Descobrimentos · episódio 15
Cem léguas de costa por ano. Era essa, contam os cronistas, a condição com que D. Afonso V arrendou o comércio da Guiné a um mercador de Lisboa, Fernão Gomes, no fim dos anos sessenta do século XV.
Pagava uma renda ao rei, ficava com o negócio e, em cada ano, tinha de mandar descobrir mais cem léguas para lá da Serra Leoa, onde tinham acabado, escreve João de Barros, os últimos descobridores, Pêro de Sintra e Soeiro da Costa.

Nenhuma crónica o põe a bordo. Mas os capitães que trabalharam ao abrigo do seu contrato chegaram ao ouro e passaram para lá da linha do equador, onde a estrela do Norte, que dava a latitude aos pilotos, desce até ao mar e deixa de se ver. E o rei pagou-lhe com um apelido.
Barros chama-lhe «cidadão honrado de Lisboa». Não era um estreante: já em 1455 o seu nome aparecia ligado aos tratos da Guiné. O arrendamento era por cinco anos, a duzentos mil reais por ano, diz Barros. Ao fim dos cinco anos, pelas contas dele e de Damião de Góis, ficariam quinhentas léguas descobertas. O texto do contrato não é conhecido; a cláusula chegou até nós pelo que os cronistas contam.

O trato que arrendou incluía ouro, malagueta, marfim e também cativos, como era regra naquela costa e naquele século. O rei guardou para si todo o marfim, a um preço fixo. Por mais uma renda, Fernão Gomes obteve ainda o exclusivo da malagueta, a mesma que daria nome a uma costa inteira. Resgate era como então se chamava à troca de mercadorias naquela costa, e podia ainda, escreve Barros, resgatar em cada ano um gato de algália, «por cousa mui estimada naquelle tempo».
Em janeiro de 1471, dois cavaleiros da Casa do Rei, João de Santarém e Pêro Escobar, chegaram a uma terra onde se resgatava ouro. Um dos pilotos era Álvaro Esteves, morador em Lagos. Dele escreveu Barros que foi «o mais estremado homem, que havia em Hespanha do seu officio», isto é, o melhor piloto da Península, e Duarte Pacheco Pereira diz quase o mesmo por outras palavras.

O primeiro resgate de ouro naquela terra fez-se numa aldeia chamada Samá, que teria uns quinhentos vizinhos. Era a esse lugar, escreve Pacheco, que «neste tempo, se chamava a Mina». Anos depois, D. João II mandaria fazer uma fortaleza um pouco mais abaixo, na mesma costa.
Ali a costa vira para leste, e os navios seguiram-na, golfo adentro, e depois para sul. Por esse tempo, escreve Barros, Fernão do Pó descobriu uma ilha a que chamou Formosa, e que perdeu esse nome para ficar com o dele. Mais a sul, um capitão, Lopo Gonçalves, deu o seu nome a um cabo baixo e delgado que, escreve Pacheco, jaz «pontualmente» debaixo do círculo da equinocial. Ainda hoje, no Gabão, se chama cabo Lopez.

Para lá do cabo Lopez, um cavaleiro da Casa do Rei, Rui de Sequeira, achou outro cabo no dia de Santa Catarina, 25 de novembro, e deu-lhe o nome da santa. Ficava já a sul do equador. Os descobridores de Fernão Gomes, escreve Barros, chegaram até ali «pela obrigação do seu contrato», e nesse tempo o mercador ganhou «mui grossa fazenda».
Quanto se andou? Duarte Pacheco Pereira conta seiscentas e cinquenta léguas para todo o reinado, e dá a obra ao rei. Com base no contrato, escreve J. Semedo de Matos na Revista da Armada, exploraram-se mais de seiscentas léguas da costa africana: pelo padrão do próprio Pacheco, que contava dezoito léguas por grau, perto de três mil e setecentos quilómetros. A quota, contada pelos cronistas, era de quinhentas.

Pacheco, que escreveu anos depois sobre o cabo de Lopo Gonçalves, deixou a propósito dele uma frase. Os antigos cosmógrafos tinham dito que a terra debaixo da equinocial era inabitável, pela grande quentura do sol; ali, diz ele, havia muita gente. E resume: «A experiência nos faz viver sem engano das abusões e fábulas».
Debaixo da linha, porém, mudava o céu.

Quem está debaixo da equinocial, explica Pacheco, vê os dois polos tocarem igualmente o horizonte. Em 1455, à boca do Gâmbia, Cadamosto já via a estrela do Norte «muito baixa sobre o mar». No sul não há nenhuma estrela tão perto do polo.
Um contrato de comércio, com a sua quota anual, tinha levado os navios para lá do alcance do velho método. Semedo de Matos considera que perder de vista a estrela Polar foi uma das razões por que a exploração da costa entrara num impasse a partir de 1460, e que foi o contrato de Fernão Gomes a alterá-lo. A resposta, navegar pela altura do Sol, com tábuas feitas para isso, viria depois: no tempo de D. João II, escreve Barros.

Em 1474, o rei deu a Fernão Gomes armas novas e um apelido, «da Mina», em memória do descobrimento dela. A carta é de 29 de agosto. Quatro anos depois, em 1478, fê-lo do seu Conselho, porque o comércio da Guiné e o resgate da Mina já ajudavam tanto o reino, escreve Barros, «pola boa industria de Fernão Gomes».
E um poeta da corte, Nuno Pereira, numas trovas que o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende imprimiu em 1516, pô-lo a dizer:

«Todo Portugal me preza / porque fui descobridor / da Mina de Sua Alteza / do Príncipe nosso senhor».
Descobridor, diz o verso. Ao mar foram os capitães. Ele pagou a renda, e a cláusula cumpriu-se.

De Fernão Gomes ficaram a cláusula das cem léguas, contada pelos cronistas, as armas, o apelido e uma costa que os capitães do seu contrato levaram para lá do equador. Sabe-se o dia em que o rei lhe passou a carta das armas. Em que ano nasceu, e em que ano morreu, não se sabe.
Fontes11 referências
- João de Barros, Ásia, Década I, liv. II, cap. II, e liv. IV, cap. II (archive.org).
- Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, 3.ª ed., introdução de Damião Peres, Lisboa, Academia Portuguesa da História (archive.org).
- Damião de Góis, Chronica do Principe D. Joam, ed. de Coimbra (archive.org).
- Garcia de Resende, Cancioneiro Geral, Lisboa, 1516, fac-símile de 1904 (archive.org): trovas de Nuno Pereira.
- Pedro Martins, «Fernão Gomes», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH.
- J. Semedo de Matos, «A Marinha Joanina (4): O contrato de Fernão Gomes», Revista da Armada.
- Aurélio de Araújo Oliveira, «Fernão Gomes da Mina, Mercador e Conselheiro de Monarcas», Academia de Marinha, 2012 (arquivo.pt).
- António Costa Canas, «The Astronomical Navigation in Portugal in the Age of Discoveries», Cahiers François Viète, III-3, 2017.
- Siebren van der Werf, «History and critical analysis of fifteenth and sixteenth century nautical tables», Journal for the History of Astronomy, 2017.
- Livro do Armeiro-Mor, 1509, Arquivo Nacional Torre do Tombo, fl. 118r (Wikimedia Commons, domínio público).
- Wikipedia, «Fernão Gomes da Mina» e «Fernão Gomes».
