No fim dos anos 1920, chegavam à Horta, na ilha do Faial, quinze cabos submarinos vindos da América, da Europa e de África. Ingleses, alemães e americanos trabalhavam no mesmo edifício e, contam os antigos cabografistas, na mesma sala.

E muitos jovens do Faial queriam ser cabografistas, um ofício prestigiado e bem pago.

Evocação pintada de um jovem cabografista do Faial nos anos 1920, a ler a fita de papel de um aparelho (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Evocação pintada de um jovem cabografista do Faial nos anos 1920, a ler a fita de papel de um aparelho (figura genérica, não retrato).

Tudo começou num fim de agosto. A 27 de agosto de 1893, a família real foi à estação de Carcavelos inaugurar o cabo que ligava o continente aos Açores. Seis dias depois, a 2 de setembro, saía na Horta um novo jornal diário. Chamava-se O Telegrapho e fundou-o Manuel Emídio Gonçalves. O primeiro editorial dava a razão: o cabo submarino criava a necessidade de «uma folha diária que provoque e difunda as notícias».

Evocação pintada do cabo submarino a ser puxado para a praia da Alagoa, na Horta, em agosto de 1893 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 04Evocação pintada do cabo submarino a ser puxado para a praia da Alagoa, na Horta, em agosto de 1893 (figuras genéricas, não retratos).

Porquê ali, no meio do mar? Porque a técnica da época não deixava levar o sinal de uma ponta à outra do oceano. Era preciso parar a meio, receber a mensagem e mandá-la outra vez, e o Faial ficava exatamente nesse caminho. A historiadora Ana Paula Silva lembra que os cabos rápidos não deviam passar de cerca de duas mil milhas, e que os Açores eram indispensáveis à rede telegráfica americana.

Alice Moderno, *Açores* (Ponta Delgada, 1901), p. 11: «Os Açores acham-se ligados á metropole por um cabo submarino inaugurado no dia 27 de agosto de 1893» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 05Alice Moderno, *Açores* (Ponta Delgada, 1901), p. 11: «Os Açores acham-se ligados á metropole por um cabo submarino inaugurado no dia 27 de agosto de 1893» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

O primeiro cabo fez-se esperar. Chegou aos Açores 23 anos depois de o continente ter o seu. Até 1890 tinham dado entrada no governo mais de quarenta propostas, e os ingleses assinaram pelo menos sete contratos que nunca se cumpriram. O contrato que vingou é de 15 de junho de 1893 e dava a uma companhia inglesa a exploração exclusiva por 25 anos. Tinha uma cláusula para a ciência: os telegramas meteorológicos entre observatórios passavam de graça, até certo número de palavras, e a ligação trouxe melhores previsões do tempo.

Alice Moderno, *Açores* (Ponta Delgada, 1901), p. 106: a lista dos periódicos da Horta, entre eles *O Telegrapho* (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 06Alice Moderno, *Açores* (Ponta Delgada, 1901), p. 106: a lista dos periódicos da Horta, entre eles *O Telegrapho* (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Em agosto, o navio inglês Seine lançou o cabo. Saiu de Carcavelos, tocou em São Miguel e seguiu para a Horta, onde entrou pela praia da Alagoa. Escreveu-se então que a «mãe pátria» ficava ligada às ilhas por um vínculo «quase tão íntimo como o pensamento». O contrato prometia o cabo também às Flores e ao Corvo. Às duas ilhas do grupo ocidental chegou, anos mais tarde, a telegrafia sem fios.

Evocação pintada de uma rua da Horta por volta de 1910, com uma inglesa dos cabos a falar com uma criança do Faial (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Evocação pintada de uma rua da Horta por volta de 1910, com uma inglesa dos cabos a falar com uma criança do Faial (figuras genéricas, não retratos).

A Horta só se abriu ao mundo em 1899. Um novo contrato português deixou amarrar nos Açores cabos americanos, alemães e italianos, e a Horta foi elevada a estação telegráfica internacional. Em 1900, uma companhia alemã ligou a Alemanha à Horta e a Horta a Nova Iorque; seguiram-se cabos americanos para o Canadá e a Irlanda, e ainda um para Cabo Verde e outro direto para Inglaterra. Em 1902 construiu-se a Trinity House, que recebeu as estações das companhias inglesa, alemã e americana.

Evocação pintada de jovens faialenses a jogar à bola junto ao mar, em 1909 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 08Evocação pintada de jovens faialenses a jogar à bola junto ao mar, em 1909 (figuras genéricas, não retratos).

As guerras passaram também por ali. Em agosto de 1914, os ingleses cortaram os cabos alemães, e um mês depois as autoridades portuguesas selaram a estação alemã. Em 1917, esses cabos foram reaproveitados: por decisão inglesa, um ligou a Inglaterra ao Canadá pela Horta; o outro foi desviado pelos franceses para Brest. Os alemães voltaram nos anos 1920, e em 1939 os seus cabos foram cortados outra vez.

Evocação pintada da sala de operações de uma estação de cabos da Horta ao fim da tarde, quando as estações fecharam, no fim dos anos 1960 (figura genérica, não retrato).
FIG. 09Evocação pintada da sala de operações de uma estação de cabos da Horta ao fim da tarde, quando as estações fecharam, no fim dos anos 1960 (figura genérica, não retrato).

A concessão era de uma companhia inglesa, que subcontratava as outras; a licença, essa, dava-a o governo português. Em 1919, as companhias americanas pediram a Portugal licença para usar a estação dos Açores. Washington pressionou e Londres quis limitar os cabos americanos. A resposta portuguesa chegou em abril de 1922, quase dois anos e meio depois.

Evocação pintada de uma sala de aula no Faial nos anos 1970 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 10Evocação pintada de uma sala de aula no Faial nos anos 1970 (figuras genéricas, não retratos).

Nos anos seguintes amarraram na Horta os novos cabos. Um deles, da Western Union, vinha de Nova Iorque; outro, da italiana Italcable, seguia para Málaga, e por eles uma ligação de Nova Iorque continuava até Roma. Em 1926, quatro companhias assinaram o acordo da Fayal Joint Station, para partilharem um conjunto de edifícios. O Governo dos Açores chama à Horta desse tempo um dos principais centros de comunicações do mundo.

A cidade não ficou a ver passar os telegramas. As companhias traziam funcionários e famílias, e as crianças do Faial cresciam a ouvir inglês. Chegaram a ter ao serviço várias dezenas de faialenses, também por obrigação do contrato, e houve casamentos entre os homens dos cabos e gente da terra.

Os alemães fizeram um bairro seu, a que a cidade ainda chama Colónia Alemã. A 2 de fevereiro de 1909, um grupo de faialenses, por influência dos ingleses dos cabos, fundou o Fayal Sport Club. É o mais antigo clube desportivo dos Açores e ainda existe.

O fim veio da mesma técnica que trouxera o princípio. A partir dos anos 1950, os novos cabos coaxiais traziam amplificadores incorporados, e o sinal já não precisava de parar a meio do oceano. No fim dos anos 1960 fecharam as últimas estações da Horta, depois de mais de setenta anos de cabos.

Quando as companhias partiram, a Trinity House ficou onde estava, na Rua Cônsul Dabney, e passou a servir de escola. No edifício onde tinham trabalhado ingleses, alemães e americanos, sentaram-se os filhos do Faial.

Fontes12 referências
  • Ana Paula Silva, «Interconnectivity in the European Periphery: Portuguese Telegraphs as Global Links (1855-1939)», Comparativ, 21, n.º 6, 2011, pp. 68-86 (doi.org).
  • Carlos Silveira, «cabo submarino», Enciclopédia Açoriana, Direção Regional da Cultura, Governo dos Açores (culturacores.azores.gov.pt).
  • Alice Moderno, Açores, Ponta Delgada, 1901 (Biblioteca Nacional de Portugal: bndigital.bnportugal.gov.pt).
  • Governo dos Açores, «Colónia Alemã» (agricultura.azores.gov.pt).
  • Fundação Portuguesa das Comunicações, «1893: os cabos submarinos no Faial» (fpc.pt) e «Datas e factos do cabo submarino em Portugal» (fpc.pt).
  • Bill Burns, «Cable Timeline», atlantic-cable.com (atlantic-cable.com e atlantic-cable.com).
  • Grupo dos Amigos da Horta dos Cabos Submarinos e Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, História das Comunicações. Musealização da Horta dos Cabos Submarinos, 2012 (aaalh.pt).
  • Curtis Stewart, «The Submarine Telegraph Cable System and Horta, Faial», British Historical Society of Portugal Newsletter, 16, 2022 (bhsportugal.org).
  • Ermelindo Ávila, «Um aniversário a comemorar», 2013 (domeuretiro.blogspot.com); Tribuna das Ilhas, «Fundador de O Telégrafo», 29 de setembro de 2023.
  • «Fayal Sport comemorou cem anos de existência», Açoriano Oriental, 3 de fevereiro de 2009.
  • Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, sobre a passagem de Marconi pelo Faial em 1922.
  • RTP Açores, «Futuro Núcleo Museológico dos Cabos Submarinos vai nascer na Trinity House na Horta», 4 de agosto de 2025; Tribuna das Ilhas, «Fayal Joint Station Building Agreement foi assinado há 100 anos», 19 de junho de 2026.