Descobrimentos · episódio 5
«Os melhores navios de vela que andam sobre o mar.» Assim escreveu o veneziano Alvise Cadamosto, que navegou ao serviço do Infante D. Henrique, sobre as caravelas de Portugal. Em 1444 saíram de Lagos seis, cada uma com a bandeira da cruz da Ordem de Cristo. E não foi o Infante quem as pagou. Pagou-as gente da vila.

Ia nelas, como segundo capitão, Gil Eanes, também ele de Lagos. Dez anos antes, passara o cabo Bojador numa barca, o barco pequeno de um só mastro das primeiras viagens. Como é que uma vila chegou a armar uma frota?

A gente de Lagos, escreveu o cronista Gomes Eanes de Zurara, andava muito mais em navios do que por terra, porque a vila estava muito perto da costa. Eram homens que se davam a boas coisas, diz ele, sobretudo a pelejas de mar. Era em Lagos que se descarregavam as presas que os navios do Infante traziam da costa africana, e foram os de Lagos, conta Zurara, os primeiros a pedir-lhe licença para irem à costa de onde vinham os cativos. Ninguém lá podia ir com navio armado sem licença especial dele.

Pediu-a Lançarote, almoxarife do rei na vila, escudeiro criado desde menino na câmara do Infante, homem de grande siso e benquisto na terra. O Infante, conta Zurara, ficou muito contente com o pedido e mandou fazer as bandeiras, uma para cada caravela. Os custos de armar e abastecer a frota não foram do Infante, mas de Lançarote e de um grupo de gente de Lagos.

Os navios tinham mudado depressa. Nas primeiras viagens para lá do Bojador usaram-se barcos pequenos: Gil Eanes foi numa barca, Afonso Gonçalves Baldaia num barinel. No ano de 1440, conta Zurara, armaram-se duas caravelas para irem àquela terra. Os historiadores Bailey Diffie e George Winius resumem o que a crónica mostra: até 1441, barcas e barinéis; daí em diante, quase sempre caravelas.

Aceita-se que a caravela tinha velas latinas, triangulares, em dois mastros, e um casco maior do que o das barcas. Com elas era mais fácil navegar à bolina, isto é, avançar contra o vento, e, sendo maiores, é possível que levassem mais mantimentos para viagens mais longas. Na volta da costa da Guiné, escreve o historiador Peter Russell, podiam, se fosse preciso, vir direitas a casa contra os ventos de nordeste. A palavra já existia em português desde 1255, e as primeiras caravelas eram barcos de pesca e de rio. Para o historiador João Paulo Oliveira e Costa, foi em Lagos que se formou «uma primeira escola de navegadores experimentados na exploração do desconhecido», e foi nesse porto que apareceu um navio mais apto para as Descobertas: a caravela.

A armada de Lançarote chegou em junho às ilhas do banco de Arguim, na costa da atual Mauritânia. Os homens das caravelas atacaram as ilhas e fizeram cativos; no assalto a Tider, Gil Eanes ficou a guardar os batéis. Em agosto, de volta a Lagos, os cativos que a armada trouxe, 235 segundo Zurara, foram partilhados em cinco partes num campo fora da porta da vila, na presença do Infante, e depois vendidos.

Pouco depois do regresso de Lançarote, o Infante mandou Gonçalo de Sintra, escudeiro criado na sua casa, numa caravela, com ordem de ir direito à Guiné. Gonçalo, desejoso de fama, diz Zurara, desviou-se contra o conselho dos seus para as ilhas junto a Arguim e desembarcou de noite com alguns homens. Não sabia nadar, e a maré prendeu-o num esteiro. De manhã, os da ilha, que estavam avisados, caíram sobre eles. Morreram ali, escreve Zurara, Gonçalo de Sintra e mais sete, todos a pelejar, sem dar um passo atrás. Dois moços da câmara do Infante, Lopo Caldeira e Lopo Dalvelos, e o moço de estribeira, Jorge, sabiam nadar. Não quiseram deixar o capitão. Os oito foram, escreveu João de Barros, os primeiros portugueses que naquela terra morreram a ferro, e o Infante sentiu-o muito. O lugar ficou a chamar-se Angra de Gonçalo de Sintra.

Lagos continuou a ser terra de mareantes. Em 1454, o Infante aforou lotes junto à Porta do Mar para casas destinadas aos mareantes da vila, e esse bairro, escrevem os arqueólogos que o estudaram, foi deles até meados do século XX. No cais da Ribeira de Bensafrim está desde 2001 a caravela «Boa Esperança», uma réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, com um centro interpretativo a bordo desde 2023.

Cadamosto escreveu também o que o Infante pensava destes navios: sendo bem providos de tudo o necessário, «julgava impossível não poderem navegar por toda a parte». Foi em caravelas que se fizeram as viagens ao longo da costa de África até Bartolomeu Dias.
Para a primeira viagem de Cadamosto, o Infante mandou armar uma caravela nova. Cadamosto deixou escrito o nome do patrão. Chamava-se Vicente Dias, e era natural de Lagos.
Fontes11 referências
- Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, caps. IX, XI a XIX, XXII, XXIV, XXVI e XXVII, ed. Paris, 1841 (archive.org, b33279639).
- Alvise Cadamosto, Navegações de Luiz de Cadamosto, trad. portuguesa, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812 (archive.org, bub_gb_R4xPAAAAYAAJ); o original em Paesi novamente retrovati, Vicenza, 1507; e na tradução de Major por Brandão, 1876 (Biblioteca Nacional Digital, 69160).
- João de Barros, Ásia, Década I, liv. I, cap. IX, ed. Lisboa, 1777.
- Peter Russell, Prince Henry 'the Navigator': a Life, New Haven, 2000.
- Bailey W. Diffie e George D. Winius, Foundations of the Portuguese Empire, Minneapolis, 1977.
- A. C. de C. M. Saunders, História social dos escravos e libertos negros em Portugal, trad. portuguesa, Lisboa, 1994.
- Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (CHAM): Francisco Contente Domingues, «Caravela», 2009; João Paulo Oliveira e Costa, «Lagos»; «Lançarote»; «Gil Eanes».
- J. Semedo de Matos, em Instituto Camões, Navegações Portuguesas, 2002.
- Museu de Marinha, «Caravela latina».
- E. Morán e D. Nunes Pereira, «Lagos dos Descobrimentos: contributos para a delimitação do núcleo primitivo da cidade…», 2018 (Repositório da Universidade de Évora).
- Câmara Municipal de Lagos, Fototeca, «Caravela Boa Esperança», e notícia da inauguração do centro interpretativo, 2023; Sul Informação, 2023.
