Cristóvão Colombo estava presente e deixou-o escrito à margem de um livro do papa Pio II. Em 1485, conta ele, o rei de Portugal mandou o seu físico, mestre José, tomar a altura do Sol em toda a Guiné, e mestre José fez tudo e deu conta ao rei. «Me presente», escreveu Colombo. Estando eu presente.
O mesmo mestre José foi um dos homens a quem o rei mandou ouvir o projeto de Colombo. Conta o cronista João de Barros que todos tiveram as palavras de Colombo por «vaidade», por tudo ser fundado «em imaginações, e cousas da Ilha Cypango de Marco Paulo».
Em 1496, na última página de um livro impresso em Leiria, o fim da impressão ficou datado pela posição do Sol no zodíaco: quinze graus, cinquenta e três minutos e trinta e cinco segundos de Peixes, «sob o céu de Leiria». Na mesma página está o nome de José Vizinho, judeu, médico de D. João II, que os historiadores identificam com o mestre José de Colombo e de Barros. A Biblioteca Nacional cataloga o livro com a data de 25 de fevereiro de 1496.

Chama-se «Almanach perpetuum» e é um livro de tábuas com o lugar do Sol, da Lua e dos planetas, dia a dia ou de poucos em poucos dias. O autor, Abraão Zacuto, astrónomo judeu de Salamanca, calculou as posições à mão, a partir das Tábuas Afonsinas, as dos astrónomos de Afonso X de Castela. Os historiadores José Chabás e Bernard Goldstein refizeram-lhe as contas e concluíram que estão certas. Sublinham ainda que, antes de chegar a Portugal, Zacuto nunca tinha vivido perto do mar, e que o que escreveu foi um livro de astronomia, não de navegação. Um historiador da náutica, Fontoura da Costa, chamou-lhe «um livro de gabinete para astrólogos, astrónomos e cosmógrafos, que os marítimos não podiam usar».
Mas o livro chegou ao mar por outras mãos. Vizinho escreveu-lhe as explicações de uso, os cânones. Na versão castelhana, os cânones ensinavam o cálculo com um exemplo: saber o verdadeiro lugar do Sol a 15 de março de 1495.

O piloto Francisco Rodrigues pôs o mesmo exemplo no caderno de marinharia, quase palavra por palavra, mas a 15 de março de 1520, com tábuas que contavam a partir de 1508. E, para a conta bater certo com o número da tábua, errou a divisão.
As tábuas do piloto já não eram as de Zacuto. O exemplo era. Luís de Albuquerque, que pôs os dois textos lado a lado, concluiu que alguns pilotos conheciam e sabiam usar as tábuas solares «de gabinete».

No mar, o Sol dava a latitude. O piloto media a altura do Sol ao meio-dia e precisava de saber quanto se afastava o Sol do equador nesse dia, a declinação. Esse número vinha de tábuas.
Zacuto veio para Portugal quando os Reis Católicos expulsaram os judeus de Espanha, em 1492, e em 1493 estava ao serviço de D. João II.

Todos os outros livros do impressor, Abraão d'Ortas, eram em hebraico. O «Almanach» saiu com os cânones em latim numa tiragem e em castelhano noutra, as duas versões da mão de Vizinho. As tábuas eram as mesmas nas duas.
Mestre José já tinha trabalhado com o Sol antes do livro de Leiria, e não só na Guiné. Barros conta que D. João II encomendara a «Mestre Rodrigo, e a Mestre Josepe Judeo, ambos seus Médicos», o problema de navegar longe da costa, e que eles «acharam esta maneira de navegar per altura do Sol» e fizeram tábuas da declinação dele.

Em fevereiro de 1496, o cólofon, a nota final do livro de Leiria, chamava a Zacuto astrónomo do sereníssimo rei D. Manuel. Em dezembro de 1496, D. Manuel assinou o édito que mandava sair dos seus reinos, até ao fim de outubro de 1497, todos os judeus e mouros forros.
Em 1497, para impedir que os judeus saíssem, o rei ordenou o batismo forçado de crianças judias, tiradas aos pais, e houve conversões forçadas de muitas famílias.

Do mestre José da nota de Colombo, depois do édito, as fontes citadas não registam notícia segura. Zacuto saiu do reino. Em Túnis, adaptou uma das suas obras para o ano de 1501, e por volta de 1513 fez tábuas novas para Jerusalém.
Na primeira viagem de Vasco da Gama, em 1497, a armada chegou à baía a que hoje se chama de Santa Helena. Gama desembarcou para fazer aguada e tomar a altura do Sol em terra, porque os navios eram pequenos e balançavam. Levava astrolábios pequenos, de latão, mas usou um de pau, com três palmos de diâmetro, armado em três paus, à maneira de cábrea. Que tábuas de declinação levavam os pilotos dessa viagem, não se sabe.

Em 1518, um livro impresso em Lisboa, o «Reportório dos Tempos», dizia que as tábuas da declinação do Sol para os anos de 1517 a 1520 tinham sido tiradas do «Almanach» pelo aritmético Gaspar Nicolas. E Luís de Albuquerque escreveu que as declinações do guia náutico de Évora, um livro de bolso impresso em Lisboa e provavelmente levado a bordo, foram calculadas a partir dos números de Zacuto. Desse guia, só se conhece um exemplar.
Em 1537, Pedro Nunes aconselhou que os pilotos passassem a usar cinco tábuas análogas às de Zacuto. Fontoura da Costa achou o conselho inoportuno e desculpou Nunes por ser «um sábio de gabinete, que nunca tinha navegado».

O «Almanach» teve várias edições em latim no século XVI e pelo menos duas traduções para árabe. Uma é de Aḥmad ibn Qāsim al-Ḥaǧarī, um morisco nascido em Hornachos, na Estremadura espanhola, que passou os primeiros trinta anos da vida em Espanha.
Segundo o historiador Julio Samsó, as tábuas tiveram êxito no Magrebe por serem mais fáceis de manejar do que as que ali se usavam. Nos séculos XVII e XVIII, vários estudiosos magrebinos escreveram-lhes cânones novos, explicações de uso mais simples, em parte porque o árabe da tradução tinha erros.

As tábuas de Zacuto, impressas sob o céu de Leiria, foram copiadas e recopiadas no Magrebe até à segunda metade do século XIX.
Fontes16 referências
- Abraão Zacuto, Almanach perpetuum celestium motuum, com os cânones de José Vizinho, Leiria, Abraão d'Ortas, 1496. Exemplar da Biblioteca Nacional de Portugal, INC-187, digitalizado na Biblioteca Nacional Digital. A página de rosto, a carta dedicatória e o cólofon. purl.pt
- João de Barros, Da Ásia, Década I, Lisboa, 1552; edição de Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1778, volume 1, parte 1. Livro III, capítulo XI, e livro IV, capítulo II. archive.org
- Luís de Albuquerque, «Almanach Perpetuum», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (CHAM), 2009, do Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses. eve.fcsh.unl.pt
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