O ukulele nasceu no Havai, nas mãos de marceneiros do Funchal.
O nome é havaiano, e mais antigo do que o instrumento: «ukulele» queria dizer pulga.
Um norte-americano, John A. Dix, passou na Madeira o inverno de 1842-1843. Descreveu o machete como uma guitarra anã de quatro cordas, o instrumento mais comum da ilha. E escreveu: «Não é provável que o machete alguma vez emigre da Madeira.»

O veleiro britânico Ravenscrag entrou no porto de Honolulu em agosto de 1879, vindo da Madeira, com mais de quatrocentas pessoas a bordo, depois de cerca de quatro meses de mar. Era o segundo navio de emigrantes portugueses a chegar ao Havai; antes dele, só o Priscilla, em setembro de 1878. Vinham com contratos de trabalho do governo havaiano, sobretudo para as plantações de açúcar, e a maioria dos adultos a bordo tinha assinado contrato como trabalhador agrícola.
Entre os passageiros estavam três marceneiros do Funchal: Augusto Dias, Manuel Nunes e José do Espírito Santo.

Viajava também João Fernandes, latoeiro. Numa recordação publicada em 1922, mais de quarenta anos depois, contou que, à chegada, pediu um machete emprestado a João Gomes da Silva e tocou para festejar o fim da viagem. O dono, segundo o mesmo relato, tinha vergonha de tocar em público.
Menos de duas semanas depois de o Ravenscrag entrar em Honolulu, o jornal Hawaiian Gazette noticiava que um grupo de músicos madeirenses, desembarcados havia pouco, deliciava a população com concertos noturnos na rua. Os instrumentos eram «estranhos», «uma espécie de cruzamento entre uma guitarra e um banjo», e davam «música muito doce».

Nos processos de passaporte de 1879, guardados no Arquivo Regional da Madeira, Dias, Nunes e Espírito Santo aparecem como marceneiros, e não como violeiros. Não constam entre os construtores de instrumentos de corda conhecidos no Funchal da segunda metade do século XIX. Se já tinham feito instrumentos antes de emigrar, não se sabe. Um companheiro de viagem disse que tinham sido sócios na Madeira, mas não se encontrou prova disso.
O anuário de Honolulu de 1884 regista Augusto Dias como fabricante de guitarras e móveis, na King Street. É o primeiro construtor de guitarras no Havai de que há documentação. No jornal português da cidade, O Luso Hawaiiano, Dias apresentava-se em agosto de 1885 como «Manufactor de violas e machets, e todo o instrumentos de corda». Nunes publicitava a sua «tenda de marcinaria de instrumentos de corda, violas e machets».

Os tampos deixaram de ser de abeto ou de pinho. Os madeirenses passaram a usar madeiras havaianas, sobretudo o koa, de que os havaianos faziam havia séculos canoas e gamelas. Para os historiadores John King e Jim Tranquada, é esse o desvio mais significativo do ukulele em relação à tradição europeia. Dias, em 1898, já se anunciava como construtor de «instrumentos feitos de madeira havaiana».
Faltava o nome, e foi o da pulga. O dicionário de Lorrin Andrews, de 1865, traduz «flea» por «ukulele», e em 1823 o missionário Hiram Bingham usou a palavra para as pulgas de uma casa.

Aplicado ao instrumento, o nome só aparece impresso por volta de 1890. Antes, chamaram-lhe também machete, «pila liʻiliʻi» e «taro patch fiddle». Porquê a pulga, há várias versões. A mais antiga que sobrevive é a de Ernest Kaai, num método de 1910: os havaianos, escreveu, tocavam saltando com os dedos de um lado ao outro das cordas, «daí o nome, ukulele (uma pulga saltitante)».
Uma neta de Manuel Nunes assinou em 1915 um método que ainda mandava afinar o ukulele «à maneira original», como o machete madeirense (ré, sol, si, ré). Não foi essa a afinação que ficou. A que ficou (sol, dó, mi, lá) vinha já no método de Kaai e é, segundo King e Tranquada, a das quatro primeiras cordas do rajão, o instrumento madeirense de cinco cordas.

Num estudo de 2026, o investigador Nuno Cristo chamou «uma ilusão enganadora» à ligação entre os pequenos instrumentos de tipo cavaquinho feitos no Havai no princípio da década de 1880 e o ukulele que veio depois. E propôs rever, nas histórias do ukulele, os nomes de machete e de rajão, para identificar com mais rigor o antepassado direto do instrumento havaiano. Qual dos instrumentos da Madeira é esse antepassado continua em discussão.
O instrumento espalhou-se depressa. Nove anos depois do Ravenscrag, em 1888, um visitante viu havaianos a tocar o «taro-patch fiddle», «o instrumento nacional do Havai», no convés de um vapor que fazia a carreira entre as ilhas.

O rei Kalākaua estava nesses anos à frente do renascimento da cultura havaiana tradicional e, segundo King e Tranquada, terá tido o papel mais visível na popularização do ukulele. Numa fotografia de 1889, do rei com Robert Louis Stevenson, veem-se atrás deles os King's Singing Boys, e um deles toca ukulele. João Fernandes contaria mais tarde que ele e Augusto Dias, com outro músico, tocavam muitas vezes para o rei. E Isobel Strong, enteada de Stevenson, deixou o único relato conhecido de quem viu o próprio rei tocar ukulele, em serões no palácio ʻIolani.
Em 1898, a rainha Liliʻuokalani publicou um livro. Conta nele que, em Washington, a filha de um congressista lhe cantou algumas das canções havaianas da própria rainha e lhe deu «essa alegria, tão tristemente doce, de ouvir os sons de casa em terras estrangeiras».

Cantou-as, escreveu a rainha do Havai, «ao nosso instrumento, o ukulele».
Fontes12 referências
- John King e Jim Tranquada, «A New History of the Origins and Development of the 'Ukulele, 1838-1915», The Hawaiian Journal of History, 37, 2003. Os processos de passaporte do Arquivo Regional da Madeira, os anuários de Honolulu, os anúncios do jornal O Luso Hawaiiano, a notícia do Hawaiian Gazette, as recordações de João Fernandes e de Isobel Strong, e as afinações. hdl.handle.net
- Cristiana Bastos, «Açúcar, ananases e ilhéus portugueses no Hawaii», Etnográfica, 23, 3, 2019. Os navios, as datas de chegada e a duração das viagens. journals.openedition.org
- John A. Dix, A Winter in Madeira and a Summer in Spain and Florence, Nova Iorque, edição de 1853. O machete, pp. 71-73. archive.org
- Liliuokalani, Hawaii's Story by Hawaii's Queen, Boston, 1898. A passagem de Washington. archive.org
- Lorrin Andrews, A Dictionary of the Hawaiian Language, Honolulu, 1865. Vocabulário inglês-havaiano, «Flea». archive.org
- Charmian K. London, Our Hawaii, Nova Iorque, 1917. archive.org
- Elucidário Madeirense, artigos «Braguinha» e «Música», edição digital. elucidariomadeirense.pt elucidariomadeirense.pt
- Paulo Esteireiro, «Reflexões sobre Periodização: Contributos para uma História Cultural da Madeira», Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, 5, 2023. Platon de Waxel e o seu estudo de 1869. ahm-abm.madeira.gov.pt
- Nuno Cristo, «Quanto de cavaquinho tem um ukulele?» e «How much of cavaquinho is there in a ukulele?», 2026. academia.edu academia.edu
- Nicholas B. Miller, «Crossing Seas and Labels», Portuguese Literary & Cultural Studies, 33, 2021. Os contratos de trabalho. ojs.lib.umassd.edu
- Melody Lassalle, transcrição do Pacific Commercial Advertiser de agosto de 1879 sobre a chegada do Ravenscrag. yourislandroutes.com
- DNoticias, «Protocolo entre Governo e Xarabanda assinala influência madeirense no Havai», 23 de abril de 2019, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
