de Glasgow, março de 1956.
- David Shapiro, «Abdominal Arteriography», Radiology 60, 1953.
- Journal of the American Medical Association, «Aortography», editorial de 23 de fevereiro de 1952.
- Eugene F. Poutasse, William J. Engel e Joseph C. Root, «Translumbar Aortography», Cleveland Clinic Quarterly 19, 1952.
- I. H. Griffiths, «Aortography», Postgraduate Medical Journal 35, 1959.
- Eugenio R. Zerboni e outros, «Aortografía abdominal translumbar», Boletín de la Sociedad de Cirugía del Uruguay, sessão de 13 de agosto de 1952.
- F. S. Lozano Sánchez e J. A. González Fajardo, «Ochenta años de la primera aortografía practicada en España», Angiología, 2015.
- Catarina Janeiro, José Amarante e José Paulo Andrade, «Angiography: in the shadow of a non-consensual Nobel», Medicina Historica, 2025.
- João Martins Pisco, «A radiologia de intervenção vascular em Portugal: passado e presente», Acta Radiológica Portuguesa 27, 2015.
- Georges Le Gentil, recensão de A Torre de Belém, Bulletin hispanique 29, 1927.
- Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, news@fmul n.º 96, dezembro de 2019, e notícia da inauguração do Edifício Reynaldo dos Santos.
- Museu Nacional de Arte Antiga, «Painéis de São Vicente».
- RTP/Lusa, 27 de novembro de 2019, sobre a exposição de Álvaro Pires de Évora no MNAA.
- Clara Moura Soares, sobre as tapeçarias de Pastrana, Archivo Español de Arte, 2023.
- Câmara Municipal de Cascais, Cascais Cultura, 11 de abril de 2024.
- Estudos de embolização translombar de endofugas de tipo II: série de 2011-2018 (PubMed 34197948); Smorenburg e outros, Journal of Endovascular Therapy, 2023; Journal of Vascular and Interventional Radiology, resumo 180, 2025.
