Descobrimentos · episódio 5

«Os melhores navios de vela que andam sobre o mar.» Assim escreveu o veneziano Alvise Cadamosto, que navegou ao serviço do Infante D. Henrique, sobre as caravelas de Portugal. Em 1444 saíram de Lagos seis, cada uma com a bandeira da cruz da Ordem de Cristo. E não foi o Infante quem as pagou. Pagou-as gente da vila.

Navegações de Luiz de Cadamosto, tradução portuguesa (Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1812), p. 3: «as Caravellas de Portugal os melhores Navios de véla, que andão sobre o Mar» (domínio público).
FIG. 02Navegações de Luiz de Cadamosto, tradução portuguesa (Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1812), p. 3: «as Caravellas de Portugal os melhores Navios de véla, que andão sobre o Mar» (domínio público).

Ia nelas, como segundo capitão, Gil Eanes, também ele de Lagos. Dez anos antes, passara o cabo Bojador numa barca, o barco pequeno de um só mastro das primeiras viagens. Como é que uma vila chegou a armar uma frota?

Evocação pintada de Gil Eanes, segundo capitão da armada de Lançarote, a içar a bandeira da sua caravela (figura evocada, não retrato).
FIG. 03Evocação pintada de Gil Eanes, segundo capitão da armada de Lançarote, a içar a bandeira da sua caravela (figura evocada, não retrato).

A gente de Lagos, escreveu o cronista Gomes Eanes de Zurara, andava muito mais em navios do que por terra, porque a vila estava muito perto da costa. Eram homens que se davam a boas coisas, diz ele, sobretudo a pelejas de mar. Era em Lagos que se descarregavam as presas que os navios do Infante traziam da costa africana, e foram os de Lagos, conta Zurara, os primeiros a pedir-lhe licença para irem à costa de onde vinham os cativos. Ninguém lá podia ir com navio armado sem licença especial dele.

Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 107: os capitães das seis caravelas, «Lançarote, e o segundo Gil Eannes, aquelle que screvemos que primeiramente passara o cabo do Bojador» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 04Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 107: os capitães das seis caravelas, «Lançarote, e o segundo Gil Eannes, aquelle que screvemos que primeiramente passara o cabo do Bojador» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Pediu-a Lançarote, almoxarife do rei na vila, escudeiro criado desde menino na câmara do Infante, homem de grande siso e benquisto na terra. O Infante, conta Zurara, ficou muito contente com o pedido e mandou fazer as bandeiras, uma para cada caravela. Os custos de armar e abastecer a frota não foram do Infante, mas de Lançarote e de um grupo de gente de Lagos.

Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 105: Lançarote, «almoxariffe delRey naquella villa de Lagos», e a gente da vila, de quem Zurara escreve «he seu huso muyto mais em navyos que per terra»; «ajuntou Lançarote seis caravellas bem armadas» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 05Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 105: Lançarote, «almoxariffe delRey naquella villa de Lagos», e a gente da vila, de quem Zurara escreve «he seu huso muyto mais em navyos que per terra»; «ajuntou Lançarote seis caravellas bem armadas» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Os navios tinham mudado depressa. Nas primeiras viagens para lá do Bojador usaram-se barcos pequenos: Gil Eanes foi numa barca, Afonso Gonçalves Baldaia num barinel. No ano de 1440, conta Zurara, armaram-se duas caravelas para irem àquela terra. Os historiadores Bailey Diffie e George Winius resumem o que a crónica mostra: até 1441, barcas e barinéis; daí em diante, quase sempre caravelas.

Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 106: o Infante «mandou logo fazer suas bandeiras com a cruz da ordem de Jhũ Xpõ», uma para cada caravela (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 06Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 106: o Infante «mandou logo fazer suas bandeiras com a cruz da ordem de Jhũ Xpõ», uma para cada caravela (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Aceita-se que a caravela tinha velas latinas, triangulares, em dois mastros, e um casco maior do que o das barcas. Com elas era mais fácil navegar à bolina, isto é, avançar contra o vento, e, sendo maiores, é possível que levassem mais mantimentos para viagens mais longas. Na volta da costa da Guiné, escreve o historiador Peter Russell, podiam, se fosse preciso, vir direitas a casa contra os ventos de nordeste. A palavra já existia em português desde 1255, e as primeiras caravelas eram barcos de pesca e de rio. Para o historiador João Paulo Oliveira e Costa, foi em Lagos que se formou «uma primeira escola de navegadores experimentados na exploração do desconhecido», e foi nesse porto que apareceu um navio mais apto para as Descobertas: a caravela.

Uma caravela latina de dois mastros no retábulo de Santa Auta, pintura portuguesa do século XVI (Museu Nacional de Arte Antiga, domínio público).
FIG. 07Uma caravela latina de dois mastros no retábulo de Santa Auta, pintura portuguesa do século XVI (Museu Nacional de Arte Antiga, domínio público).

A armada de Lançarote chegou em junho às ilhas do banco de Arguim, na costa da atual Mauritânia. Os homens das caravelas atacaram as ilhas e fizeram cativos; no assalto a Tider, Gil Eanes ficou a guardar os batéis. Em agosto, de volta a Lagos, os cativos que a armada trouxe, 235 segundo Zurara, foram partilhados em cinco partes num campo fora da porta da vila, na presença do Infante, e depois vendidos.

Pintura de uma caravela latina à bolina, a partir de uma fotografia real da «Boa Esperança», réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, de Kolforn (CC BY 3.0).
FIG. 08Pintura de uma caravela latina à bolina, a partir de uma fotografia real da «Boa Esperança», réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, de Kolforn (CC BY 3.0).

Pouco depois do regresso de Lançarote, o Infante mandou Gonçalo de Sintra, escudeiro criado na sua casa, numa caravela, com ordem de ir direito à Guiné. Gonçalo, desejoso de fama, diz Zurara, desviou-se contra o conselho dos seus para as ilhas junto a Arguim e desembarcou de noite com alguns homens. Não sabia nadar, e a maré prendeu-o num esteiro. De manhã, os da ilha, que estavam avisados, caíram sobre eles. Morreram ali, escreve Zurara, Gonçalo de Sintra e mais sete, todos a pelejar, sem dar um passo atrás. Dois moços da câmara do Infante, Lopo Caldeira e Lopo Dalvelos, e o moço de estribeira, Jorge, sabiam nadar. Não quiseram deixar o capitão. Os oito foram, escreveu João de Barros, os primeiros portugueses que naquela terra morreram a ferro, e o Infante sentiu-o muito. O lugar ficou a chamar-se Angra de Gonçalo de Sintra.

Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 145: os moços da câmara e o moço de estribeira que sabiam nadar e «nunca quiserom desemparar seu capitam», Gonçalo de Sintra (domínio público).
FIG. 09Crónica da Guiné, edição de Paris (1841), p. 145: os moços da câmara e o moço de estribeira que sabiam nadar e «nunca quiserom desemparar seu capitam», Gonçalo de Sintra (domínio público).

Lagos continuou a ser terra de mareantes. Em 1454, o Infante aforou lotes junto à Porta do Mar para casas destinadas aos mareantes da vila, e esse bairro, escrevem os arqueólogos que o estudaram, foi deles até meados do século XX. No cais da Ribeira de Bensafrim está desde 2001 a caravela «Boa Esperança», uma réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, com um centro interpretativo a bordo desde 2023.

A caravela «Boa Esperança», réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, em Lagos. Fotografia de Lacobrigo (CC BY-SA 3.0).
FIG. 10A caravela «Boa Esperança», réplica aproximada das caravelas dos Descobrimentos, em Lagos. Fotografia de Lacobrigo (CC BY-SA 3.0).

Cadamosto escreveu também o que o Infante pensava destes navios: sendo bem providos de tudo o necessário, «julgava impossível não poderem navegar por toda a parte». Foi em caravelas que se fizeram as viagens ao longo da costa de África até Bartolomeu Dias.

Para a primeira viagem de Cadamosto, o Infante mandou armar uma caravela nova. Cadamosto deixou escrito o nome do patrão. Chamava-se Vicente Dias, e era natural de Lagos.

Fontes11 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, caps. IX, XI a XIX, XXII, XXIV, XXVI e XXVII, ed. Paris, 1841 (archive.org, b33279639).
  • Alvise Cadamosto, Navegações de Luiz de Cadamosto, trad. portuguesa, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812 (archive.org, bub_gb_R4xPAAAAYAAJ); o original em Paesi novamente retrovati, Vicenza, 1507; e na tradução de Major por Brandão, 1876 (Biblioteca Nacional Digital, 69160).
  • João de Barros, Ásia, Década I, liv. I, cap. IX, ed. Lisboa, 1777.
  • Peter Russell, Prince Henry 'the Navigator': a Life, New Haven, 2000.
  • Bailey W. Diffie e George D. Winius, Foundations of the Portuguese Empire, Minneapolis, 1977.
  • A. C. de C. M. Saunders, História social dos escravos e libertos negros em Portugal, trad. portuguesa, Lisboa, 1994.
  • Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (CHAM): Francisco Contente Domingues, «Caravela», 2009; João Paulo Oliveira e Costa, «Lagos»; «Lançarote»; «Gil Eanes».
  • J. Semedo de Matos, em Instituto Camões, Navegações Portuguesas, 2002.
  • Museu de Marinha, «Caravela latina».
  • E. Morán e D. Nunes Pereira, «Lagos dos Descobrimentos: contributos para a delimitação do núcleo primitivo da cidade…», 2018 (Repositório da Universidade de Évora).
  • Câmara Municipal de Lagos, Fototeca, «Caravela Boa Esperança», e notícia da inauguração do centro interpretativo, 2023; Sul Informação, 2023.