Descobrimentos · episódio 10
Um frade de Veneza ouviu dizer muitas vezes que havia, num golfo do sul, uma coluna com uma mão e um letreiro a avisar que dali não se passasse.

Não se atreveu a dá-lo por certo. No seu mapa do mundo, escreveu: «aqui quero que os portugueses que navegam este mar digam se é verdade o que ouvi, porque eu não me atrevo a afirmá-lo».

O mapa ainda existe. É um círculo com quase dois metros de diâmetro, o sul em cima, perto de três mil legendas, e está em Veneza, na Biblioteca Marciana. Quem o fez chamava-se Fra Mauro e era irmão leigo no mosteiro camaldulense de São Miguel, numa pequena ilha da laguna, entre Veneza e Murano. Nos mesmos anos, o rei de Portugal, D. Afonso V, pagava ao mosteiro, em ouro, um mapa-múndi que o frade estava a fazer para ele.

Porque haveria um homem que desenhava o mundo inteiro de pedir a verdade a marinheiros?

As contas do rei ficaram no livro de entrada e saída do abade. A 8 de fevereiro de 1457, o primeiro depósito: vinte e oito ducados em ouro, em nome de «La Majestad del Re de Portogal», para acabar a obra do seu mapa-múndi, «el qual lavora Fra Mauro», aquele em que Fra Mauro trabalhava. No mesmo dia, onze ducados para os pintores. Depois, um escriba que trabalhou dezassete dias a escrever no mapa, a doze soldos por dia; mais escribas e um mestre; em fevereiro de 1459, dinheiro para comprar azul. O livro não diz quanto custou o mapa ao todo. Diz, linha a linha, o que custava pôr o mundo num pergaminho: ouro, pintores, dias de escriba, azul.

Na mesa do frade estavam Ptolomeu, as cartas de marear, Marco Polo, o viajante Niccolò de' Conti e o desenho que clérigos etíopes lhe fizeram da terra deles, com as próprias mãos. E estavam cartas novas: as que os homens das caravelas portuguesas tinham feito daquela navegação, com nomes novos postos a rios, golfos, cabos e portos. «Das quais tive cópia», escreveu Fra Mauro. Nem tudo chegou a tempo. Já falámos de Alvise Cadamosto, o veneziano que em 1455 navegou para sul numa caravela do Infante. Cadamosto só escreveu o relato depois de voltar a Veneza, e é por isso, nota o Dicionário Biográfico dos Italianos, que Fra Mauro não o tem em conta.

Muitas opiniões e leituras, escreve o frade numa legenda sobre o mar do sul, dizem que a água não rodeia a parte meridional da terra. Mas ele ouviu muitos testemunhos em contrário, «e sobretudo os daqueles que a majestade do rei de Portugal mandou com as suas caravelas a buscar e ver com os olhos». Esses diziam ter corrido aquelas costas mais de duas mil milhas para lá do estreito de Gibraltar.

E acrescenta: se alguém quiser contradizer os que viram com os olhos, muito menos se poderá acreditar nos que deixaram por escrito o que nunca viram, e apenas supuseram que assim fosse.

Juntou-lhes outras provas. Um homem digno de fé contou-lhe que uma tempestade o levara, num navio da Índia, quarenta dias para lá do cabo de Sofala. O geógrafo romano Pompónio Mela falava de um homem que saíra do golfo Arábico e chegara a Cádis por mar. E o frade concluiu: pode afirmar-se sem dúvida nenhuma que a parte austral é navegável.
A ideia não era nova: um mapa de 1321 já cercava África de mar. Nova era a razão que o frade dava. Sobre o mar do sul, a palavra de quem tinha visto valia mais do que a de quem só supusera, e quem tinha visto aquela costa eram os homens das caravelas do rei de Portugal. Por isso é a eles que pede notícias da coluna.
Do mapa do rei não se conhece rasto seguro em Portugal. A 24 de abril de 1459, o livro do mosteiro dá-o por enviado, por intermédio de um veneziano, messer Stefano Trevisan. O historiador Angelo Cattaneo e o Museo Galileo, de Florença, dão-no por perdido, e os estudiosos nem sequer estão de acordo sobre qual veio primeiro, o do rei ou o que ficou em Veneza.
Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o extremo sul de África e mostrou, por mar, que o Atlântico comunicava com o Índico: o mar da Índia, como o frade escrevera em São Miguel, era oceano, e não um lago fechado.
Fontes9 referências
- Placido Zurla, Il mappamondo di Fra Mauro camaldolese descritto ed illustrato, Veneza, 1806. archive.org
- Angelo Cattaneo, «European Medieval and Renaissance Cosmography: A Story of Multiple Voices», Asian Review of World Histories, vol. 4, n.º 1, 2016. doi.org
- Angelo Cattaneo, «Fra Mauro (c. 1450)», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH. eve.fcsh.unl.pt
- Museo Galileo, Fra Mauro's world map (exposição digital). mostre.museogalileo.it
- «Mappamondo di Fra Mauro», Wikipedia em italiano (com a hipótese de Piero Falchetta, «Il mappamondo (scomparso?) di Fra Mauro», 2011). it.wikipedia.org
- Thomaz Oscar Marcondes de Souza, «A circunavegação da África na Idade Média», Revista de História, Universidade de São Paulo. revistas.usp.br
- «Da Mosto, Alvise», Dizionario Biografico degli Italiani, Treccani. treccani.it
- Instituto Camões, Navegações Portuguesas, «Henricus Martellus». arquivo.pt
- Visconde de Santarém, Mappemonde dressée en 1459, par Fra Mauro, Paris, 1854, prancha de título (David Rumsey Map Collection). archive.org
