Descobrimentos · episódio 10

Um frade de Veneza ouviu dizer muitas vezes que havia, num golfo do sul, uma coluna com uma mão e um letreiro a avisar que dali não se passasse.

O mapa-múndi de Fra Mauro, por volta de 1450, com o sul em cima: quase dois metros de diâmetro e perto de três mil legendas (Biblioteca Nazionale Marciana, Veneza; reprodução em domínio público, Wikimedia Commons).
FIG. 02O mapa-múndi de Fra Mauro, por volta de 1450, com o sul em cima: quase dois metros de diâmetro e perto de três mil legendas (Biblioteca Nazionale Marciana, Veneza; reprodução em domínio público, Wikimedia Commons).

Não se atreveu a dá-lo por certo. No seu mapa do mundo, escreveu: «aqui quero que os portugueses que navegam este mar digam se é verdade o que ouvi, porque eu não me atrevo a afirmá-lo».

A ilha de São Miguel, na laguna de Veneza, pintada por Francesco Guardi nos anos de 1770; a igreja que se vê é posterior ao tempo de Fra Mauro (Metropolitan Museum of Art, domínio público).
FIG. 03A ilha de São Miguel, na laguna de Veneza, pintada por Francesco Guardi nos anos de 1770; a igreja que se vê é posterior ao tempo de Fra Mauro (Metropolitan Museum of Art, domínio público).

O mapa ainda existe. É um círculo com quase dois metros de diâmetro, o sul em cima, perto de três mil legendas, e está em Veneza, na Biblioteca Marciana. Quem o fez chamava-se Fra Mauro e era irmão leigo no mosteiro camaldulense de São Miguel, numa pequena ilha da laguna, entre Veneza e Murano. Nos mesmos anos, o rei de Portugal, D. Afonso V, pagava ao mosteiro, em ouro, um mapa-múndi que o frade estava a fazer para ele.

Os lançamentos do livro do abade de São Miguel sobre o mapa do rei de Portugal, transcritos por Placido Zurla em 1806: «La Majestad del Re de Portogal», vinte e oito ducados em ouro, onze para os pintores, um escriba dezassete dias a doze soldos (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 84, Internet Archive, domínio público).
FIG. 04Os lançamentos do livro do abade de São Miguel sobre o mapa do rei de Portugal, transcritos por Placido Zurla em 1806: «La Majestad del Re de Portogal», vinte e oito ducados em ouro, onze para os pintores, um escriba dezassete dias a doze soldos (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 84, Internet Archive, domínio público).

Porque haveria um homem que desenhava o mundo inteiro de pedir a verdade a marinheiros?

Pintura de um piloto numa caravela portuguesa a desenhar a costa de África que tem diante dos olhos, nos anos de 1450 (figura genérica, não retrato).
FIG. 05Pintura de um piloto numa caravela portuguesa a desenhar a costa de África que tem diante dos olhos, nos anos de 1450 (figura genérica, não retrato).

As contas do rei ficaram no livro de entrada e saída do abade. A 8 de fevereiro de 1457, o primeiro depósito: vinte e oito ducados em ouro, em nome de «La Majestad del Re de Portogal», para acabar a obra do seu mapa-múndi, «el qual lavora Fra Mauro», aquele em que Fra Mauro trabalhava. No mesmo dia, onze ducados para os pintores. Depois, um escriba que trabalhou dezassete dias a escrever no mapa, a doze soldos por dia; mais escribas e um mestre; em fevereiro de 1459, dinheiro para comprar azul. O livro não diz quanto custou o mapa ao todo. Diz, linha a linha, o que custava pôr o mundo num pergaminho: ouro, pintores, dias de escriba, azul.

A legenda do mapa sobre o mar do sul, transcrita por Zurla em 1806: os homens que «la maiesta del Re de Portogallo ha mandato cum le suo caravele a zercar e veder ad occhio» (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 61, Internet Archive, domínio público).
FIG. 06A legenda do mapa sobre o mar do sul, transcrita por Zurla em 1806: os homens que «la maiesta del Re de Portogallo ha mandato cum le suo caravele a zercar e veder ad occhio» (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 61, Internet Archive, domínio público).

Na mesa do frade estavam Ptolomeu, as cartas de marear, Marco Polo, o viajante Niccolò de' Conti e o desenho que clérigos etíopes lhe fizeram da terra deles, com as próprias mãos. E estavam cartas novas: as que os homens das caravelas portuguesas tinham feito daquela navegação, com nomes novos postos a rios, golfos, cabos e portos. «Das quais tive cópia», escreveu Fra Mauro. Nem tudo chegou a tempo. Já falámos de Alvise Cadamosto, o veneziano que em 1455 navegou para sul numa caravela do Infante. Cadamosto só escreveu o relato depois de voltar a Veneza, e é por isso, nota o Dicionário Biográfico dos Italianos, que Fra Mauro não o tem em conta.

Pormenor do mapa de Fra Mauro: a Península Ibérica, o estreito de Gibraltar, o «Oceanus Athlanticus» com os seus navios e a costa ocidental de África a subir para o sul, que no mapa fica em cima (Biblioteca Nazionale Marciana; reprodução em domínio público).
FIG. 07Pormenor do mapa de Fra Mauro: a Península Ibérica, o estreito de Gibraltar, o «Oceanus Athlanticus» com os seus navios e a costa ocidental de África a subir para o sul, que no mapa fica em cima (Biblioteca Nazionale Marciana; reprodução em domínio público).

Muitas opiniões e leituras, escreve o frade numa legenda sobre o mar do sul, dizem que a água não rodeia a parte meridional da terra. Mas ele ouviu muitos testemunhos em contrário, «e sobretudo os daqueles que a majestade do rei de Portugal mandou com as suas caravelas a buscar e ver com os olhos». Esses diziam ter corrido aquelas costas mais de duas mil milhas para lá do estreito de Gibraltar.

Pormenor do mapa de Fra Mauro: o cabo a que o mapa chama Diab, na ponta sul de África, e o mar à sua volta, com navios desenhados (Biblioteca Nazionale Marciana; reprodução em domínio público).
FIG. 08Pormenor do mapa de Fra Mauro: o cabo a que o mapa chama Diab, na ponta sul de África, e o mar à sua volta, com navios desenhados (Biblioteca Nazionale Marciana; reprodução em domínio público).

E acrescenta: se alguém quiser contradizer os que viram com os olhos, muito menos se poderá acreditar nos que deixaram por escrito o que nunca viram, e apenas supuseram que assim fosse.

A legenda da coluna, transcrita por Zurla em 1806: «ma qui voglio che Portogalesi che navegano questo mar dicano se le vero quel che ho audito» (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 58, Internet Archive, domínio público).
FIG. 09A legenda da coluna, transcrita por Zurla em 1806: «ma qui voglio che Portogalesi che navegano questo mar dicano se le vero quel che ho audito» (Il mappamondo di Fra Mauro, Veneza, 1806, p. 58, Internet Archive, domínio público).

Juntou-lhes outras provas. Um homem digno de fé contou-lhe que uma tempestade o levara, num navio da Índia, quarenta dias para lá do cabo de Sofala. O geógrafo romano Pompónio Mela falava de um homem que saíra do golfo Arábico e chegara a Cádis por mar. E o frade concluiu: pode afirmar-se sem dúvida nenhuma que a parte austral é navegável.

A ideia não era nova: um mapa de 1321 já cercava África de mar. Nova era a razão que o frade dava. Sobre o mar do sul, a palavra de quem tinha visto valia mais do que a de quem só supusera, e quem tinha visto aquela costa eram os homens das caravelas do rei de Portugal. Por isso é a eles que pede notícias da coluna.

Do mapa do rei não se conhece rasto seguro em Portugal. A 24 de abril de 1459, o livro do mosteiro dá-o por enviado, por intermédio de um veneziano, messer Stefano Trevisan. O historiador Angelo Cattaneo e o Museo Galileo, de Florença, dão-no por perdido, e os estudiosos nem sequer estão de acordo sobre qual veio primeiro, o do rei ou o que ficou em Veneza.

Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o extremo sul de África e mostrou, por mar, que o Atlântico comunicava com o Índico: o mar da Índia, como o frade escrevera em São Miguel, era oceano, e não um lago fechado.

Fontes9 referências
  • Placido Zurla, Il mappamondo di Fra Mauro camaldolese descritto ed illustrato, Veneza, 1806. archive.org
  • Angelo Cattaneo, «European Medieval and Renaissance Cosmography: A Story of Multiple Voices», Asian Review of World Histories, vol. 4, n.º 1, 2016. doi.org
  • Angelo Cattaneo, «Fra Mauro (c. 1450)», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH. eve.fcsh.unl.pt
  • Museo Galileo, Fra Mauro's world map (exposição digital). mostre.museogalileo.it
  • «Mappamondo di Fra Mauro», Wikipedia em italiano (com a hipótese de Piero Falchetta, «Il mappamondo (scomparso?) di Fra Mauro», 2011). it.wikipedia.org
  • Thomaz Oscar Marcondes de Souza, «A circunavegação da África na Idade Média», Revista de História, Universidade de São Paulo. revistas.usp.br
  • «Da Mosto, Alvise», Dizionario Biografico degli Italiani, Treccani. treccani.it
  • Instituto Camões, Navegações Portuguesas, «Henricus Martellus». arquivo.pt
  • Visconde de Santarém, Mappemonde dressée en 1459, par Fra Mauro, Paris, 1854, prancha de título (David Rumsey Map Collection). archive.org