O ukulele nasceu no Havai, nas mãos de marceneiros do Funchal.

O nome é havaiano, e mais antigo do que o instrumento: «ukulele» queria dizer pulga.

Um norte-americano, John A. Dix, passou na Madeira o inverno de 1842-1843. Descreveu o machete como uma guitarra anã de quatro cordas, o instrumento mais comum da ilha. E escreveu: «Não é provável que o machete alguma vez emigre da Madeira.»

Evocação pintada de um serão no Funchal, no princípio da década de 1840. John A. Dix, que passou na Madeira o inverno de 1842-1843, descreveu o machete como uma guitarra anã de quatro cordas, o instrumento mais comum da ilha; poucos anos antes, a inglesa Fanny Burney Wood escrevera que os madeirenses se divertiam à noite com violas e machetes. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 02Evocação pintada de um serão no Funchal, no princípio da década de 1840. John A. Dix, que passou na Madeira o inverno de 1842-1843, descreveu o machete como uma guitarra anã de quatro cordas, o instrumento mais comum da ilha; poucos anos antes, a inglesa Fanny Burney Wood escrevera que os madeirenses se divertiam à noite com violas e machetes. Figuras genéricas, não retratos.

O veleiro britânico Ravenscrag entrou no porto de Honolulu em agosto de 1879, vindo da Madeira, com mais de quatrocentas pessoas a bordo, depois de cerca de quatro meses de mar. Era o segundo navio de emigrantes portugueses a chegar ao Havai; antes dele, só o Priscilla, em setembro de 1878. Vinham com contratos de trabalho do governo havaiano, sobretudo para as plantações de açúcar, e a maioria dos adultos a bordo tinha assinado contrato como trabalhador agrícola.

Entre os passageiros estavam três marceneiros do Funchal: Augusto Dias, Manuel Nunes e José do Espírito Santo.

Evocação pintada da chegada do Ravenscrag, tal como a contou João Fernandes, latoeiro e passageiro do navio, numa recordação publicada em 1922, mais de quarenta anos depois: pediu emprestado o machete de João Gomes da Silva, que tinha vergonha de tocar em público, e tocou para festejar o fim da viagem. Figuras evocadas, não retratos.
FIG. 03Evocação pintada da chegada do Ravenscrag, tal como a contou João Fernandes, latoeiro e passageiro do navio, numa recordação publicada em 1922, mais de quarenta anos depois: pediu emprestado o machete de João Gomes da Silva, que tinha vergonha de tocar em público, e tocou para festejar o fim da viagem. Figuras evocadas, não retratos.

Viajava também João Fernandes, latoeiro. Numa recordação publicada em 1922, mais de quarenta anos depois, contou que, à chegada, pediu um machete emprestado a João Gomes da Silva e tocou para festejar o fim da viagem. O dono, segundo o mesmo relato, tinha vergonha de tocar em público.

Menos de duas semanas depois de o Ravenscrag entrar em Honolulu, o jornal Hawaiian Gazette noticiava que um grupo de músicos madeirenses, desembarcados havia pouco, deliciava a população com concertos noturnos na rua. Os instrumentos eram «estranhos», «uma espécie de cruzamento entre uma guitarra e um banjo», e davam «música muito doce».

Evocação pintada de um concerto noturno numa rua de Honolulu, em 1879. Menos de duas semanas depois da chegada do Ravenscrag, o Hawaiian Gazette noticiava que um grupo de músicos madeirenses, chegados havia pouco, deliciava a população com concertos noturnos na rua, em instrumentos «estranhos», «uma espécie de cruzamento entre uma guitarra e um banjo», que davam «música muito doce». Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 04Evocação pintada de um concerto noturno numa rua de Honolulu, em 1879. Menos de duas semanas depois da chegada do Ravenscrag, o Hawaiian Gazette noticiava que um grupo de músicos madeirenses, chegados havia pouco, deliciava a população com concertos noturnos na rua, em instrumentos «estranhos», «uma espécie de cruzamento entre uma guitarra e um banjo», que davam «música muito doce». Figuras genéricas, não retratos.

Nos processos de passaporte de 1879, guardados no Arquivo Regional da Madeira, Dias, Nunes e Espírito Santo aparecem como marceneiros, e não como violeiros. Não constam entre os construtores de instrumentos de corda conhecidos no Funchal da segunda metade do século XIX. Se já tinham feito instrumentos antes de emigrar, não se sabe. Um companheiro de viagem disse que tinham sido sócios na Madeira, mas não se encontrou prova disso.

O anuário de Honolulu de 1884 regista Augusto Dias como fabricante de guitarras e móveis, na King Street. É o primeiro construtor de guitarras no Havai de que há documentação. No jornal português da cidade, O Luso Hawaiiano, Dias apresentava-se em agosto de 1885 como «Manufactor de violas e machets, e todo o instrumentos de corda». Nunes publicitava a sua «tenda de marcinaria de instrumentos de corda, violas e machets».

Evocação pintada de uma oficina de marcenaria em Honolulu, na década de 1880. Nos processos de passaporte de 1879, Augusto Dias, Manuel Nunes e José do Espírito Santo aparecem como marceneiros, e não como violeiros; o anuário de Honolulu de 1884 regista Dias como fabricante de guitarras e móveis, na King Street. Os madeirenses passaram a fazer os tampos em madeiras havaianas, sobretudo o koa, de que os havaianos faziam havia séculos canoas e gamelas. Figura genérica, não retrato.
FIG. 05Evocação pintada de uma oficina de marcenaria em Honolulu, na década de 1880. Nos processos de passaporte de 1879, Augusto Dias, Manuel Nunes e José do Espírito Santo aparecem como marceneiros, e não como violeiros; o anuário de Honolulu de 1884 regista Dias como fabricante de guitarras e móveis, na King Street. Os madeirenses passaram a fazer os tampos em madeiras havaianas, sobretudo o koa, de que os havaianos faziam havia séculos canoas e gamelas. Figura genérica, não retrato.

Os tampos deixaram de ser de abeto ou de pinho. Os madeirenses passaram a usar madeiras havaianas, sobretudo o koa, de que os havaianos faziam havia séculos canoas e gamelas. Para os historiadores John King e Jim Tranquada, é esse o desvio mais significativo do ukulele em relação à tradição europeia. Dias, em 1898, já se anunciava como construtor de «instrumentos feitos de madeira havaiana».

Faltava o nome, e foi o da pulga. O dicionário de Lorrin Andrews, de 1865, traduz «flea» por «ukulele», e em 1823 o missionário Hiram Bingham usou a palavra para as pulgas de uma casa.

Evocação pintada de passageiros havaianos no convés de um vapor entre ilhas. Em 1888, um visitante viu havaianos a tocar o «taro-patch fiddle», «o instrumento nacional do Havai», no convés de um vapor que fazia a carreira entre as ilhas. Porquê o nome «ukulele», a palavra havaiana para pulga, há várias versões; a mais antiga que sobrevive é a de Ernest Kaai, em 1910: os havaianos tocavam saltando com os dedos de um lado ao outro das cordas. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 06Evocação pintada de passageiros havaianos no convés de um vapor entre ilhas. Em 1888, um visitante viu havaianos a tocar o «taro-patch fiddle», «o instrumento nacional do Havai», no convés de um vapor que fazia a carreira entre as ilhas. Porquê o nome «ukulele», a palavra havaiana para pulga, há várias versões; a mais antiga que sobrevive é a de Ernest Kaai, em 1910: os havaianos tocavam saltando com os dedos de um lado ao outro das cordas. Figuras genéricas, não retratos.

Aplicado ao instrumento, o nome só aparece impresso por volta de 1890. Antes, chamaram-lhe também machete, «pila liʻiliʻi» e «taro patch fiddle». Porquê a pulga, há várias versões. A mais antiga que sobrevive é a de Ernest Kaai, num método de 1910: os havaianos, escreveu, tocavam saltando com os dedos de um lado ao outro das cordas, «daí o nome, ukulele (uma pulga saltitante)».

Uma neta de Manuel Nunes assinou em 1915 um método que ainda mandava afinar o ukulele «à maneira original», como o machete madeirense (ré, sol, si, ré). Não foi essa a afinação que ficou. A que ficou (sol, dó, mi, lá) vinha já no método de Kaai e é, segundo King e Tranquada, a das quatro primeiras cordas do rajão, o instrumento madeirense de cinco cordas.

Pintura do palácio ʻIolani, em Honolulu, tal como hoje se vê, ao anoitecer, a partir de uma fotografia de Bernard Spragg (CC0, Wikimedia Commons). Foi em serões neste palácio que Isobel Strong, enteada de Robert Louis Stevenson, viu o rei Kalākaua tocar; João Fernandes, passageiro do Ravenscrag, contou mais tarde que ele, Augusto Dias e João Luís Correia tocavam muitas vezes para o rei.
FIG. 07Pintura do palácio ʻIolani, em Honolulu, tal como hoje se vê, ao anoitecer, a partir de uma fotografia de Bernard Spragg (CC0, Wikimedia Commons). Foi em serões neste palácio que Isobel Strong, enteada de Robert Louis Stevenson, viu o rei Kalākaua tocar; João Fernandes, passageiro do Ravenscrag, contou mais tarde que ele, Augusto Dias e João Luís Correia tocavam muitas vezes para o rei.

Num estudo de 2026, o investigador Nuno Cristo chamou «uma ilusão enganadora» à ligação entre os pequenos instrumentos de tipo cavaquinho feitos no Havai no princípio da década de 1880 e o ukulele que veio depois. E propôs rever, nas histórias do ukulele, os nomes de machete e de rajão, para identificar com mais rigor o antepassado direto do instrumento havaiano. Qual dos instrumentos da Madeira é esse antepassado continua em discussão.

O instrumento espalhou-se depressa. Nove anos depois do Ravenscrag, em 1888, um visitante viu havaianos a tocar o «taro-patch fiddle», «o instrumento nacional do Havai», no convés de um vapor que fazia a carreira entre as ilhas.

Evocação pintada do rei Kalākaua a cantar, a partir de uma fotografia sua de 1889 (Hawaii State Archives, domínio público). Isobel Strong, enteada de Stevenson, deixou o único relato conhecido de quem viu o próprio rei tocar ukulele: em serões no palácio ʻIolani, pegava de vez em quando num ukulele ou numa guitarra e cantava a sua canção havaiana preferida, «Sweet Lei-lei-hua». Segundo King e Tranquada, terá tido o papel mais visível na popularização do instrumento. Cena evocada, não registo de um serão em particular.
FIG. 08Evocação pintada do rei Kalākaua a cantar, a partir de uma fotografia sua de 1889 (Hawaii State Archives, domínio público). Isobel Strong, enteada de Stevenson, deixou o único relato conhecido de quem viu o próprio rei tocar ukulele: em serões no palácio ʻIolani, pegava de vez em quando num ukulele ou numa guitarra e cantava a sua canção havaiana preferida, «Sweet Lei-lei-hua». Segundo King e Tranquada, terá tido o papel mais visível na popularização do instrumento. Cena evocada, não registo de um serão em particular.

O rei Kalākaua estava nesses anos à frente do renascimento da cultura havaiana tradicional e, segundo King e Tranquada, terá tido o papel mais visível na popularização do ukulele. Numa fotografia de 1889, do rei com Robert Louis Stevenson, veem-se atrás deles os King's Singing Boys, e um deles toca ukulele. João Fernandes contaria mais tarde que ele e Augusto Dias, com outro músico, tocavam muitas vezes para o rei. E Isobel Strong, enteada de Stevenson, deixou o único relato conhecido de quem viu o próprio rei tocar ukulele, em serões no palácio ʻIolani.

Em 1898, a rainha Liliʻuokalani publicou um livro. Conta nele que, em Washington, a filha de um congressista lhe cantou algumas das canções havaianas da própria rainha e lhe deu «essa alegria, tão tristemente doce, de ouvir os sons de casa em terras estrangeiras».

Evocação pintada da passagem de Washington que a rainha Liliʻuokalani contou no livro que publicou em 1898, «Hawaii's Story by Hawaii's Queen»: Grace Hilborn, filha de um congressista, cantou-lhe algumas das canções havaianas da própria rainha «ao nosso instrumento, o ukulele» e deu-lhe «essa alegria, tão tristemente doce, de ouvir os sons de casa em terras estrangeiras». A rainha está de costas. Figuras evocadas, não retratos.
FIG. 09Evocação pintada da passagem de Washington que a rainha Liliʻuokalani contou no livro que publicou em 1898, «Hawaii's Story by Hawaii's Queen»: Grace Hilborn, filha de um congressista, cantou-lhe algumas das canções havaianas da própria rainha «ao nosso instrumento, o ukulele» e deu-lhe «essa alegria, tão tristemente doce, de ouvir os sons de casa em terras estrangeiras». A rainha está de costas. Figuras evocadas, não retratos.

Cantou-as, escreveu a rainha do Havai, «ao nosso instrumento, o ukulele».

Fontes12 referências
  • John King e Jim Tranquada, «A New History of the Origins and Development of the 'Ukulele, 1838-1915», The Hawaiian Journal of History, 37, 2003. Os processos de passaporte do Arquivo Regional da Madeira, os anuários de Honolulu, os anúncios do jornal O Luso Hawaiiano, a notícia do Hawaiian Gazette, as recordações de João Fernandes e de Isobel Strong, e as afinações. hdl.handle.net
  • Cristiana Bastos, «Açúcar, ananases e ilhéus portugueses no Hawaii», Etnográfica, 23, 3, 2019. Os navios, as datas de chegada e a duração das viagens. journals.openedition.org
  • John A. Dix, A Winter in Madeira and a Summer in Spain and Florence, Nova Iorque, edição de 1853. O machete, pp. 71-73. archive.org
  • Liliuokalani, Hawaii's Story by Hawaii's Queen, Boston, 1898. A passagem de Washington. archive.org
  • Lorrin Andrews, A Dictionary of the Hawaiian Language, Honolulu, 1865. Vocabulário inglês-havaiano, «Flea». archive.org
  • Charmian K. London, Our Hawaii, Nova Iorque, 1917. archive.org
  • Elucidário Madeirense, artigos «Braguinha» e «Música», edição digital. elucidariomadeirense.pt elucidariomadeirense.pt
  • Paulo Esteireiro, «Reflexões sobre Periodização: Contributos para uma História Cultural da Madeira», Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, 5, 2023. Platon de Waxel e o seu estudo de 1869. ahm-abm.madeira.gov.pt
  • Nuno Cristo, «Quanto de cavaquinho tem um ukulele?» e «How much of cavaquinho is there in a ukulele?», 2026. academia.edu academia.edu
  • Nicholas B. Miller, «Crossing Seas and Labels», Portuguese Literary & Cultural Studies, 33, 2021. Os contratos de trabalho. ojs.lib.umassd.edu
  • Melody Lassalle, transcrição do Pacific Commercial Advertiser de agosto de 1879 sobre a chegada do Ravenscrag. yourislandroutes.com
  • DNoticias, «Protocolo entre Governo e Xarabanda assinala influência madeirense no Havai», 23 de abril de 2019, na cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt