Em janeiro de 1668, assentou praça no Regimento de Infantaria de Lagos um soldado raso com a Virgem Maria por fiadora. Todo o recruta precisava de um fiador: alguém que se obrigasse a dar um substituto, se o recruta desertasse.

O soldado era Santo António, que morrera em Pádua em 1231. Alistou-o o regente D. Pedro, por alvará de 24 de janeiro. Pagaram-lhe o soldo em três continentes, e a última vez foi em 1999, em Macau.

Evocação pintada de um escrivão de regimento em 1668. Todo o recruta precisava de um fiador; para o soldado Santo António, a fiadora aceite foi a Virgem Maria.
FIG. 02Evocação pintada de um escrivão de regimento em 1668. Todo o recruta precisava de um fiador; para o soldado Santo António, a fiadora aceite foi a Virgem Maria.

Não era a primeira vez que o alistavam. Em 1665, em plena guerra com Castela, D. Afonso VI já o mandara assentar praça num terço de Lisboa, e um folheto em verso, saído da oficina do impressor do rei, dizia-lhe: «Que um Terço com tal Soldado / Segurar pode a Coroa.»

Frontispício das «Decimas ao Serenissimo Rey D. Affonso VI. quando mandou alistar por Soldado ao glorioso Santo Antonio de Lisboa», de Jeronymo Vahia, impressas em Lisboa na oficina de Henrique Valente de Oliveira em 1665. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)
FIG. 03Frontispício das «Decimas ao Serenissimo Rey D. Affonso VI. quando mandou alistar por Soldado ao glorioso Santo Antonio de Lisboa», de Jeronymo Vahia, impressas em Lisboa na oficina de Henrique Valente de Oliveira em 1665. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)

O soldado de Lagos nunca foi açoitado nem preso, conta o general francês Maximilien Foy, e a 12 de setembro de 1683 foi promovido a capitão do regimento.

Pintura da capela-mor da igreja de Santo António, em Lagos, a antiga igreja de Santo António dos Militares, reconstruída em 1769 por ordem do comandante do regimento. A partir de uma fotografia real de Notafly (CC0).
FIG. 04Pintura da capela-mor da igreja de Santo António, em Lagos, a antiga igreja de Santo António dos Militares, reconstruída em 1769 por ordem do comandante do regimento. A partir de uma fotografia real de Notafly (CC0).

Em Lagos, no livro de vencimentos do regimento, estava escriturado o soldo que vencia «O Senhor Santo António Capitão e Protector deste Regimento». O dinheiro recebia-se em nome dele e ia para o culto: para a capela e para a festa.

Pintura da imagem de Santo António no trono do altar-mor da igreja de Santo António, em Lagos. A imagem do regimento, com a banda de oficial e o bastão de comando, está no Museu Municipal, anexo à igreja. A partir de uma fotografia real de Notafly (CC BY 4.0).
FIG. 05Pintura da imagem de Santo António no trono do altar-mor da igreja de Santo António, em Lagos. A imagem do regimento, com a banda de oficial e o bastão de comando, está no Museu Municipal, anexo à igreja. A partir de uma fotografia real de Notafly (CC BY 4.0).

Em 1777, no início do reinado de D. Maria I, o comando do regimento pediu à rainha que promovesse o santo a major. O memorial, segundo Foy, dizia que Santo António era o capitão mais antigo, não só do regimento, mas de todo o exército, e que era capitão havia noventa anos.

Evocação pintada do pagamento do soldo em Lagos: no livro de vencimentos do regimento escriturava-se o soldo de «O Senhor Santo António Capitão e Protector deste Regimento», e o dinheiro ia para a capela e para a festa.
FIG. 06Evocação pintada do pagamento do soldo em Lagos: no livro de vencimentos do regimento escriturava-se o soldo de «O Senhor Santo António Capitão e Protector deste Regimento», e o dinheiro ia para a capela e para a festa.

A corte foi além do pedido. Por decreto de janeiro de 1780, deu-lhe uma patente de oficial-general, puramente honorária. Em Lagos, nada mudou: o nome continuou na lista do regimento como capitão, e o soldo de capitão continuou a ser recebido em nome dele.

Evocação pintada de 1807: o general Junot pediu uma relação das patentes, comissões e serviços de Santo António e, segundo o general Foy, o soldo do velho capitão de Lagos continuou a ser entregue ao coronel.
FIG. 07Evocação pintada de 1807: o general Junot pediu uma relação das patentes, comissões e serviços de Santo António e, segundo o general Foy, o soldo do velho capitão de Lagos continuou a ser entregue ao coronel.

Depois veio a invasão francesa de 1807. Com os franceses já em Portugal, o príncipe regente D. João embarcou com a corte para o Brasil: os navios saíram de Belém a 29 de novembro. O general Junot pediu então uma relação das patentes, comissões e serviços de Santo António. Foy, que serviu no exército francês em Portugal, escreve que Junot não quis ser menos generoso do que os reis de Portugal: o soldo do velho capitão de Lagos foi entregue escrupulosamente ao coronel, até o regimento deixar de existir.

Evocação pintada do Rio de Janeiro em setembro de 1710: o governador mandou à imagem de Santo António do convento franciscano a patente de capitão de infantaria.
FIG. 08Evocação pintada do Rio de Janeiro em setembro de 1710: o governador mandou à imagem de Santo António do convento franciscano a patente de capitão de infantaria.

O regimento acabou; a imagem ficou. Está hoje no Museu Municipal de Lagos, anexo à igreja de Santo António, com a banda de oficial e o bastão de comando.

Evocação pintada de 1923, no Rio de Janeiro: o parecer do consultor-geral da República do Brasil contra voltar a pagar o soldo ao santo. Figura genérica, não retrato.
FIG. 09Evocação pintada de 1923, no Rio de Janeiro: o parecer do consultor-geral da República do Brasil contra voltar a pagar o soldo ao santo. Figura genérica, não retrato.

Do outro lado do mar, muito antes de Junot, o santo já tinha carreira feita. No Rio de Janeiro, em setembro de 1710, com os franceses de Duclerc às portas da cidade, o governador Castro Morais mandou à imagem de Santo António do convento franciscano a patente de capitão de infantaria. Praça de soldado, já ele tinha. Uma carta régia de 1711 aprovou a patente e mandou que os soldos, iguais aos dos outros capitães, se aplicassem «para sua festa e ornato de sua capela».

Evocação pintada da manhã de 12 de junho de 1784, em Macau: o vereador mais velho, o escrivão e o tesoureiro do Senado saem da casa da Câmara, cada um na sua cadeira, o tesoureiro com a bolsa do soldo.
FIG. 10Evocação pintada da manhã de 12 de junho de 1784, em Macau: o vereador mais velho, o escrivão e o tesoureiro do Senado saem da casa da Câmara, cada um na sua cadeira, o tesoureiro com a bolsa do soldo.

Em 1810, D. João, já no Rio, fê-lo sargento-mor de infantaria da capitania. O decreto acrescentava: «e que pela Tesouraria se lhe fique pagando o competente soldo». Um aviso de outubro desse ano mandou pagá-lo sem desconto de emolumento algum. Em 1814, o santo subiu a tenente-coronel.

A igreja de Santo António, em Macau, fotografada entre 1874 e 1875. (Wikimedia Commons, domínio público)
FIG. 11A igreja de Santo António, em Macau, fotografada entre 1874 e 1875. (Wikimedia Commons, domínio público)

O Brasil fez-se independente em 1822, e o Estado brasileiro continuou a pagar. Segundo o convento, até abril de 1911. Em 1923, o guardião pediu ao Ministério da Guerra do Brasil que se voltasse a pagar. Do processo não constava por ordem de quem, nem com que fundamento, se tinha deixado de o pagar.

Evocação pintada da festa de Santo António em Macau, em 1999: um envelope em vez da bolsa. Foi o último pagamento.
FIG. 12Evocação pintada da festa de Santo António em Macau, em 1999: um envelope em vez da bolsa. Foi o último pagamento.

A 3 de abril de 1923, o consultor-geral da República do Brasil deu parecer contra, com duas razões. Pagar a festa e a capela de um santo era subvencionar um culto, e a Constituição brasileira proibia-o. E um direito adquirido precisava de um titular, que tinha de ser uma pessoa, física ou jurídica. Escreveu: «Ora, essa capacidade jurídica, essa qualidade de pessoa, não pode ser encontrada quer no Santo, impessoalmente, quer na sua imagem existente no Convento desta Cidade.»

Em Macau, onde também assentara praça de soldado, o soldo foi suspenso em 1780. Em 1783, o Senado mandou pagar-lhe os atrasados, fê-lo Capitão da Cidade e só depois o comunicou a Goa. O governador da Índia aprovou no ano seguinte, com um reparo: a promoção devia ter-lhe sido pedida primeiro.

Daí em diante, o Senado levou-lhe o soldo todos os anos, pela festa de 13 de junho. Com o tempo, a cerimónia passou a fazer-se de automóvel, e o soldo a ir num envelope. Até 1974, quando acabou a guarnição militar de Macau, havia guarda de honra à porta da igreja. O último pagamento, o de 1999, foi no ano em que a administração de Macau passou para a China.

Da entrega de 1784 ficou uma descrição pormenorizada. Às oito da manhã de 12 de junho, véspera da festa, o vereador mais velho, o escrivão e o tesoureiro do Senado saíram da casa da Câmara, cada um na sua cadeira. O tesoureiro levava uma bolsa de cetim carmesim, com borlas e cordões dourados, onde se lia: «Soldo de Capitão da Cidade que tem vencido até ao dia treze deste mês o Glorioso S. Santo António e que lhe remete o Nobre Senado.» O soldo era entregue ao vigário da igreja. A bolsa passou para uma salva de prata e foi posta aos pés da imagem, enquanto os sinos repicavam.

Os três homens do Senado rezaram, receberam o recibo e saíram.

Fontes15 referências
  • Jeronymo Vahia, Decimas ao Serenissimo Rey D. Affonso VI. quando mandou alistar por Soldado ao glorioso Santo Antonio de Lisboa, Lisboa, Officina de Henrique Valente de Oliveira, 1665, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Sebastião da Fonseca e Paiva, Redondilhas a Santo Antonio alistarse por soldado na occasiam da Campanha do Alem-Tejo no anno de 1665, Lisboa, Henrique Valente de Oliveira, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Maximilien Foy, History of the War in the Peninsula, under Napoleon, vol. I, Londres, 1827, pp. 237 e 238. archive.org
  • «Santo António, Patrono do Regimento de Lagos», Costa de Oiro, Lagos, junho de 1936, p. 10, Hemeroteca Digital do Algarve. hemeroteca.ualg.pt
  • Isabel Maria Dâmaso Santos, «Santo António militar no contexto ibérico», Revista Estudios 39 (2019), Universidade da Costa Rica. doi.org
  • Ronaldo Vainfas, «Santo Antônio na América portuguesa: religiosidade e política», Revista USP 57 (2003), pp. 28 a 37. doi.org
  • Rafael Brondani dos Santos, «Santo Soldado: militarização de Santo Antônio no Rio de Janeiro setecentista», ANPUH, XXIII Simpósio Nacional de História, Londrina, 2005. anpuh.org.br
  • Parecer do Consultor-Geral da República, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1923, transcrito por Arnaldo Godoy, Consultor Jurídico, 16 de julho de 2015. conjur.com.br
  • «Ele Protegia o Rio e Recebia por Isso: A História do Soldo de Santo Antônio, Tenente Coronel», Diário do Rio, 7 de dezembro de 2025. diariodorio.com
  • «O tenente-coronel Santo Antônio», Contexto Alagoas, 24 de janeiro de 2021. contextoalagoas.com.br
  • «Santo António, Capitão de Macau», Revista Macau, 30 de junho de 2015. revistamacau.com.mo
  • «Santo António: o soldo e o "capitão" da cidade», Macau Antigo, com António Rodrigues Baptista, A Última Nau: Estudos de Macau (2000). macauantigo.blogspot.com
  • Instituto Cultural de Macau, «Procession of Saint Anthony», inventário do património cultural imaterial. culturalheritage.mo
  • «Exposição revela outro lado de Santo António: militar», Diário de Coimbra, 8 de agosto de 2026. diariocoimbra.pt
  • Wikipédia: «Igreja de Santo António (Lagos)», «Santo António de Lisboa», «Igreja de Santo António (Macau)», «Transferência da soberania de Macau», «Tratado de Lisboa (1668)», «Batalha de Montes Claros», «Afonso VI de Portugal». pt.wikipedia.org)